Dona Ida

Conheci dona Ida em Franca, no interior de SP,  ela tinha 101 anos e muitas histórias para contar…

Ida nasceu em Ribeirão Preto (SP) em novembro de 1914. Filha de italianos, era a única menina entre nove meninos, e lembra os traços de uma professora exigente, daquelas que acompanham as lições e anotações de seus alunos, sob o olhar amparado pelo fiel par de óculos.

Vive em uma casa antiga, sala com piso de madeira, herança da avó. “Não sei se vou me lembrar de muita coisa. São mais de cem anos, não é?”, pergunta, assim meio preocupada. Estava sentada em uma cadeira confortável, rodeada por porta-retratos que estampam fotos com os sorrisos da família: os dois filhos, Marco e Renan, os sete netos e sete bisnetos.

Ao falar de sua infância e juventude, relembra que, quando menina, brincava muito de casinha, na casa dos amiguinhos, mas que seu desejo maior era ser professora, e já treinava sendo boa aluna no Grupo Escolar Guimarães Júnior, localizado na região central de Ribeirão Preto. O pai não gostara muito da ideia de ver a filha escrevendo. “Ele achava que eu ia mandar cartas de namoro”, conta Ida, divertindo-se sobre o começo de seus tantos anos de vida.

Em 1936 se casou com Lafaiety Cordeiro, 22 anos, e aos 23, teve seu primeiro filho, Marco. Aos 24, o segundo: Renan. “Casei-me porque ele era bom, mas o que eu queria mesmo era estudar mais e ser professora.”
Antes, contudo, aos 18 anos, em 1932, passou a dar aula como professora normalista, realizando seu sonho de infância. “Eram bons alunos, bem comportados, muito obedientes. Tinham muito respeito”, revela, destacando que com a chegada dos filhos não abandonou a profissão, ao contrário. “Eu tinha sempre alunas que me ajudavam a cuidar das crianças, então não tinha problema.”

À frente de seu tempo – “Acredito que dona Ida era vanguarda em seu tempo. Imagine, naquela época as moças só pensavam em se casar e ter filhos, e ela não, queria lecionar. E mesmo depois de casada continuou dando aulas”, afirma uma de suas noras, a advogada Keila Pereira.

Ela se recorda do nome dos grupos escolares em que lecionou. É uma lista longa, mas o que guarda mesmo de experiência e faz questão de contar com detalhes é de suas aulas nas fazendas de café. Lá, crianças com idades entre 7 e 12 anos a aguardavam para serem alfabetizadas. Eram na sua maioria filhos de imigrantes que chegavam da Europa para refazerem suas vidas.

Para chegar até seus alunos nas fazendas da região, Ida fazia um percurso de seis horas por dia, de charrete. “Era muito longe, andávamos de charrete improvisada o dia todo, mas valia a pena, porque quando eu chegava lá estavam esperando a professora para aprender. “Meus alunos eram educados, me respeitavam. Hoje em dia, dizem que os alunos são desrespeitosos, mas isso aí tem que vir de casa, do berço”, conta a centenária.

Ida também falou da valorização da profissão, ou melhor, da falta disso: “A gente nunca teve um salário mínimo digno e acho que os professores precisavam ser mais considerados” É lamentável que a situação ainda hoje continue assim”. Ela exerceu a profissão por 34 anos ela ficou viúva em 1972. Nas últimas eleições, em 2014, votou amparada pelo seu filho e tornou-se notícia nos sites da região. “Achei que tinha o direito como brasileira de votar. Isso é exercer minha cidadania.” Votou, mas não revela em quem.

Velhice feliz – Atualmente, Ida vive naquela casa grande com jardim florido acompanhada de três cuidadoras: Dalira da Graça Lima, 66 anos, Maria Luiza de Lima, 75, e Mayra Maria Terra, 41. “Elas conversam comigo e, como saio pouco, me trazem as novidades da rua”, diz Ida. A sábia e ainda lúcida mestra faz, lentamente, sua caminhada diária na rua, contribui para sua qualidade de vida. Tem muleta, mas não a usa com frequência. Sua alimentação é normal e saudável e, como boa filha de italianos, aprecia uma macarronada, sempre acompanhada de um pouco de vinho.

