Saiu o livro Mulheres Extraordinárias

livroEle já está disponível nas nuvens e eu já me sinto nua por completo. Estou falando do Mulheres Extraordinárias, o livro que escrevi com olhar curioso e pés famintos, que percorreram lugares distantes e nem sempre bonitos.  Trata-se da união de reportagens e perfis que escrevi sobre algumas mulheres e suas realidades escondidas por este país, mulheres não ouvidas, mulheres esquecidas.

Sinto-me nua, porque nas reportagens e perfis acabei me revelando, entre uma escolha e outra, no meio da apuração e nos perrengues que só quem bota a mochila nas costas e pega a estrada sabe que acontecem, e como acontecem. Neste livro, do qual me orgulho muito, coloquei-me no lugar delas e dei minha “voz” a elas.

Mãe órfã, mulher traficada, refugiada e freira ao lado de indígenas, negras, quilombolas; mulheres em situação de rua, que luta detrás das grades. Tem Mc Soffia, tem Mãe de Maio, Mãe da Sé. Tem meninas que gostam de meninas, mulheres que apanharam e recomeçaram, mulheres belas. Tem a Bela, a vida, a resistência, o grito. Tem Guadalupe, tem Maria, te fé.

O livro está disponível no site da Paulus, editora que me fez este convite inusitado para uma repórter “da rua” e que apostou em dar voz a essas mulheres incríveis com suas dores e suas alegrias.

Não é um manual de como fazer boas reportagens. Não! Mas é uma boa leitura para os que pretendem se aventurar na reportagem. Um choque de realidade distante do glamour que existe em torno da profissão que sigo antes mesmo de ser graduada.

O preço é bem acessível, por isso deixo o convite sem constrangimentos… leia as 256 páginas ilustradas por Rebeca Venturini, leia estas mulheres e com elas as diferentes realidades socioeconômicas e culturais, os problemas e soluções que encontraram, que trilharam para seguir. Espero de coração que goste, que se constranja, que sinta indignação, compaixão e esperança. Boa leitura!

Dom Zumbi para não ser esquecido

Dom José Maria Pires _ Foto de Felipe Rabello

Dom José Maria Pires _ Foto de Felipe Rabello

Havia injustiça e situações que você não aguenta. Tem que falar, tem que gritar. Então, realmente o que levou a gente a tomar posição foi a situação do povo. Ou você toma posição ou você está traindo o seu ministério.”

Encontramos-nos no jardim da casa de repouso dos jesuítas em Belo Horizonte, Minas Gerais. Era um dia quente, mas providenciamos uma sombrinha fresca para conversar. Ficamos por ali, entre pássaros e o vento, por cerca de duas horas tratando dos 95 anos de dom José Maria Pires.

A conversa só foi interrompida por umas boas risadas e por uns goles d’água desta repórter, já que o entrevistado não parecia cansar ou perder o fôlego de recuperar sua história.

Dom José é conhecido popularmente por dom Pelé, em homenagem ao atleta santista que se destacou na década de 1960, já que ele mesmo se destacava como o único bispo negro do País; hoje ainda são apenas 13. Também é conhecido por dom Zumbi, por motivação de dom Pedro Casaldáliga, que o “rebatizou” na celebração do centenário da Abolição da Escravatura, em 1988, na Serra da Barriga, que fica a cerca de nove quilômetros do município de União dos Palmares, em Alagoas.

E foi com dom Zumbi que conversamos naquela tarde. Seus poucos cabelos brancos estavam alinhados. A visão esquerda periférica, comprometida por um acidente vascular cerebral anos atrás. Suas mãos carregavam o anel de bispo, que era simples, e um lenço branco que saía do bolso, de tempos em tempos, para socorrer ‘o nariz de negro’ de uma gripe que parecia iniciar. A voz forte contava assim, com o jeito mineiro de ser, a história de uma vida toda, que ia da infância lá em Córregos, no interior de Minas Gerais, até sua estada na capital mineira, entre os jesuítas.

Filho de Eleutério e dona Pedralina, José nasceu em 15 de março de 1919. Seus primeiros anos de vida passou ali mesmo na pequena Córregos, junto de seus irmãos: Geraldo, João, Maria da Cruz e Florinda. Foi assim até a morte da mãe em 1927, quando os filhos foram separados.

José soube da morte da mãe apenas quatro meses depois. “Eu estava em Diamantina com a madrinha e fui saber da morte da mamãe meses depois. Naquele tempo não tinha telefone. Papai escreveu uma carta que chegou pelo correio e foi assim que fiquei sabendo”, contou dom José. O pai era carpinteiro e sozinho não tinha como criar os filhos, então Geraldo ficou com o pai; João, o terceiro, ficou com monsenhor Domingos [Januário Santana]. A quarta, Maria da Cruz, ficou com os padrinhos dela e a última, que era Florinda, pequenina aos quatro meses, ficou com duas tias em Córregos mesmo.

José ficou com a madrinha Maria D’áfrica Machado, em Diamantina. E foi por ali que aos 12 anos entrou para o seminário, iniciando os estudos para o sacerdócio. Mas a decisão acontecera bem antes, aos oito anos, ainda em Córregos, como conta. “Em um domingo, depois da missa, no meio de todos, eu disse que queria ser padre. Todos riram, foi uma decepção só”. A madrinha puxou o menino pelo braço e o levou para conversarem sobre a novidade. “José, o que você disse é algo muito sério, reze para São José que é o padroeiro das vocações e veremos o que ele arruma”. E foi a partir da conversa com a madrinha que José passou a ir à igreja todos os dias antes da aula. Parava diante da imagem de São José, se ajoelhava e dizia: “São José, eu quero ser padre”. Fazia o sinal da cruz, girava os calcanhares e seguia rumo à escola.

O menino gostava de rezar, aprendera com o pai ainda pequeno a desfiar o rosário, todas as noites, antes de se deitar. Aos domingos ia à missa religiosamente. “O vigário era muito compreensivo com o povo, até com os que tomavam cachaça”, contou divertindo-se.

A oração de José a seu padroeiro homônimo rendeu frutos. No dia 25 de janeiro de 1931 entrou para o seminário em Diamantina. Não fora fácil. A madrinha teve de fazer uma vaquinha para providenciar o enxoval. “A gente andava de batinas. Precisavam de duas, de um cobertor, até bacia tínhamos que levar, porque naquele tempo o seminário não fornecia nada. Então a madrinha e as amigas fizeram uma cotização, como se costuma dizer”, contou o bispo.

