campoJosimo Moraes, Dorothy Stang, José Claudio e Maria do Espírito Santo…Esses são alguns nomes de vítimas fatais dos conflitos de campo no Brasil. Assassinatos cometidos em 1986, 2005 e 2011, respectivamente, todos na região amazônica e com um mesmo roteiro que caminha para um fim parecido: impunidade.

O ambientalista Raimundo Santos Rodrigues, 54 anos, também foi assassinado, em agosto de 2015, na cidade de Bom Jardim, a 275 quilômetros de São Luís, no Maranhão. Conselheiro do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade desde 2012, na Rebio do Gurupi, local em que morava, foi pego em uma emboscada perto de sua residência.

Ele denunciava a prática de madeireiros ilegais na região do Vale do Pindaré, no Maranhão, e recebia ameaças de morte por defender a preservação da floresta, por resistir e viver na área. “Ele só defendia a floresta, sua biodiversidade, e como conselheiro denunciava os madeireiros, mas o mataram e temos medo que venham atrás da gente também”, diz uma das moradoras da região do Vale do Pindaré, com medo de ser identificada.

A morte de Raimundo consta da lista dos 50 assassinatos praticados em todo o território nacional por conflitos no campo, uma das tantas estatísticas do estudo Amazônia, Um Bioma Mergulhado em Conflitos – Relatório Denúncia, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e que apresenta o mapa da violência no campo brasileiro.

O número de assassinatos por conflitos no campo em 2015 é 39% maior que no ano anterior, quando foram registrados 36 casos. Destes 50 assassinatos, 47 ocorreram na região da Amazônia Legal, sendo 20 em Rondônia, 19 no Pará, seis no Maranhão, um no Amazonas e um no Mato Grosso. Além dos homicídios na região, a CPT registra 30 tentativas de assassinato, 66 prisões de camponeses, 529 conflitos por terra e 93 ameaças de morte.

“Eles nos ameaçam, nos seguem de carro ou moto e ficam observando de longe. Eu tenho medo, mas não posso me calar, porque estes madeireiros e fazendeiros estão matando nossas florestas e nosso povo mais simples, mais pobre. E é este povo que sabe lidar com a terra, preservá-la”, contou uma religiosa do imenso Maranhão, que por segurança não será identificada.

A corajosa irmã diz que a luta é desigual, injusta, e que os conflitos surgem porque as lideranças camponesas denunciam, além dos desmatamentos, o envolvimento de autoridades políticas e policiais, como vereadores, prefeitos e delegados em atos ilegais. “Aqui é terra sem lei”, conclui.

“Enquanto o foco está voltado para Brasília (DF), as violências vão acontecendo. Os fazendeiros, os latifundiários, o pessoal do agronegócio vão se armando, formando as milícias, contratando jagunços; e os dados demonstram claramente o aumento de conflitos e de assassinatos, bem como o aumento nos entreveros a respeito da água, algo novo, e o número de famílias despejadas”, disse dom Enemésio Lazzaris, presidente da Comissão Pastoral da Terra, durante a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em abril de 2016, em Aparecida (SP).

Para o bispo, a produção do relatório é importante porque dá visibilidade à violência que ocorre em uma região mais afastada e escondida dos noticiários. “O relatório quer dar visibilidade a estas questões que parecem ser periféricas em âmbito nacional, mas não são.”

reportagem

Famílias – A situação é dramática em todo o País. O relatório aponta que em 2015 o número total de ocorrências de conflitos no campo foi de 1.217, contra 1.286 em 2014, e envolveram 102.973 famílias, mais de 816 mil pessoas. O número de famílias despejadas judicialmente em ações de reintegração de posse cresceu 14%, passando de 12.188 em 2014 para 13.903 em 2015.

Em relação às famílias expulsas pelo poder privado (fazendeiros, empresários e seus capangas), o número foi reduzido de 963 para 795. A Região Centro-Oeste, porém, em sentido inverso, apresentou crescimento significativo, passando de nenhum registro em 2014 para 360 em 2015.