Ela acorda cedo. “Eu até há pouco tempo estava com medo de morrer, mas pensei, já vivi tanto, Deus vai me ajudar nessa hora”, revela, com um sorriso de quem convive com esse receio. Sobre a profissão, revela ainda que sempre a exerceu com amor e dedicação. “Trabalhei muito, viajei muito de charrete. Toda a minha vida amei a minha profissão. Acho que os professores têm que amar ensinar”, conclui.

  • Recebi ontem à noite, a notícia de que dona Ida faleceu “sem dores, sem doença, apenas deixou o corpo serenamente” 😦
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Filhos do refúgio

Cerca de 50 milhões de crianças vivem “deslocadas” no mundo; quase uma em cada quatro vive em um país afetado por conflitos ou desastres

DSC_3827Elas brincavam como as nossas crianças na casa que antes foi um hotel, ali na Penha, zona leste de São Paulo (SP). Desenhavam o Papai Noel e a si próprias, pintavam sonhos de todas as cores, assim como elas que vinham de diferentes países. Entre as crianças estava Débora Mafuta, de 10 anos, uma menina que sorri com os olhos e com uma educação invejável. Seu país de origem é Angola.

Débora, as demais crianças e suas mães encontraram apoio no Brasil, no Centro de Acolhida para Mulheres Imigrantes, mantido pela Associação Palotina desde 2006, em convênio com a Prefeitura de São Paulo desde 2015. Ali encontraram acolhida e um refúgio de suas realidades, de suas nações que estão em guerra ou o em situação de miséria.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 50 milhões de crianças vivem “deslocadas” no mundo, após abandonarem seus lares em consequência de guerras, violências, perseguições e desastres naturais. No fim de 2015, ao menos 31 milhões de crianças viviam refugiadas no exterior e 17 milhões estavam deslocadas em seus próprios países.

Da Síria ao Iêmen e ao Iraque, do Sudão do Sul à Nigéria, crianças estão sob ataque direto, suas casas, escolas e comunidades em ruínas, suas esperanças e seu futuro por um fio. No total, quase uma em cada quatro crianças do mundo vive em um país afetado por conflitos ou desastres.

“Em muitos países, a guerra, os desastres naturais e as mudanças climáticas expulsam cada vez mais crianças de suas casas, expondo-as à violência, às doenças e à exploração”, afirma Manuel Fontaine, diretor de Programas de Emergência do Unicef.

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Estima-se que 7,5 milhões de crianças enfrentarão desnutrição aguda grave na maioria dos países que estão em algum tipo de conflito ou em vulnerabilidade social extrema, incluindo quase meio milhão no nordeste da Nigéria e cerca de meio milhão no Iêmen.

“A desnutrição é uma ameaça silenciosa para milhões de crianças”, disse Fontaine. “O dano que causa pode ser irreversível, roubando o potencial mental e físico das crianças. Em sua pior forma, a desnutrição grave pode ser mortal.” As irmãs palotinas e seus funcionários sabem disso, tanto que no Centro de Acolhida para Mulheres Imigrantes que mantêm não falta comida, além de carinho e oportunidades.

Maria Teresa Ferreira,de 52 anos, que o diga. Ela é cozinheira do centro de acolhida há três anos e diariamente serve cerca de 10 quilos de arroz e 3 de feijão, além da “mistura” e das verduras e legumes que vêm do sítio das irmãs em Jundiaí, no interior de São Paulo.

Segundo Marisa Andrade, diretora do centro de acolhida, a casa acolhe 96 pessoas entre mulheres imigrantes e seus filhos, sendo que 80 são beneficiadas pelo convênio com a prefeitura. Trata-se de mulheres com idades entre 18 e 65 anos e 27 crianças com idades entre 4 meses e 12 anos.

A maioria das mulheres vem sem seus companheiros. “Muitas mulheres vêm grávidas, para que o bebê nasça no Brasil e isso facilite a vinda dos pais ao País”, conta Marisa. Ela destaca que as hóspedes são majoritariamente do continente africano, de países como Angola, República Democrática do Congo, Guiné-Bissau e Nigéria.