Na véspera, José com seus 12 anos mal conseguia dormir. “Quando acordei disse: ‘graças a Deus que eu vou para o seminário’”. E foi. Entre os muros do Seminário Sagrado Coração de Jesus, inaugurado em 1867, por dom João Antônio dos Santos, o menino iniciou seus estudos no seminário menor. Eram seis aulas por dia, quatro de manhã e duas à tarde. Lições de português e latim, francês e ciências. Aos sábados à tarde tinha o futebol. “A gente não podia tirar a batina, então suspendia e prendia com um cinturão pra deixar as pernas livres”, contou com riso.

Já no seminário maior levantava às 5 horas da manhã, lavava o rosto e ia para a sala de oração: uma hora antes de iniciar a missa e depois dela tomava o café e começava os estudos de filosofia, história da Igreja, grego, hebraico. Tudo em silêncio, em oração, em fila. “Era um ritmo puxado, só de estudos, completamente diferente do que é hoje. Hoje é impossível pensar em uma organização desta maneira. Não digo que era melhor ou pior, era o que a gente podia ter naquela época”, explicou dom Zumbi.

Aos 22 anos terminou os estudos, realizou os exames finais e fez seus votos. Nunca pensou em desistir. Foi ordenado em 20 de dezembro de 1941.

Já padre – Permaneceu o ano de 1942 no seminário. No final daquele ano foi mandado para Travessão de Guanhães, um distrito mineiro do município de São Miguel de Guanhães, onde os protestantes juntavam seus fiéis. “Lá eu comecei a ter um contato com os protestantes. Tinha um que entendia bem de arrumar relógio e eu precisava arrumar o da paróquia. Ele ia e nem entrava na igreja”, lembra dom José, sorrindo do “causo”.

Padre José se dividia entre os cuidados das paróquias em Açucena e Naque, uma cidade no interior de Minas Gerais. A distância era de seis horas a cavalo mais trem. Usava um facão para ir abrindo os caminhos da mata fechada. “A gente era jovem e até gostava. Eu ia cortando os galhos. Tinha era medo de descer do animal. Chegava de manhãzinha lá em Açucena e ia direto para a igreja. Chegava e tocava o sino, o pessoal sabia que o padre chegou. Depois ia para casa e tomava banho, nem água podia tomar porque já ia celebrar”, recorda dom José de suas aventuras de padre moço por Minas Gerais.

O jejum era obrigatório antes das missas. Jejum natural – da meia-noite até a hora da comunhão. O sacrifício maior era quando as pessoas queriam se confessar antes da missa e assim o padre passava horas sem comer atendendo o povo, mesmo depois de uma longa e cansativa viagem a cavalo pelo mato. “Este era o maior sacrifício, porque você tem sede e não sei como não morri de sede”, desabafou.

Ficou neste vai e vem por alguns anos, não se lembra ao certo quantos. Até que o arcebispo o mandou trabalhar na assistência aos “padres velhos”. Foi nomeado missionário arquidiocesano da irmandade da providência. “Eu fazia batizado, assistia casamento, fazia tudo com o objetivo de conseguir recursos para a chácara para os idosos. Sabendo que era para os padres velhos entrou uma chuva de dinheiro. Atendia confissão, ajudava os vigários, visitava as famílias. Foi um trabalho muito interessante e o povo colaborou que você não queira saber. Às vezes não recebia dinheiro, mas recebia bezerro, galinha, ovos”, recorda dom José, que ficou na Irmandade por seis anos.

Logo após foi nomeado pároco de Corvello, onde ficou por pouco tempo, até ser ordenado bispo em 22 de setembro de 1957. Tornava-se o terceiro bispo da diocese de Araçuaí.

Bispo – Dom José participou das quatro sessões do Concílio Vaticano 2º e para ele foi um momento que mudou “completamente” o estilo de Igreja. “São João 23 quando completou o Concílio dizia que não era para proclamar novos dogmas não, era para a gente realizar a Igreja unida. Os concílios antigos excomungavam, o Vaticano 2º era para dizer ‘a paz esteja com você’”, disse.  E continuou descrevendo as reações dos que protagonizaram aquele momento.

“A gente sai da primeira sessão do Concílio e começa a refletir e ver que esse povão é que frequenta a Igreja. Então se a Igreja é povo e o povo que nós temos é simples e humilde, então é com este povo que a gente tem de trabalhar. Você não exclui os outros, mas a função tem de ser na comunidade eclesial de base”. Desta conclusão dos bispos é que vai surgir um pacto interessante. “O Pacto das Catacumbas reuniu um grupo de bispos que fizeram um compromisso de pobreza. Pobreza não é miséria não, mas é isso, você ter o necessário. Não era necessário ter uma cruz de outro, então substituíamos por uma de madeira. Depois, meu Deus, será que a gente pode, trabalhando com os pobres, morar em um palácio?”, disse dom José, lembrando-se da radicalidade de dom Hélder Câmara, que deixou o Palácio dos Manguinhos, o palácio episcopal de Recife, para morar na sacristia de uma igreja.

Uma prosa boa_Foto de Osnilda Lima

Uma prosa boa_Foto de Osnilda Lima

Dom José também assumiu o pacto. Suas visitas pastorais eram simples. Lembra-se – e com diversão – de quando foi à cidade de Pilar, já na Paraíba, e foi hospedado por uma professora que morava com o pai. Tinha lá um quarto “arrumadinho”, conta. Foi tomar seu banho e quando voltou encontrou duas camas. “O quarto era grande. Parece que era um viajante, porque se levantou muito cedo. Dividimos o espaço e isso se chama opção preferencial pelos pobres. Não só porque você vai dar atenção aos pobres, mas porque também você vai adotar um estilo de vida que seja realmente bem próximo dos pobres”, explicou o bispo.

Depois do Concílio Vaticano 2º, dom José foi nomeado arcebispo da Paraíba, tomando posse em 2 de dezembro de 1965. Eram tempos de ditadura. O presidente João Goulart acabara de ser deposto pelos militares, depois de ter governado o País de 1961 a 1964. No começo, dom José, como a maioria do prelado brasileiro, defendia a “revolução”. “No começo a gente acreditava na revolução. Não houve nada de mais, nada de prisões. Nesta ocasião eu já era arcebispo da Paraíba e o marechal foi a Recife visitar uma unidade militar lá. Nós bispos fomos todos convidados a jantar com o marechal Castelo Branco”. O expediente dos militares parecia convencer os bispos.

O jantar dos militares servido aos bispos tinha carne de sol com macaxeira. A sobremesa foi doce de jaca, que para o paladar do arcebispo só é boa quando dura. A água mineral oferecida era das fontes da Paraíba. O presidente Castelo Branco ia de mesa em mesa. E assim os militares convenceram a Igreja, de modo doce, até que o amargo começou a surgir da boca dos presos e torturados.