Em Mato Grosso, 320 famílias foram expulsas e em Mato Grosso do Sul, 40. Também a Região Norte apresentou crescimento de 18% no número de famílias expulsas (de 179 para 211). O Pará registrou 110 famílias removidas de sua terra; e Roraima, 25, sendo que no ano anterior não houve registro de expulsão.

O Acre apresentou crescimento de 52%, passando de 33 para 50 famílias expulsas.
Bahia e Maranhão também apresentaram, respectivamente, 38 e 40 famílias expulsas, sendo que no ano anterior não houve nenhum registro. “O aumento tanto de despejos quanto de expulsões tem relação direta com o crescimento das ações dos movimentos”, avalia o relatório.

As ocupações de terra no Brasil, apesar de apresentarem um leve recuo de 2% em 2015 (200), ante 205 em 2014, no Centro-Oeste tiveram crescimento de 138%, passando de 21 para 50, com destaque para Goiás, que passou de 3 para 19 (aumento de 533%); Mato Grosso de quatro para 11 (175%); e Mato Grosso do Sul de nove para 16 (78%), segundo o relatório.
Em relação aos conflitos, dominaram aqueles por terra, com 63,4%, e, entre eles, as ocorrências foram 771 ocupações e 200 retomadas, além de 27 novos acampamentos. Os conflitos trabalhistas chegaram a 84, sendo que 80 foram casos de trabalho escravo.

Água – A água foi motivo de 135 conflitos (contra 127 em 2014). Três pessoas receberam ameaças de morte, cinco sofreram tentativa de assassinato, duas foram assassinadas, outras 41 sofreram intimidações, duas foram agredidas, uma foi ferida, outra sofreu danos materiais e três morreram em consequência de conflitos.

Padre Antônio Claret Fernandes, um dos colaboradores do relatório da CPT e membro do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), lembra que no mundo 70% da água potável vai para o agronegócio e apenas 4% para o consumo humano. “Enquanto o agronegócio a esbanja à vontade no desperdício e produção de mercadorias para acumulação de capital, diversas pessoas não têm água para beber e muitos camponeses não dispõem de água para regar suas hortas caseiras”, conta, apontando a origem dos conflitos.

Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas estão privadas do direito à água potável no planeta, e 1,8 milhão de crianças morrem por ano em consequência de doenças advindas de água suja e saneamento inadequado. Em outubro de 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) já advertia que em 2030 pelo menos 40% da humanidade sofrerá escassez de água.
O relatório também aponta os agrotóxicos como ameaça às populações do campo. Em 2015, foram registrados 23 casos de contaminação, com 4.267 famílias afetadas.

Agressores – Segundo o relatório, os fazendeiros, os empresários e os grileiros, são apontados como as três categorias que mais se destacaram, com 74% das ocorrências de ações violentas contra as populações que vivem nas terras. Outros 6% foram por mineradoras, 4% por madeireiras e 2% por hidrelétricas. 10% dessas ações violentas contra populações tradicionais foram cometidas pelo Estado.

A Comissão Pastoral da Terra é uma instituição criada pela Igreja Católica e tem sua raiz no Evangelho e, como destinatários de suas ações, os trabalhadores da terra e das águas. Sua missão, segundo a própria entidade, é também a de registrar e denunciar os conflitos de terra, água e a violência contra os trabalhadores e seus direitos.