O continente africano – Em pronunciamento, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse que o continente africano é marcado por muitos conflitos internos desencadeados pela competição por poder e recursos, desigualdade, marginalização e divisões sectárias. “Muitas vezes, eles (refugiados) são intimidados pelo extremismo violento ou por ele alimentados.”

Mutilação genital feminina em Guiné-Bissau, repressão contra Organizações Não Governamentais (ONGs) no Burundi, extremismos religiosos, perseguições do Boko Haram na Nigéria e desnutrição de crianças no Mali são apenas alguns dos problemas que afligem seus cidadãos, que fogem também de epidemias causadas por HIV e tuberculose.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015 a região africana teve 26% dos novos casos de tuberculose do mundo, ocupando o segundo lugar entre as regiões globais depois da Ásia. Em relação aos novos casos de doenças associadas ao HIV, a África registra mais de 70% dos 1,2 milhão das notificações.

A OMS trabalha para que em 2030 a Aids deixe de ser uma epidemia. Até lá, e em meio a tantos conflitos internos e complexos, cidadãos de diferentes países e realidades do continente africano buscam condições dignas de vida pelo mundo e assim se somam a outros refugiados, como os sírios, encontrando no Brasil uma alternativa.

Acolhida no Brasil – “As mulheres ficam em média seis meses conosco e, se necessário, nós prorrogamos esse prazo por mais seis. A ideia é dar condições para que elas sejam independentes e encontrem oportunidades para recomeçar. Aqui oferecemos cursos de idiomas, costura, culinária e limpeza e encaminhamos para o mercado de trabalho”, conta Marisa Andrade.

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A angolana Naldina encontrou no Brasil, no Centro de Acolhida para Mulheres Imigrantes, na Penha, respeito, carinho e oportunidades. Em seu colo, dorme a pequena Maravilhosa, enquanto Débora e Francisco observam a repórter

Além de ser muito limpo, o espaço é organizado pelas hóspedes em parceria com os funcionários. A casa acolhe ainda mulheres imigrantes egressas do sistema penitenciário. Segundo o Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), cerca de 750 estrangeiras estão encarceradas em presídios brasileiros.

“Quase todas as mulheres estrangeiras que nós acolhemos aqui foram mulas, ou seja, eram usadas pelo tráfico para trazer droga para o País, e elas sofrem ainda mais depois do cumprimento de pena para se recolocarem no mercado de trabalho. O preconceito é ainda maior se ela for negra”, avalia Marisa.

Desde 2006 já passaram pela casa 980 pessoas e todas elas receberam apoio psicológico. Naldina Ineza Mafuta, 32 anos, é uma delas. Casada com Jaime Itimanga, 44 anos, ela tem cinco filhos: Débora, 10 anos, a menina que sorri com os olhos, Stevão, 8 anos, Jonathan, 7, Francisco, 4, e a brasileira Maravilha, com 4 meses de vida.

Naldina deixou a Angola buscando um recomeço. “Estou há cinco meses aqui e muito alegre. Não tenho família no Brasil, então eles (os funcionários do centro de acolhida) são a minha família. Aqui eu como à vontade, meus filhos estão estudando. Ainda não procurei emprego porque não saiu a vaga na creche para a Maravilha”, conta a mãe.

Com ela, estão três dos seus filhos, já que Jonathan e Stevão continuam em Angola, e quando fala disso Naldina mostra sua saudade. “Quero trazer meus filhos pra cá. Quero que eles cresçam no Brasil e estudem; se um dia quiserem voltar para Angola, que seja para visitar”, espera.

O marido também está em Angola. “Tenho saudade, às vezes fico mal pensando neles, mas em breve estaremos juntos”, conta a estrangeira que às vezes prepara um fufu, prato regional de Angola feito a partir da fervura da mandioca e do inhame (pode ser substituído pela banana) para todos do centro de acolhida.

Para Fernanda Pacheco Brito, psicóloga do centro, tal integração é importante para a socialização dessas mulheres e crianças que estão longe de suas famílias. “Elas chegam um pouco desconfiadas e assustadas, então nós as acolhemos para desenvolver esse vínculo de confiança”, explica.