“Acontece que logo depois começaram as prisões e aí ameaçavam de prisão um padre na Paraíba porque ele fez um sermão do qual não gostaram. Eu peguei meu jipe e viajei 500 e tantos quilômetros até Belo Horizonte para conversar com o general, era o Mourão”. O general mineiro Olympio Mourão Filho foi o mesmo que em 31 de março de 1964 ordenou que as tropas da 4ª Divisão de Infantaria, que comandava em Juiz de Fora, seguissem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, fato que precipitou o golpe militar de 1964.

“Eu não vou admitir que prendam padres na minha diocese sem antes vocês conversarem comigo, eu disse, e ele dizia que estávamos caminhando para dentro do comunismo”, contou-nos dom José.

Prenderam padres, estudantes, agricultores, gente de pastoral. “O Exército começa a assumir a coisa e vai prendendo adoidadamente. Os padres e agentes de pastoral você tem que fazer algo, você sabe que são incapazes de fazer aquilo de que estão sendo acusados, então tem que realmente ir atrás”, conta. E iam. Na Paraíba, além de contar com o grupo dos notáveis, três monsenhores velhos que andavam de batina e com o chapéu de sol atrás dos presos, surgiu o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Paraíba, o primeiro do Brasil, fundado por dom José.

“Tinha que defender aquele pessoal e só com advogado para ficar exclusivamente com aqueles casos, então eu fui a São Paulo e conversei com dom Paulo Evaristo Arns, ele achou que o negócio ia dar certo”. E deu. Dom Paulo foi à Paraíba para inaugurar o centro de defesa que tinha o objetivo de ajudar os presos políticos e suas famílias.

“Havia injustiça e situações que você não aguenta. Tem que falar, tem que gritar. Então, realmente o que levou a gente a tomar posição foi a situação do povo. Ou você toma posição ou você está traindo o seu ministério. Que bispo é este? Que padre é este que está a serviço do povo e na hora que o povo é massacrado você então não fala nada? Então a gente denunciava. Eu  tenho algumas cartas pastorais, são todas de denúncias”, revelou.

Mas a tomada de postura contra o regime não foi fácil e sofreu retaliações dentro da Igreja. “Dentro da Igreja no começo nós não éramos aceitos. Muitas vezes os bispos do Sul não entendiam a coisa e achavam que era exagero nosso. Em um destes nossos encontros dom Hélder saiu chorando, porque foi colocar a situação de alguns que estavam sendo torturados e aí os bispos do Sul questionaram: ‘o senhor tem provas disso?’. Mas, meu Deus, prova de tortura?! A gente sabe pelas visitas que fazia, não tinha nada escrito, nada de provas não”, contou dom José, que junto a dom Paulo Evaristo Arns e dom Tomás Balduíno coordenou a publicação do documento “Eu ouvi os clamores deste povo”, que denunciava as questões da ditadura.

“Mas como é que a gente ia publicar aquilo? Eles foram de diocese em diocese mostrar o documento. No fim saiu um documento forte denunciando a ditadura e condenando a maneira através da qual os militares estavam conduzindo. Em todas as missas, em todas as dioceses do Nordeste o documento foi lido”, revela.

Preconceito – O menino José sentira preconceito no seminário. Muito antes de ter autoridade para enfrentar militares, foi vítima de uma tortura institucionalizada, aceita socialmente: o preconceito de raça. Em um dia normal de seminário, pisou no cordão de um colega. Branco, filho de família nobre, foi motivo o bastante para descobrir qual era seu lugar. “Ele me mostrou um canivete e disse: ‘lá fora você me paga’. Na hora do recreio eu fui pra cima dele e nós rolamos”, conta hoje, se divertindo. “Aí veio o regente, nos separou e nos colocou de castigo”.
Os dois ficaram de castigo até o regente justificá-lo para o diretor. “‘Este menino aqui é de boa família, este [nego] aqui é que não presta’. Durante a minha vida no seminário várias vezes eu senti isso. Como padre várias vezes a gente sentiu na paróquia esta discriminação e como bispo, a coisa ainda veio”, revelou aos 95 anos, e completou: “Eu me honro de ser negro. Sou negro no corpo e na alma. Olha meu cabelo, meu nariz, meu coração só podia ser de negro”.

Aos 74 anos dom José apresentou sua renúncia à Santa Sé, que chegou em 1976. Hoje é bispo emérito. Pregador de retiros. Contador de histórias e certamente a sua é da melhores. Encerramos a entrevista. Ele tomou, enfim, um gole d’água. Despediu-se atencioso e seguiu com passos lentos para seu descanso, deixando antes seu abraço e sorriso negro, de gente simples, que verdadeiramente se importa com quem lhe atravessa o caminho. A porta se fechou e voltamos para São Paulo.

Decisão sem volta

universo-jatoba-chadeleao1O suicídio é um grave problema de saúde pública presente em 75% dos países de baixa e média renda, inclusive o Brasil

Às 6h50 de um domingo de maio, um homem se jogou no ar. “Os bombeiros tentaram salvá-lo. Chegaram a conversar com ele, mas meu irmão disse que não queria viver. A gente desconfiava um pouco porque ele era muito calado. Trabalhava na mesma empresa há 17 anos e nunca foi de faltar nem de chegar atrasado”, disse a irmã Elisângela dos Santos. Assim, Rafael dos Santos suicidou-se. Foi um entre os 25 casos que, em média, ocorrem diariamente no Brasil – a estatística é da Organização Mundial da Saúde (OMS). Rafael tinha 39 anos e era pai de quatro filhos, mas acabou com a vida atirando-se da ponte estaiada Octávio Frias de Oliveira, no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo (SP), antes do término de seu casamento.

Por ano, no mundo, cerca de 800 mil pessoas optam pelo mesmo fim – uma morte a cada 40 segundos. Segundo a Universidade de Oxford, na Inglaterra, o número supera os óbitos causados por guerras, homicídios e desastres naturais em igual período – 669 mil. Globalmente, os suicídios respondem por 50% das mortes violentas entre homens e 71% entre as mulheres. Em 2020, projetam-se 1,5 milhão de casos, 2,4% das mortes mundiais. As taxas aumentam entre pessoas de 70 anos ou mais. “Jovens e idosos constituem os grupos etários mais sujeitos”, confirma Maria Cecília Minayo, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp). Entre os jovens, as causas mais comuns estão na dificuldade de emancipação da família e de entrada no mercado de trabalho, alta exigência acadêmica, não aceitação entre pares, dificuldades de assumir a orientação sexual, excessiva competitividade no trabalho e na família, e violência doméstica e comunitária, além da desestruturação familiar.