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Reportagem publicada na Revista Família Cristã, edição de junho de 2016

A literatura esquecida de Carolina

Divulgação

Maria Carolina

Karla Maria

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 na pequena cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais. Como escritora, foi descoberta tardiamente, aos 43 anos, em 1958, na extinta favela do Canindé, em São Paulo (SP), onde hoje fica o Estádio do Canindé, da Associação Portuguesa de Desportos. Seu descobridor foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do diário Folha da Noite, de maneira acidental. Ambos se conheceram quando ele trabalhava em uma reportagem sobre a favela. Negra, mãe solteira de três crianças, catadora de papel e semianalfabeta, essa improvável escritora havia estudado apenas até a 2a série do curso primário no Colégio Allan Kardec, do Grupo Espírita Esperança e Caridade, na sua cidade natal. Era então uma mulher que descrevia em cadernos encontrados no lixo, meio sebosos, seu percurso desde que deixou Sacramento, aos 17 anos, até chegar à capital paulista em 1947.

Os cadernos acumulados guardavam memória de 15 anos e eram preenchidos em uma tentativa imaginária de escapar das dificuldades diárias e do nervosismo que a tomava quando a fome era intensa. “Enquanto escrevo, vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim, e eu contemplo as flores de todas as qualidades”, revela um trecho extraído deles. “Seria mais uma das milhares de mulheres que existem pelo País não fosse o fato de dar voz àquilo que vivia e via na favela. Seus montes de caderno foram entregues ao jornalista, e ele, com a sensação do furo e a pecha do ‘novo jornalismo’, selecionou as histórias, editou os textos e criou volumes como Quarto de despejo: Diário de uma favelada, em 1960”, escreveu o professor da Universidade de São Paulo (USP), José Carlos Sebe Bom Meihy, coautor do estudo Cinderela negra: A saga de Carolina Maria de Jesus.

Bitita – Quarto de despejo, o livro de estreia, foi lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960 e, devido a seu estrondoso sucesso, teve oito reimpressões no mesmo ano. Em menos de 12 meses, mais de 70 mil exemplares foram vendidos – uma tiragem bem-sucedida, na época, era de aproximadamente 4 mil exemplares. Nenhum autor no Brasil chegara perto desse fenômeno de venda, nem mesmo o campeoníssimo Jorge Amado. Revistas internacionais do porte de Life, Paris Match e Time fizeram reportagens sobre Carolina e o seu livro. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo foi traduzido para 14 idiomas em mais de 40 países, como Dinamarca, Holanda, Argentina, França, Alemanha, Suécia, Itália, passando pela República Tcheca, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e chegando à Rússia, Japão, Polônia, Hungria e Cuba.

A catadora de papel Carolina Maria virava celebridade. E mais: sua literatura chegava ao público em momento que as letras eram um espaço reservado a homens brancos, letrados e, com raras exceções, ricos e em posição social elevada. “Se eu tivesse diploma superior, seria respeitada, mas tenho só dois anos de grupo. Sou semianalfabeta”, desabafou Carolina. O mesmo sucesso, porém, não foi alcançado pelos seus livros seguintes Casa de alvenaria: Diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da fome (1963) e Provérbios (1963). Neste mesmo ano, comprou um pedaço de terra em Parelheiros, bairro periférico da zona sul de São Paulo, e iniciou a construção de uma casa. Plantava ali sua horta e criava galinhas, mas ainda passando por inúmeras dificuldades. Sem nunca deixar de escrever. Em 1975, entregou os manuscritos sobre sua infância e adolescência para duas jornalistas francesas que culminaram no livro Journal de Bitita ou Diário de Bitita.

Permanência – “Passados cem anos de seu nascimento e 37 anos de sua morte, Carolina resiste, sobretudo, nos Estados Unidos, onde todos os seus livros estão disponíveis”, afirma o escritor e professor de Literatura Hispano-Americana, na Universidade Federal de São Carlos (Ufiscar), Wilson Alves Bezerra. Para ele, Carolina, no Brasil, ainda é tratada como objeto de estudo.