Direito garantido – Para a irmã scalabriniana Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos, a legislação brasileira de refúgio é considerada moderna e garante a quem ingressa no território nacional o direito de pedir a proteção ao Estado brasileiro através da solicitação de refúgio.

“Assegura também acesso a serviços públicos e a vários direitos sociais. No entanto, são incipientes as políticas públicas sistemáticas que possibilitem uma efetiva acolhida e integração local de refugiados no País. Há, sim, muitas iniciativas da sociedade civil, das quais algumas são patrocinadas ou apoiadas com recursos públicos”, avalia.

Para ela é urgente a elaboração de um plano nacional de atenção a refugiados e migrantes e, em relação às crianças, denuncia que não existe no Brasil um protocolo de atendimento a menores desacompanhados de seus pais ou responsáveis e que nesses casos a ausência de normativas restringe direitos, inviabiliza seu acesso e expõe crianças e adolescentes a violações graves, como a possibilidade de serem repatriados quando chegam a uma fronteira ou ponto de entrada no Brasil.

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Francisco tem nome de papa e sonhos que ainda não pôde sonhar

“Diante desta preocupação, estamos propondo ao governo a aprovação de uma resolução que normatize e garanta a representação legal e a definição dos órgãos que devem ser acionados e que atuarão de imediato na acolhida e na obtenção de documentos para crianças que chegam desacompanhadas em qualquer fronteira do País”, anuncia irmã Rosita, que também é advogada.

Atualmente, os refugiados contam no Brasil com a Rede Solidária para Migrantes e Refugiados (RedeMir), que integra mais de 50 entidades voltadas ao cuidado também de crianças refugiadas. Foi em uma delas que Naldina e sua família encontraram apoio.

“Não me arrependo de ter vindo. Se você está me vendo com saúde é porque estou aqui, inclusive aprendendo a educar meus filhos. Estou feliz e aprendendo muitas coisas, um dia todos os meus filhos e meu marido estarão aqui com a gente”, diz a angolana, com Maravilha em seus braços.

Débora pouco fala, mas continua a pintar com todas as cores.

Texto e fotos de Karla Maria
reportagem publicada na Revista Família Cristã, março de 2017

Todo dia é dia de índio

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Entrevista de Karla Maria
Fotos de Thiago Gomes/AG. Pará

Mais de três mil indígenas que participam do 14º Acampamento Terra Livre tomaram as ruas da Esplanada dos Ministérios, em Brasília ontem, dia 24 de abril. Depois de realizar uma grande marcha fúnebre, foram reprimidos por policiais que usavam gás lacrimogênio e spray de pimenta contra os manifestantes e dentre eles mulheres, crianças e idosos.

O mês de abril, guarda um dia em especial no calendário brasileiro para “falar” sobre o índio. Nessa data, urge em meio à sociedade brasileira um novo olhar sobre os povos tradicionais que tiveram parte de suas terras e tradições dizimadas pela invasão do homem branco.

Mas para outros, como Conselho Indigenista Missionário (Cimi), todos os dias são dias de índio, de lutar pelos direitos desses brasileiros e na entrevista a seguir, o presidente da entidade, dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO), faz uma avaliação crítica da situação dos povos tradicionais e denuncia o desmonte de direitos já garantidos na Constituição Federal.

Trechos dessa entrevista foram publicados na edição de abril de 2017 da Revista Família Cristã.

1- Como o senhor avalia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 – em tramitação na Câmara dos Deputados – que proíbe a ampliação de terras indígenas já demarcadas e transfere ao Congresso a decisão sobre novas demarcações

A PEC está na mesma perspectiva do desmonte dos direitos conquistados na Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã” que deu um passo importante na superação de uma legislação arcaica em relação aos povos originários. Está no bojo das tentativas de retroceder em direitos fundamentais, que para os povos indígenas passam pelo direito aos seus territórios que são base para a preservação de suas culturas, espiritualidades, tradições entre outras dimensões da vida.