Sentido da vida – No Brasil, os suicídios cresceram 30% entre jovens de 15 e 29 anos, tornando-se a terceira causa de morte de pessoas em idade produtiva. No geral houve crescimento de 10,40% – mulheres, 17,80%; homens, 8,20%. Segundo o Ministério da Saúde, a taxa média de 5,8 suicídios por 100 mil habitantes é a metade da mundial, 11,4 por 100 mil, e está abaixo de outros países da América do Sul, como Argentina (10,3), Bolívia (12,2), Equador (9,2), Uruguai (12,1) e Chile (12,2).

No País, a distribuição do suicídio é desigual. Pesquisa realizada pela Ensp revela que a região Norte apresenta as menores taxas enquanto no Sul estão as maiores. Nele estão 45 dos 50 municípios com índices mais elevados de mortes autoprovocadas, entre pessoas acima de 60 anos. Por quê? “Em seu interior, de tradição europeia, a cultura do trabalho e familiar envolve todos os aspectos. Quando a pessoa se aposenta, não pode mais trabalhar ou já criou os filhos pode perder o sentido da vida”, responde Cecília, que também constatou: os idosos morrem principalmente em suas residências (51%) e o fator de maior frequência tanto para homens (32,1%) como para mulheres (31,7%) é o isolamento social.

Distimia – De modo geral é difícil generalizar as causas do suicídio, normalmente difusas. “Estudos evidenciam como fatores predisponentes doenças graves e degenerativas, dependência física, distúrbios e sofrimentos mentais e reações depressivas ou depressão severa”, enumera a pesquisadora, excetuando a depressão como um fator comum relevante. De fato, pesquisa recente realizada com 1.464 pessoas pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) apontou que 3% dos entrevistados que tentaram o suicídio atribuíram o fato à depressão, principalmente à distimia – uma variação mais leve do transtorno que se caracteriza por um crônico sentimento de negatividade – associada ao abuso do álcool. “Por ter duração longa e responder menos ao tratamento, a distimia impacta a vida das pessoas”, descreve o psiquiatra responsável pelo estudo, Bruno Mendonça Coelho. “Cerca de 90% dos suicídios relacionam-se com doenças psiquiátricas”, completa.

A OMS classifica o suicídio como um grave problema de saúde pública presente em 75% dos países de baixa e média renda. “Por isso trazemos a público a necessidade de alguma intervenção como a oferta de uma rede de saúde qualificada que ouça o indivíduo, o atenda a tempo e faça intervenções com a família e os sobreviventes. Estes fatores de proteção precisam estar disponíveis”, afirma o médico e coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio do Ministério da Saúde, Carlos Felipe Almeida D’Oliveira.

Prevenção – Pelas estatísticas, 90% dos suicídios podem ser previstos e algumas atitudes práticas, segundo Carlos Felipe, ajudam a minimizar tentativas. “Em locais onde as pessoas se precipitam é necessário colocar redes, assim como barreiras em pontes e vidros nas partes internas do hall de residências e locais de trabalho. No metrô de Nova Iorque, por exemplo, há cartazes em várias línguas orientando as pessoas sobre o comportamento de outras que possam colocar as vidas em risco. Já os seguranças são treinados para observar suicidas em potencial”, alerta o médico. Na prevenção, acrescente-se o diálogo e o cuidado com o próximo. “Pequenos sinais como o abandono de hobbies e o isolamento social podem mostrar que algo está errado e a família deve ficar atenta. Conversar ‘olho no olho’ é fundamental para a pessoa desabafar”, aconselha Antônio Batista, há mais de 15 anos voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que, gratuitamente, oferece apoio emocional 24 horas pelo telefone, chat, e-mail, telefonia VoIP, correspondência ou pessoalmente em postos espalhados pelo País.

De acordo com os voluntários, as ligações telefônicas vêm de pessoas comuns. “É gente que passa por um momento difícil, se sente fragilizada e sem esperança. Solitária, sofreu perdas e não têm com quem dividir a angústia”, afirma Antônio, que lembra de conversas que se estenderam por horas. “O pior caso que atendi foi de um pai que havia abusado da filha e, arrependido, queria se matar”, recorda Terezinha Garcia Torreglosa, voluntária do CVV de São José do Rio Preto (SP) há mais de 20 anos. Segundo ela, os conflitos familiares são comuns. “Há muitos casos de jovens que se sentem cobrados pela família por não terem passado no vestibular”, exemplifica.

Não julgar – Falar de suicídio é um tabu. Porém, abrir espaço para discuti-lo é um dos meios mais eficazes de se prevenir contra o acontecimento de um ato sem volta. “Estruturas familiares muito fechadas, onde as pessoas não se comunicam, são um risco. Quanto maior a capacidade de adaptação maior a possibilidade de diálogo, o que evita o isolamento e os comportamentos de risco”, destaca o médico Carlos Felipe. E quando a morte acontece no seio da família a dor é inevitável e, muitas vezes, acompanhada de culpa. “Pais, mães e avós que enterram seus filhos, contrariando a ordem natural da vida, e os familiares que vivem se perguntando ‘por quê?’ não devem se culpar pelo suicídio, mas podem e devem confiar na infinita bondade e a misericórdia de Deus”, aponta o sacerdote e mestre em Psicologia Brendan Coleman Mc Donald.

O assessor da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) recorda que antigamente a Igreja Católica, sem a ajuda da Psicologia pastoral para a compreensão do que leva ao suicídio, aplicava sanções a essas pessoas, como a negação da sepultura eclesiástica e a celebração da missa pela sua alma. “Hoje, ajudada pela Psicologia e a Psiquiatria, a Igreja vê a questão sob outra forma e tem grande compreensão e misericórdia com quem chega a tal ponto. Há sepultamento em cemitério cristão e orações e missa pela alma do suicida”, esclareceu, em um artigo, o sacerdote, que também dispensa julgamentos. “A Psicologia e a Psiquiatria ensinam que ninguém conscientemente vai tirar sua própria vida. Se o faz, com certeza, não está mais consciente mesmo deixando recados explicando suas razões”, concluiu.

Saudade – Tal piedade, diga-se, ancora-se no Catecismo da Igreja Católica, onde se lê: “Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida” (CIC. 2282/3).