Por ocasião do centenário de nascimento da escritora, celebrado este ano, o jornalista Audálio Dantas recontou os passos da descoberta, do perfil de Carolina e de como sua literatura foi aceita no cenário brasileiro. “A maioria ‘consumiu’ Carolina como uma novidade, uma fruta estranha. Carolina, como objeto de consumo, passou, mas a importância de seus livros, um documento sobre os marginalizados, permanece”, sentencia. A crítica literária concorda. “Carolina é uma escritora fundamental para entender a literatura brasileira feita, em sua grande maioria, de autores brancos de classe média que dominavam a língua formal. Ela mostra a outra face dessa história, que passa a ser vista do ponto de vista dela, de baixo”, explica a professora da Universidade de Brasília (UnB) Germana Henriques Pereira, autora de O estranho diário de uma escritora vira-lata.

Carolina Maria não conseguiu escapar de seu destino. Cinco anos após o sucesso de Quarto de despejo, ela voltou a catar lixo. “Estou no inferno, não saiu nada do jeito que desejei e eu não gosto de ser teleguiada. Eles é que administram o que arrecado”, escreveu na época. Morreu pobre em 13 de fevereiro de 1977, antes dos cem anos que desejara viver para ler todos os livros do mundo.

Publicado originalmente na Revista Família Cristã, edição de dezembro de 2014.

Viva el Mexico

Catedral Metropolidade Ciudade de Mexico (15) Caminhar pela Cidade do México dá gosto. Um gosto bom, daqueles que a gente tem vontade de trazer para a nossa terra. O gosto pela arte, pela leitura, pela fé. Aqui a mãe de Jesus ganha o nome de “Virgem de Guadalupe” e a devoção por ela não passa despercebida, é moda. Percorrer estas ruas é ver no rosto do povo mexicano os traços indígenas, que mesmo explorado pela colonização espanhola, resistem e encantam.

Ao caminhar pelo Zócalo, o coração da cidade onde ainda se encontram resquícios do que um dia foi a capital da civilização asteca, a Tenochtitlan, vê-se a Catedral Metropolitana, cuja construção demorou 200 anos. Com seus 13 retábulos de diferentes concepções arquitetônicas, destaca-se o Cristo Negro estendido na cruz e adorado por alguns transeuntes que atravessavam as portas que datam do século 16. Construída exatamente sobre o espaço que era antes dedicado aos rituais astecas, os espanhóis não foram sutis em determinar que a colonização trazia consigo, para além da arte e dos costumes europeus, a sobreposição violenta da cultura espanhola sobre os povos que os antecederam.

Caminhando mais um pouco, chega-se ao Palácio Nacional, edifício que pertenceu a Moctezuma, o imperador asteca. Nele, hoje, estão os famosos murais do Diego Rivera intitulado “México, através dos séculos”, pintados entre 1929 e 1951. Já nas escadarias do palácio o visitante toma um sobressalto ao admirar parte do mural, um impacto de tirar o fôlego dada a beleza e dimensão, dados os detalhes da história ali contida e revelada. “Aqui esta a história nacional, desde a chegada dos espanhóis até o pensamento revolucionário do século 20”, contou Guilhermo Westphal, o guia no México, formado em história da arte.

Os painéis de Diego Rivera

Os painéis de Diego Rivera

“Por trás do conjunto se destaca um magnífico trabalho de perspectiva e de documentação por parte de Rivera”, continua Westpahl. Segundo artistas plásticos e historiadores, Rivera teve como inspiração artistas como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Juan Miró, além do arquiteto Antoni Gaudí. Dizem, inspiração esta nascida de sua passagem pela Europa e mais tarde do amor vindo de Frida Kahlo, com quem se casou em 1929. Frida é a mulher que estampa a nota de 500 pesos, mas era mais, muito mais.

Era a terceira filha do segundo casamento de um imigrante alemão judeu e de uma mãe mestiça mexicana católica devota. “A relação de Frida com a mãe parecia ser depressiva e inadequada. Sua profunda sensação de estar só na sua presença está documentada no quadro Meu nascimento”, afirma a psicanalista Gina Khafif Levinzon em seu artigo Frida Kahlo: a pintura como processo de busca de si mesmo.

Aos 18 anos, no dia 17 de setembro de 1925, Frida sofreu um acidente que a marcou profundamente, o bonde em que estava colidiu com um trem, levando-a fraturas em sua espinha dorsal e muito sofrimento, que lhe deixaram sequelas por toda a vida e por toda a arte. Sem poder andar, começou a pintar em sua cama, deitada mesmo. Um espelho foi fixado no dossel de sua cama o que permitia Frida se ver e, desta maneira, tornar-se sua própria modelo.

“O infortúnio não assumiu o caráter de tragédia: eu sentia que tinha energias suficientes para fazer qualquer coisa em vez de estudar para virar médica. E, sem prestar muita atenção, comecei a pintar.”, disse Frida em um de seus diários, revelado pela biógrafa Hayden Herrera, no livro “Frida – A Biografia”.
Ela começou assim, a longa série de autorretratos, que constituem a parte mais significativa e impressionante de sua obra. Os três abortos que sofreu, já depois de casada, mataram sua esperança de ser mãe e constituir uma família completa ao lado de Rivera também marcaram de forma dramática sua arte onde difundida por todo o mundo.

“Foi uma vida de sofrimento durante décadas. A razão inicial foi o acidente. Ela começou a pintar desde menina, desde moça. Aprendeu muito com seu marido. Era talentosa, mas a pintura dela nunca foi considerada importante, 80% dos quadros são auto-retratos”, disse o Guillermo Westphal.

Frida tornou-se um ícone da arte mexicana e também do universo feminino, por ter se mostrado à frente de seu tempo, em questões à época exclusivas aos homens como arte e política. Junto a Diego, Frida abrigou em sua casa um dos ícones da revolução russa Leon Trotsky com sua mulher e netos. O abrigo era a Casa Azul onde viveram de 1929 a 1954. Depois da morte de Frida, em 13 de julho de 1954, o lugar virou o Museu Frida Kahlo, um dos pontos mais visitados do México e não é para menos.

Localizada no elegante bairro de Coyoacán, onde caminhar se iguala à leitura de um bom livro, a Casa Azul está lá, na Rua Londres, 247, esquina com Rua Allende e possibilita ao visitante que se encontre com fragmentos daquilo que um dia foi instrumento da arte e do dia-a-dia de Frida. Chegando à porta da casa pintada com um azul único por Diego a pedido de Frida, deparamo-nos com uma fila formada na maioria por mulheres jovens.

“Frida é a ‘santa padroeira’ das mulheres mexicanas independentes e liberais, obverse o público que a visita”, informou o guia que cresceu no bairro Coyoacán. “Mulheres vestidas com jeans, camisas bordadas com temas indígenas, brincos indígenas”, obsevou.

Do jardim às louças da cozinha, tudo está intacto. As cartas de amor que enviou a Diego, as tintas guardadas em frascos de perfume, seus livros de leitura. Os objetos pessoais está lá ecompõem um quebra-cabeça da mulher mito que faziam questão de valorizar a cultura popular mexicana em suas roupas que também estão expostas.

É possível visitar os quartos em que Frida passava os dias e as noites, o atelier de pintura com uma vista ampla e iluminada para o jardim. O quarto onde recebeu por dois anos Leon Trotski permanece arrumado. No museu há uma amostra da riqueza da produção da artista, com quadros, desenhos, estudos.

Quem visitar a Casa Azul pode estender a caminhada pelo bairro de Coyoacán e visitar também o Museu Anahuacalli, que guarda um acervo pré-hispânico idealizado por Diego Rivera. O Museu Leon Trotski, casa em que viveu e morreu o revolucionário russo após sua acolhida na casa de Frida também está por perto. Outra opção interessante é sentar em um dos cafés do bairro e observar o movimento misturado entre a alegria da juventude e o olhar silêncio dos habitantes mais experientes do bairro. Coyoacán é mais uma joia desta coroa chamada México.