Procurada para falar com a reportagem da revista Família Cristã sobre o suicídio de seu filho, D.O., em 25 de janeiro deste ano, por enforcamento, após o término do namoro, a mãe do rapaz, que pediu para permanecer no anonimato, afirmou ainda não conseguir lidar com a dor. A morte recente machuca a mulher que reza pelo ‘anjo’ que se foi abruptamente aos 28 anos de idade e chora em forma de canção. “Oh, pedaço de mim / Oh, metade amputada de mim, leva o que há de ti / Que a saudade dói latejada / É assim como uma fisgada / No membro que já perdi”, respondeu a mãe em forma de canção Pedaço de mim, de Chico Buarque.

 

Abra o jogo

Entre em contato telefônico com o Centro de Valorização da Vida (CVV) teclando 141 ou acessando o bate-papo no site www.cvv.org.br. Outra opção é pelo skype. No mesmo endereço há o endereço dos postos da entidade em todo o País. Lá você não precisará se identificar, apenas dividir o que está passando. Se for o caso de ajudar alguém, fique atento: um suicida em potencial apresenta sinais de desesperança, sente-se um peso para a família, abandona hobbies, fica isolado, não participa de eventos da família e pode abusar do uso de álcool. Estes sinais sugerem que a pessoa precisa de atenção e o cuidado de profissionais de saúde.

Matéria publicada em novembro de 2014, na Revista Família Cristã e ainda atual, muito atual.

A aposentadoria que vem por aí…

Governo propõe Reforma Previdenciária que aumenta idade mínima de contribuição e suscita debate sobre o futuro do benefício

carteira-de-trabalhoEm meio às “delações do fim do mundo” da operação Lava-Jato, como estão sendo chamadas as denúncias de corrupção entre diversos políticos com a empreiteira Odebrecht, dentre elas delações que citam o presidente Michel Temer (PMDB) e alguns de seus ministros, o Poder Executivo busca a aprovação no Congresso Nacional de medidas que contenham os gastos públicos para a recuperação da economia, inclusive a reforma da Previdência Social.

Este é o argumento e o texto que propõe alterações ao benefício começou a tramitar no Congresso Nacional como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287, no início de dezembro do ano passado, e em pouco mais de 24 horas recebeu parecer favorável do relator, o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS).

O texto segue para análise na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), antes de seguir para votação em plenário. Para o professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da  Fundação Getúlio Vargas (FGV/Ebape), Kaizô Beltrão, esta é uma reforma necessária e urgente.

“A urgência já acontece há vários anos. Desde 1997 nós estamos recolhendo menos do que pagando como benefícios. Estamos atrasados há 20 anos, e normalmente os países que pensam no futuro fazem essa reforma antes de o buraco abrir, pensam em uma reforma que vai acontecendo gradualmente no longo prazo”, avaliou Beltrão.

O Brasil tem hoje 18,5 milhões de aposentados e estes não serão atingidos pelas possíveis mudanças. Algumas, inclusive, têm tirado o sono dos brasileiros e suscitado questionamentos de diversos setores da sociedade, como sindicatos, associações e parlamentares. A idade mínima de 65 anos tanto para homens como mulheres é uma delas.

“Eu acho que é muito positiva a harmonização dos dois sexos, isso é um movimento no mundo todo. Todos os países estão equalizando a idade de aposentadoria de homens e mulheres e em vários países já estão aumentando a idade de aposentadoria – pensando nessa reforma preventiva – de 65 para 67, 68 anos”, explicou o professor da FGV.

Pela regra atual, homens e mulheres aposentam-se com idades diferentes e, para ter acesso à aposentadoria integral, os trabalhadores precisam somar sua idade com o tempo de contribuição mínimo de 35 anos até completar 95 pontos. As trabalhadoras só precisam de 30 anos de contribuição ou 85 pontos somando esse tempo com a idade.

Na proposta encaminhada, as mudanças mais drásticas valerão para homens que tiverem até 50 anos, tanto na iniciativa privada como no setor público. No caso das mulheres, a linha de corte será de 45 anos. Acima destas faixas etárias haverá um “pedágio” para quem quiser se aposentar, a chamada regra de transição, prevendo um período adicional de trabalho de 50% do tempo que falta para que se tenha direito ao benefício.

“Essa proposta é tão esdrúxula, absurda e tão do mal que eu não posso acreditar que ela seja pra valer. O governo mandou pra cá (Congresso Nacional) para ver a reação da sociedade e pra que eles iniciassem então o processo de negociação com o Congresso, só que ele exagerou na dose até mesmo para negociar”, disse-me em entrevista exclusiva por telefone o senador Paulo Paim (PT-RS).

O senador é presidente da Frente Parlamentar e destaca entre as propostas de mudança da Previdência as que considera mais danosas à sociedade. “Denunciei aqui na tribuna que muita gente vai poder se aposentar não é a partir dos 65 anos, porque 65 anos é a idade mínima. Nós teremos aposentados com 80 anos. Qual é o estado do nosso país em que a média de vida é de 80 anos? Nenhum. Então as pessoas vão contribuir a vida toda e provavelmente não vão se aposentar, porque tempo de contribuição é absurdo. Vai de 30 e 35 para 49 anos, quase que dobraram se pensarem friamente no caso da mulher. Isso não existe”, lamentou o senador.

Trabalhador rural – Entre outras alterações estão, se aprovada a PEC como está, a obrigatoriedade de contribuição do trabalhador rural, com valor a ser definido por lei. Hoje quem trabalha na zona rural não precisar contribuir para a Previdência, deve apenas provar que trabalha realmente como lavrador para se beneficiar de todos os recursos do INSS. E além de não precisar pagar contribuição mensal, o trabalhador rural tem uma redução de cinco anos na idade mínima para se aposentar. Os homens se aposentam quando chegam aos 60 anos e as mulheres com 55 anos de idade. O valor da aposentadoria rural é fixado em um salário mínimo, independente das posses do beneficiário.

Os militares, inclusive policiais e bombeiros, são uma exceção à Reforma da Previdência. Em nível federal, todos os integrantes das Forças Armadas já estão fora da reforma enquadrada na PEC. Ficou definido que a mudança na Previdência dos militares será tratada mais à frente, em outra lei, “respeitando as peculiaridades da carreira”.

A estimativa do Palácio do Planalto é de que a reforma da Previdência seja aprovada na Câmara e no Senado até setembro de 2017. Ao que parece, contudo, serão muitas as barreiras para que a PEC passe. “Eu não acredito que ela seja aprovada nesses moldes. Eu disse que a PEC 55 – o teto dos gastos – (…) o povo não entende e não sabe a maldade que está embutida nesta PEC, agora a Previdência o povo sente na própria carne diretamente. É um quadro que não tem defesa. Vamos ajudar a mobilização dos sindicatos, centrais e associações por todo o País para fazer um grande movimento nacional. Eu diria que está na hora de parar com essa divisão em que o País ficou: pró-impeachment e contra impeachment e salvar vidas de milhões de brasileiros.