Publicada na Revista Família Cristã/outubro de 2014.

vagão rosa é retrocesso para paulistanas

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Então, os homens terão licença para abusar das mulheres que não utilizarem o tal vagão rosa? Como serão vistas as usuários do metrô que não optarem por utilizarem esse vagão exclusivo? “Safadas”, “olha lá, ela escolheu vir aqui”? Os demais vagões serão espaços com autorização ou vista grossa para abusos, passadinhas de mão e encoxadas?

Mais uma vez estão nos podando, criminalizando. A culpa é dos nossos corpos? das nossas bundas? Ora, que sociedade é esta que vê, admite e outorga a falta de respeito. Por acaso os homens são animais irracionais? Incapazes de controlar suas “tentações”, “desejos sexuais”? Não, não o são e defendo vários deles, que penso devem estar insultados por este projeto de lei do PMDB.

Mais uma vez, a mulher é a tentação na vida do homem. Desde Eva somos as culpadas pelo erro. A vítima se torna a criminosa. Como escreveu a jornalista Eliane Brum, hoje nos colocam em vagões exclusivos e amanhã? saímos de burcas, cobertas para não chamar a atenção dos “pobres e incontroláveis homens”? Ora, que absurdo.

Somos a maioria! Não seremos confinadas ou adjetivadas por entrar neste ou naquele espaço. Somos livres. Mulheres eduquem seus filhos para que se comportem como gente e Homens, por favor, o sejam. Simples assim.

Escravidão ainda é realidade em Guarullhos

Mais uma oficina de costura que opera com mão de obra 'escrava' / Foto da Fiscalização do MTE

Mais uma oficina de costura que opera com mão de obra ‘escrava’ / Foto da Fiscalização do MTE

A empresa têxtil Mar Quente Confecções Ltda. de Guarulhos foi incluída, na última terça-feira, no Cadastro dos Empregadores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – a chamada lista suja’- por ter sido flagrada em ação fiscal da pasta o ano passado por submeter seus trabalhadores a condições análogas ao trabalho escravo.

Localizada no Jardim São João (Região São João), a oficina de costura contratada pela empresa contava com três trabalhadores bolivianos que foram libertados da situação degradante em que se encontravam. Ontem, a Folha Metropolitana esteve no local e verificou que ainda há uma família boliviana residindo no espaço que era uma oficina.

“A oficina foi lacrada, o pessoal que trabalhava aqui para mim voltou [para a Bolívia]. Não sei de mais nada, fiquei aqui abandonado”, disse o boliviano que tomava conta da oficina que não quis se identificar à reportagem, afirmando que não há mais trabalho com confecções e que ali apenas reside de aluguel com sua esposa e seu filho.

Na atualização semestral da “lista suja” foram incluídos os nomes de 91 novos empregadores e excluídos 48, em decorrência do cumprimento dos requisitos administrativos. Atualmente o cadastro possui 609 nomes de empregadores flagrados na prática de submeter trabalhadores a condições análogas às de escravo, sejam pessoas físicas ou jurídicas.

Publicada na Folha Metropolitana, edição de 4 de julho.

Rondônia sofre com as cheias do Rio Madeira

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Ruas do Centro de Porto Velho (RO), alagadas pelas águas do Rio Madeira.


O estado de Rondônia ainda sofre com as cheias do Rio Madeira, que subiu cerca de 20 metros nos últimos três meses. Na capital, Porto Velho, 21 ruas estão intransitáveis, debaixo d`água. O comércio, repartições públicas, casas e praças, entre elas a Praça da Estrada de Ferro Madeira  Mamoré, que guarda um patrimônio cultural e histórico do Brasil, esperam a água baixar para que a vida volte ao normal.

O ribeirinho Raimundo Oliveira da Costa, 65 anos, perdeu seu sítio, localizado na Comunidade Niterói, no baixo Rio Madeira. A água levou suas plantações, seu sustento. Atualmente vive de favor com o filho na casa de um parente e ganha dinheiro levando turistas e curiosos para conhecerem a nova realidade da cidade submersa.

“A água chegou na minha casa no dia 20 de fevereiro e desde então eu moro na casa de um primo meu. Até agora eu não tive ajuda de nada, recebi uma cesta básica que me disseram que de 15 em 15 dias iam entregar. Mas já faz quase um mês que fizemos o cadastro”, disse o ribeirinho enquanto guiava a equipe de reportagem na canoa, entre as ruas de Porto velho.

“Com isso aqui [referindo-se ao trabalho], dá para fazer um dinheirinho. Tem dias que faz R$ 100, até R$ 200, mas tem as despesas também. Se não fosse isso como é que eu ia viver?”, questionou Raimundo, que nasceu e cresceu à beira do Rio Madeira. O ribeirinho é uma das cerca de 20 mil pessoas atingidas pela cheia.

Foto: Joaquim Souza | Praça da Estrada de Ferro Madeira  Mamoré

Foto: Joaquim Souza | Praça da Estrada de Ferro Madeira Mamoré

A Arquidiocese de Porto Velho está em campanha há mais de três meses para arrecadar e distribuir cestas básicas, roupas e móveis aos atingidos. O coordenador da campanha, padre Miguel Fernandes, pároco da Paróquia São João Bosco, que se tornou ponto de referência aos atingidos e acolhe 12 famílias, fala do trabalho da Arquidiocese, que já entregou mais de 40 toneladas de alimentos.

“Já são três meses nessa angústia e o rio cada vez sobe mais. É assustador. São vários distritos isolados. A BR 364 [rodovia] está alagada. São milhares de pessoas que perderam o seu referencial, estão fora de suas casas, perderam tudo”, disse o padre, que é referência, inclusive aos órgãos públicos, no amparo aos desabrigados e na logística de entrega dos mantimentos.

Há dois meses vivendo no improviso

Rovilson Denic Nunes é um dos atingidos pela cheia histórica. Casado, pai de seis filhos, encontrou abrigo na Paróquia São João Bosco, na região central de Porto Velho. Sua casa, localizada no bairro Triângulo, está alagada e suas crianças não frequentam a escola há mais de dois meses.

Foto: Joaquim Souza | Raimundo Oliveira ganha dinheiro levando turistas até o centro alagado

Foto: Joaquim Souza | Raimundo Oliveira ganha dinheiro levando turistas até o centro alagado

“Faz dois meses que estamos aqui. Foi rápido demais quando a água chegou, nós não esperávamos. A gente não queria sair, confiamos que a água não ia chegar, mas ela está lá acima do teto da minha casa”, disse Rovilson, em sua cama improvisada no ginásio da paróquia. “Disseram que não ia acontecer nada com a gente, porque fizeram uma contenção de pedra, mas a água começou a minar pela barragem de pedra, a ponto de estourar e pegar todo mundo dormindo dentro de casa. Perdemos móveis, o guarda-roupa que eu tinha, tudo o que eu tenho está aqui”, disse o paranaense, há 22 anos em Rondônia.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o acúmulo de água nos reservatórios e o aumento da vazão dos vertedouros das usinas de Santo Antonio e Jirau potencializaram os alagamentos naturais do período e estes agora atingem áreas que antes não sofreriam alagamento. Procurado, o Consórcio Santo Antonio Energia preferiu não se pronunciar sobre o tema.

Nesta sexta-feira, mais uma embarcação da Defesa Civil da Prefeitura de Porto Velho desce o Rio Madeira para levar alimento e medicação às famílias que estão ilhadas e acampadas em distritos banhados pelo rio. Nossa equipe de reportagem acompanhará esta ação.

A jornalista Karla Maria é enviada especial a Porto Velho (RO) pela Revista Família Cristã/Signis Brasil.