“A reforma da Previdência não é uma questão de desejo nem chamaria de uma decisão, mas uma necessidade. Se não fizermos isso, teremos problemas principalmente na sustentabilidade da Previdência”, disse o ministro da Fazenda Henrique Meirelles na apresentação da proposta de reforma, que a considera essencial para o equilíbrio das contas públicas.

A equipe de Temer afirma que nem mesmo a adoção de um teto de gastos públicos resolverá o problema se o País não endurecer as regras para o acesso à aposentadoria. O professor Kaizô Beltrão concorda.

“Como a receita previdenciária não é suficiente par apagar os benefícios, o governo tem que tirar dinheiro das receitas gerais, então se no futuro começar a tirar menos dos recursos gerais eles vão poder utilizar esses recursos de outra forma, e assim otimizar a aplicação desse dinheiro em políticas que sejam importantes. É claro que Previdência é muito importante, mas ela poderia ser autossustentável de alguma forma”, concluiu.

Outros setores da sociedade discordam do argumento de que exista um déficit da Previdência. “Isso é uma mentira. Mostramos o que o governo deveria fazer para arrecadar 500 bilhões a mais, de imediato. É só combater a fraude e a sonegação para o dinheiro ser usado em outros fins. Não há déficit. Eu diria que a média dos últimos 20 anos é um superávit de 50 bilhões de reais, mas mesmo o último ano deu um superávit de R$ 20 bilhões”, avaliou o senador Paulo Paim.

Segundo o auditor fiscal da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Afip), Alfredo Lemos, o déficit é fabricado pelo governo ao omitir e não colocar na conta receitas de outras valiosas contribuições sociais, que financiam o Sistema de Seguridade Social (Previdência, assistência e saúde), tais como a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), entre outras.

“Mas fazendo a conta completa e correta, ao invés do aparente déficit da Previdência, há na realidade um superávit da Seguridade Social. (…) E qual o destino desse dinheiro? É acumulado no Tesouro Nacional e acaba servindo para quitar a dívida pública”, concluiu o auditor em seu artigo Como o governo fabrica o falso déficit (ou falso rombo) da Previdência?

Para a auditora fiscal e coordenadora da organização brasileira Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lucia Fattorelli, a Previdência Social tem sido continuamente atacada por setores interessados em tragar parcela cada vez maior do orçamento público e levar para fundos privados as contribuições dos trabalhadores.

“Não é por acaso que, ao longo dos últimos anos, os ataques à Previdência Social têm se multiplicado no mesmo ritmo em que se multiplicam os montantes destinados à dívida pública e crescem os planos privados de previdência”, comentou durante audiência pública no Congresso Nacional.

Salzburgo

Pela janela do trem veloz que corta este canto do leste Europeu, Salzburgo aparece como mais uma beleza escondida do Velho Mundo.

Entre as montanhas pintadas pela natureza de verde, marrom, vermelho e todas as nuances possíveis nesta paleta de cores despontam florestas, torres e muros que recordam tempos medievais, em que só os livros e depois o cinema puderam registrar.

Chove lá fora e as vacas passeiam nos pastos. Casinhas com chaminés lembram que ali há famílias que precisam de calor. Flores decoram varandas. A vida acontece com ou sem cinema.

Escrevi sobre Salzburgo recentemente, na verdade sobre os 50 anos do filme A Noviça Rebelde, para a seção de Cultura da Revista Família Cristã, e essa cidade que atravessa meus olhos neste momento era e é cenário desse sucesso cinematográfico, já parte do nosso repertório cultural.

Compartilho o texto escrito há meses e minha alegria por testemunhar agora, além das telas, a beleza única deste lugar:
A Noviça Rebelde chega aos 50 anos

O filme resgata com música e alegria o humano, em tempos em que as famílias vão deixando de ser espaço de diálogo e amor.
Poucas são as atividades que conseguem unir os sentimentos de diferentes gerações, que valorizam a vida em sua simplicidade, nos pequenos encontros do cotidiano, em família. O filme A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965) consegue isso e o faz há 50 anos, elevando o nome do Estado de Salzburgo, localizado no extremo norte da Áustria Central, a um dos locais mais musicais do mundo, porque foi por ali também que em 1756 nasceu o compositor Wolfang Amadeus Mozart.

A história de A Noviça Rebelde é baseada em fatos e conta a história da família austríaca Von Trapp, que em 1938 foge da invasão nazista para buscar refúgio nos Estados Unidos. Mas a trama vai além, revela uma história universal, um caso de amor entre uma noviça e uma família. Talvez aí esteja o segredo de tamanho sucesso, tanto nas telas do cinema quanto nos palcos.
A família: as sete crianças e o capitão da marinha Georg Von Trapp (Christopher Plummer) viviam em luto imposto pela saudade da mãe biológica. Sem jeito para lidar com a ausência materna, o capitão imprimiu um regime espartano, de quartel, que no cinema ficou engraçado. Talvez não fosse para as crianças. Auxiliado por um apito, impunha suas regras para conduzir a turminha, que, arredia, espantava as candidatas ao cargo de governanta. Isso até a chegada da noviça rebelde, Maria (Julie Andrews).

A nova governanta, Maria, era jovem, bonita e cheia de vida. Era noviça no convento beneditino na Abadia de Nonnberg, em Salzburgo. Encantada pela natureza dos Alpes, sempre se “perdia” cantando. Cantar, aliás, era uma de suas paixões. Anos antes de entrar no convento sempre ia a igrejas assistir às apresentações de Bach. Inclusive, em uma destas ocasiões decidiu tornar-se freira.

Mas a verdade é que Maria era considerada rebelde demais. Já noviça, subia em árvores e ralava os joelhos. Atrasava-se para tudo, menos para comer, assim revelaram as freiras na história. O filme te faz sorrir e cantar com a alma. Leva-te à infância, ao Dó-Ré-Mi.

Mas Maria não conseguia lidar com as normas do convento, dado seu espírito excessivamente livre para amar a natureza, a música e a Deus manifesto e presente nos outros. A madre superiora do convento questionou-a sobre sua vocação religiosa e, sábia, a mandou para fora dos muros do claustro, para a mansão da família Von Trapp, onde iria cuidar das crianças impossíveis de serem domadas. Ali, a jovem descobriu sua maior vocação: a de ser mãe e ter uma família.

Com o passar do tempo, as crianças e a noviça vão criando fortes laços afetivos, sendo a música o fator de união. Ela se apaixonou pelas crianças e pelo capitão, o inverso também aconteceu e ali surgiu uma família, com, claro, todos os enredos de uma história de amor, alimentados também pela então Baronesa (Eleanor Parker), noiva do capitão Georg, com separações, impossibilidades e reencontros.
E assim, depois de quase três horas de filme, Maria e Georg se casam na mesma abadia que ela frequentava quando ainda era noviça. Ela com 22 anos, e ele com 25 anos a mais. Além de cuidar dos sete filhos que Georg teve com a primeira esposa, Agatha Whitehead, Maria teve outros três, que o filme não apresenta.
Escrito por George Hurdalek, baseado no livro The Story of the Trapp Family Singers, de Maria Von Trapp, e dirigido por Robert Wise, o filme revela em 12 cenas paisagens belíssimas de Salzburgo, e talvez a mais famosa delas se passe nas montanhas onde Julie Andrews aparece cantando The Hills are Alive with the Sound of Music. Cena imortalizada no cinema mundial.
A Noviça Rebelde venceu os Oscar de melhor filme, diretor, edição, som e trilha sonora em 1966. Recebeu ainda indicações ao prêmio de melhor atriz para Julie Andrews, melhor atriz coadjuvante para Peggy Wood, a madre superiora, e melhor fotografia a cores, direção de arte a cores e figurino a cores. Além de levar o Globo de Ouro no mesmo ano como melhor filme na categoria comédia/musical e melhor atriz em comédia/musical, premiando Julie Andrews. É um dos musicais mais populares já produzidos, estima-se que já arrecadou mais de 1 bilhão de dólares.

A história é bela, popular e de muito sucesso. Envolvente, reforça a importância da família, do afeto e da ternura entre pais e filhos. Resgata o humano nos tempos em que o nazismo perseguia e matava. Resgata o humano em tempos como os nossos, em que as famílias vão deixando de ser espaço de diálogo e de amor.

Aqui é rock and roll, aqui é Grammy

O álbum “A Vida Num Segundo”, gravado pela Paulinas-Comep, é um dos cinco indicados ao Grammy Latino 2017, na categoria melhor álbum cristão em língua portuguesa.

Há poucos meses entrevistei os integrantes da banda Ceremonya para as páginas da Revista Família Cristã. Foi um papo bacana sobre vida, música e fé. Hoje compartilho com vocês nossa conversa e com ela a trajetória e o trabalho desses caras que estão na estrada há algum tempo.

ceremonya

Eles vestem roupas pretas, calçam botas, usam piercings e têm tatuagens pelo corpo. Alguns pintam os olhos, outros mantêm os cabelos longos soltos ou presos em rabos de cavalo e coque. Dividem-se entre guitarras, bateria, vocal, teclados, violão e baixo. São roqueiros, do heavy metal, mas não se enganem, eles são muito mais do que a famosa estética eternizada pela mídia.

Trata-se de Danilo Lopes (bateria e vocal), Nei Medeiros (teclados), Gustavo Dübbern (guitarra), Eduardo Zanchi (guitarra e violão) e Régis Costa (baixo), músicos do Ceremonya, uma banda de rock cristã fundada em 2004, com o objetivo de chegar aos jovens, que a Igreja muitas vezes não alcança, através do som, através do heavy metal.

Este estilo musical – marginalizado do rock – surgiu no fim da década de 1960 pelas mãos de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, integrantes do Black Sabbath. E foi na década de 1970 que o estilo musical ganhou fama de satanização, graças às performances do cantor e compositor americano Alice Cooper. Mas, contudo, não impediu de hoje o mesmo estilo musical servisse também de base para a evangelização. O cenário da música católica está aí para provar.

Guinada musical – Na década de 1990, despontou no Brasil a banda Eterna, fundada por Danilo Lopes, que permaneceu na banda por sete anos tocando um rock de qualidade e fazendo um sucesso grandioso, marcando gerações, até que partiu em busca de novos horizontes e fundou o Ceremonya.

O início dos trabalhos na nova banda foi tocando metal exclusivamente em inglês e era sucesso entre a “molecada”, como chama seu público o vocalista da banda. Com o tempo, o próprio Danilo Lopes, ao tocar no início de sua carreira com o padre Marcelo Rossi no Santuário Theotokos – Mãe de Deus e fazer shows por todo o Brasil, percebeu que suas canções atingiam outros públicos que não apenas os tatuados do heavy metal, e daí surgiu a guinada musical.

Sem abandonar o som pesado, mas com melodias mais suaves regadas pelo baixo experiente de Régis Costa, a banda resolveu dialogar com outros públicos. Passaram a cantar em português. “Eu senti a vontade de fazer um disco 100% em português com músicas que pudessem ser executadas em retiros, grupos de oração, nas missas, e acabou rolando”, conta Lopes.

O resultado dessas dúvidas, angústias e orações, o leitor confere no novo CD: Ceremonya – A Vida num Segundo, pela gravadora Paulinas-COMEP. Um CD com 11 faixas que se dividem entre o peso do rock e a suavidade das baladas, produzido por Marcelo Pompeu e Heros Trench, ambos integrantes da banda Korzus e produtores do CD Depois da Guerra, um álbum premiado no Grammy Latino na categoria Melhor Álbum Cristão em Língua Portuguesa, além de CDs do Ratos de Porão, Hangar, entre outros grandes nomes da cena do heavy metal brasileiro.

“Quando a banda resolve pesar a mão, nota-se uma forte influência do heavy metal, mas há muito daquele rock dito mais moderno nas composições”, avalia o jornalista e crítico musical Antonio Carlos Monteiro. As gravações começaram em julho de 2015 e contaram com oito meses de ensaios e pré-produção.

“Queríamos deixar o disco acessível, que o cara pudesse pegar um violão e tocar todas as músicas. Mas o disco também é pesado, porque gostamos de metal, então este trabalho tem essa coisa de canção, de balada”, aponta Dübbern.

Esperança do encontro – O som é pesado sim. Vozes e afinação de instrumentos são mais graves também. Há muita guitarra e violão, e, quando dedilhados, as cordas lançam no ar o som da rebeldia, e com ela letras de desabafo, pedidos de ajuda, oração, reafirmação, esperança e diálogo com o próprio Deus.

“O músico cristão tem essa responsabilidade, acaba que nos tornamos referência quando subimos ao palco, e por isso a nossa missão, de levar uma mensagem de amor àqueles que em muitos casos estão envolvidos com drogas, sem esperança. Vivemos em um mundo muito difícil, e nós trazemos a boa-nova, porque sem esperança o ser humano não evolui”, avalia o vocalista e compositor da banda, Danilo Lopes.