“A GCM já me bateu várias vezes”

Natasha

Foto: Lucas Dantas

Ex-moradora de rua, Natasha conta sua trajetória e recomeço após aceitar ajuda do Consultório de Rua, uma iniciativa do SUS de reduzir danos e ampliar possibilidades de vida dos que vivem pelas ruas

Publicado na Folha Metropolitana, em 11 de janeiro de 2014

João Ferreira Aguiar, 51, é um dos cerca de 80 milhões de brasileiros que têm algum tipo de dependência química, no caso, álcool. Nesta reportagem será tratado por Natasha, a única exigência feita para revelar sua história marcada pelo preconceito, que só tomou outros rumos há cerca de um ano, quando aceitou a ajuda do Consultório de Rua, por meio da equipe multiprofissional “Acolher” do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Eu bebia pinga pura, tinha vezes que a assistente social vinha falar comigo e eu fugia, para ela não me ver porque eu estava dopada”, revela Natasha. O trabalho da equipe em Guarulhos é composto por um clínico geral, uma assistente social, psicólogo e enfermeiras. Consiste em construir laços de confiança com o morador em situação de rua para convencê-lo a aceitar o tratamento médico.
“Levamos praticamente um ano para convencê-la a se tratar”, conta a assistente social Helena Luisa de Sá Almeida. Para a coordenadora e enfermeira da equipe Valdenice Cristine Severino “ver Natasha bem é uma motivação para continuar o trabalho e ajudar outras pessoas”. Natasha passou por cirurgias, já está mais saudável. Mora com a prima no Jardim São Domingos. Começou recentemente em seu novo emprego como costureira, arrematando peças de roupa, só não consegue arrematar ainda a dependência ao álcool. “Me controlo, mas ainda bebo”, conclui.

A vida nos albergues
Antes de encontrar a ajuda do consultório, Natasha passou por diversos albergues, tentativas e recaídas no álcool. “O primeiro albergue que eu morei foi o São Francisco, no Glicério [em São Paulo]. Fiquei um bom tempo lá. Arrumei emprego e fui morar em um prédio social por quase um ano”, diz.
Mas a vida no albergue exigia regras, e Natasha já estava desacostumada com elas. “Passei em muitos albergues, de Cruzeiro (RJ) até chegar em Arujá (SP). Passava nas casas de convivência, nos albergues, mas não ficava lá. Quando eu bebia, eu ficava alegre e eu gostava de ficar na rua”, conta.

Foto: Lucas Dantas

Foto: Lucas Dantas

Denúncia de maus tratos da GCM
Nos anos que morou na rua, Natasha sofreu agressões. “A GCM [Guarda Civil Metropolitana] já me bateu várias vezes, porque eu cozinhava, eu lavava a roupa dos meninos na rua”, conta Natasha que dormia também na Praça Oito, onde conheceu um famoso jogador de futebol do Palmeiras, na mesma condição que a sua.
“Depois que aconteceu o Consultório de Rua, nós ficamos livre dessa humilhação. Nós tivemos médico na rua, enfermeiros, toda aquela coletividade de pessoas que estão em situação de querer ajudar. O Consultório de Rua é sim a solução para tirar as pessoas do vício, porque nos respeita”, afirma.

Brasil tem 14 Consultórios de Rua
O Consultório de Rua de Guarulhos é um dos 14 instalados no Brasil. Iniciou suas atividades em novembro de 2011 e recebeu aporte de R$ 100 mil para sua implantação. É itinerante, mas possui base fixa no Centro de Atenção Psicossocial (Caps AD), Álcool e Droga (rua Luiz Faccini, 518, no centro). Com atendimento de segunda a sexta-feira, das 13 às 22 horas.
As equipes também realizam intervenções educativas e psicossociais, e contam com insumos para tratamento de situações clínicas comuns, além de preservativos, cartilhas, material para curativos, e medicamentos de uso mais frequente.


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