A música de trabalho, A Vida num Segundo, por exemplo, revela o diálogo de alguém em aflição com Deus. “Não paro aqui, vou viver, é tenso, eu sinto a vida num segundo. Não parto assim, vou dizer: Protejo meus pulsos no último momento, sou templo de Deus!”

Assim, a composição de Nei Medeiros, Danilo Lopes e o produtor Marcello Pompeu revela uma tentativa de suicídio, uma realidade nada inédita, já que o suicídio é a terceira maior causa de morte entre os jovens brasileiros. As canções são intensas, como a história de cada um dos músicos de superação e recomeço.

Quem olha para a belíssima arte da capa do CD, assinada por Carlos Fides, entende bem a que ele veio: apresentar música de qualidade para diversos públicos, aos amantes do metal e aos que preferem as baladas, e mais, criar identidade de seu público com as canções que trazem a esperança do encontro com o próprio Deus. Está aí um belo disco.

Publicado na Revista Família Cristã, edição 967.

Cocada é ouro

Dorivaldo Gomes é baiano de Itabuna, da terra do cacau e de Jorge Amado. Ele tem 71 anos de idade, cerca de 500 medalhas e tantos troféus espalhados em sua sala, que a missão de contá-los não foi cumprida…

Nasceu na roça e nela trabalhou até os 19 anos para ajudar a mãe, Doralice, dona de um sorriso discreto e de mãos firmes que denunciam seus 92 anos.

Em julho, Dorivaldo tornou-se um dos 12 mil brasileiros a conduzir a chama olímpica por um trecho de aproximadamente 200 metros, em Guarulhos, cidade onde reside há 52 anos. “Carregar a chama simboliza que eu represento o Brasil, os atletas, a humanidade em geral e isso é muito gratificante, sei que estou levando um incentivo para a prática do esporte e o Esporte é o remédio da vida”, conta Dorivaldo, e talvez por isso ele não faça uso de nenhuma drágea.

O baiano começou a praticar esporte aos 26 anos de idade, tarde para atletas de alto rendimento, mas não para a vida. Começou com a luta livre chegando a treinar com o lendário Ted Boy Marino, um dos precursores da modalidade no País, que fez bastante sucesso durante os anos 1970 e 1980. E não parou por aí. Praticou halterofilismo, judô, karatê, hapikido, capoeira.

A capoeira ainda faz parte de seus dias, tanto que ao término de nossa entrevista deu demonstrações claras da facilidade com que seu corpo realiza os movimentos que desafiam a gravidade, mas não sua idade. Finaliza os movimentos feliz, com sorriso estampado no rosto, mas a entrevista revela que sua paixão mesmo está no atletismo.

Seu início como corredor foi em 1999, aos 52 anos de idade. Conquistou suas medalhas nas mais diversas localidades e paisagens. Já perdeu a unha do pé direito nas corridas sem nem perceber. Entre suas conquistas destaca as 11 maratonas que percorreu.

Maratonas são corridas realizada na distância oficial de 42,195 km, normalmente em ruas e estradas, e Dorivaldo já levou o primeiro lugar na Maratona em São Paulo, em 2010, e em Porto Alegre, em 2015. “Correr é bom demais. Correr te traz equilíbrio, poder de concentração, vida”, conta o atleta amador que desponta nos jogos estaduais paulista, representando sua cidade, Guarulhos, sem, contudo, contar com qualquer tipo de apoio.

“Apoio a gente recebe de parcerias. Todo o custo tiro do bolso mesmo”, explica, recordando algumas das viagens em que desviava a atenção dos seguranças dos hotéis para se infiltrar no quarto de colegas atletas que pagavam as diárias. Mas o que seria essas dificuldades para quem até fome já superou?

Na infância, lá em Tanquinho, município localizado na Região Metropolitana de Feira de Santana, na Bahia, o menino mais velho dos seis filhos de dona Doralice chegou a passar fome sim. “Às vezes até farinha faltava e para chegar na escola era só depois de finalizado o trabalho na roça, com muita caminhada”, conta Dorivaldo, que por isso, foi concluir o Ensino Médio apenas em 2010, já idoso, em Guarulhos.

Disciplinado pela vida ele deixou a Bahia em 1964. O caminho foi de pau-de-arara e ônibus até sua chegada ao estado de São Paulo. “Aquele tempo era de muito trabalho: fui servente de pedreiro, vendi frutas e até taxista”, conta. Tornou-se motorista da Sabesp e naquela função permaneceu até a sua aposentadoria.

Hoje, como atleta amador, divide seu tempo entre os treinos e os cuidados com sua mãe com quem mora. Seus filhos, Cleverson, Cleyton e Cristiano já estão “criados”, como dizem os mais velhos, e compartilham com o pai o amor pelo esporte, em especial pela capoeira.

O dia a dia de Dorivaldo é de disciplina. Acorda por volta das cinco da manhã e vai correr no parque. É assim todos os dias, com exceção daqueles em que precisa viajar para competir. A alimentação é normal regada por cocadas, o doce preferido do atleta, que inclusive recebeu este apelido – Cocada – por tão bem fazer o quitute e distribuir entre os amigos. “As nutricionistas me puxam a orelha, porque não tenho disciplina com a comida”, envergonha-se.

A corrida também o ajudou a abandonar o tabagismo, embora nunca tenha sido um fumante inveterado, apenas em encontros sociais, como ao tomar uma cerveja com amigos e familiares.

Dorivaldo é uma pessoa muito espiritualizada. Acredita em Deus e coloca nele sua vida, suas conquistas, sua gratidão. “Tudo o que nós temos que buscar em primeiro lugar é o Criador, Jesus, e em segundo você e depois os irmãos”, ensina.

Praticante de Reiki, um sistema natural de harmonização e reposição energética que mantém ou recupera a saúde e, acreditam, seja um instrumento de transformação de energias nocivas em benéficas, Dorivaldo prega o bem e defende que cada um seja instrumento transformador no mundo para o bem de todos, irradiando pensamentos bons para aqueles que o cercam.

Ele é assim. Um homem simples e campeão. Os troféus, medalhas, o uniforme que vestiu para conduzir a chama olímpica, tudo está em sua casa para comprovar sua grandeza, suas conquistas, assim como sua história exemplar de superação.

Talvez esteja aí o segredo deste atleta amador de 71 anos de idade. Cuida do corpo, como templo do sagrado e corre por aí buscando concentração e equilíbrio para emitir o bem, conquistando medalhas, amizades e admiradores em cada linha de chegada.


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