Somada a esta iniciativa de mudança na Constituição estão outras ações, fundamentalmente engendradas pela chamada bancada ruralista, esta que vem se manifestando contrária aos direitos dos povos, principalmente os territoriais.

Segundo vários juristas a transferência da responsabilidade pelas demarcações é inconstitucional, pois toca em cláusulas pétreas. Além do que todo o processo para a demarcação estaria submetido aos trâmites do Congresso Nacional, que já se demonstra moroso, ainda mais num contexto em que muitos parlamentares são contra as demarcações.

Infelizmente, apesar da Constituição Federal ter dado o prazo de cinco anos para que as terras indígenas fossem demarcadas, após quase 30 anos muitas terras seguem sem mesmo terem seus estudos realizados.

2- O fato de termos no Congresso Nacional uma forte representatividade das entidades do agronegócio, de termos a bancada ruralista, pode causar impactos negativos para a demarcação de terras caso a PEC 215 seja aprovada?

A bancada ruralista é a principal promotora da PEC 215, sendo que a Comissão Especial que aprovou o texto da PEC em 2015 foi composta majoritariamente por parlamentares da Frente Parlamentar Agropecuária. Sem dúvida se criaria muitos impasses e dificilmente os povos indígenas seriam respeitados, pois vivemos em um país preconceituoso em relação aos modos de vida e a especificidade dos povos.  Muitos querem que os povos entrem na mesma dinâmica do consumo e que suas terras possam ser exploradas. O que a PEC 215 objetiva é a disponibilização das terras indígenas para o mercado de terras, ou seja, que empreendimentos do agronegócio ou outros estejam livres para explorar as riquezas presentes nestas terras, em muitos casos preservadas pelos indígenas.

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3- O então ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, publicou recentemente no Diário Oficial uma portaria que cria um grupo de trabalho no ministério com o poder de reavaliar os processos de demarcação em andamento. Como o senhor e o Cimi avaliam isso? Essa atitude não fragiliza o trabalho da Fundação Nacional do Índio (Funai)?

A Portaria ao criar um GT no âmbito do Ministério da Justiça na prática burocratiza ainda mais os processos para a demarcação das terras indígenas, que hoje são regulamentados pelo Decreto 1.775 de 1996. Este Decreto já estabelece todo o “rito” para a demarcação de uma terra. O GT criado responde a demandas dos ruralistas. Por isso, a nossa preocupação é de que ele seja usado como instrumento para construção de falsos argumentos e que estes sejam usados pelo Ministro da Justiça para desaprovar os laudos antropológicos de identificação e delimitação de terras indígenas.

Sobre a Funai, esta vem sendo desestruturada tendo cortes profundos em seu orçamento, praticamente inviabilizando suas ações.

4- Como o Cimi avalia a nomeação e atuação do novo presidente da Funai, Antonio Fernandes Toninho Costa?

Pessoalmente não temos nada contra o Sr. Antônio, contudo a indicação dele pelo PSC é o exemplo de um governo que ‘loteia’ cargos para cumprir acordos no pacto feito para o impeachment da Presidente Dilma.

5- A indicação de Ubiratan de Souza Maia para a coordenação-geral de Licenciamento Ambiental da Funai tem gerado desconforto entre os funcionários da autarquia. Ele é acusado pelo Ministério Público de arrendar terras indígenas ilegalmente. Na denúncia, o MPF pede o ressarcimento de R$ 240 mil à comunidade Terra de Chapecó. Como o Cimi enxerga essa indicação?

 Eu particularmente não conheço o Sr. Ubiratan, contudo não seria bom para qualquer autarquia pública ter em seu quadro um servidor que responde a acusações judiciais justamente por desrespeitar a Constituição Federal e os direitos que deve defender. Creio também que é um direito dos funcionários de carreira do órgão se manifestar sobre qualquer nomeação.

6- Os conflitos de terra ainda fazem vítimas pelo País e os indígenas estão entre eles. Como sair desse cenário? Quais as saídas que o Cimi aponta?

Todos os anos o Cimi publica o Relatório Violência contra os Povos Indígenas, onde estão relacionados muitos dos casos de violências e violações contra os povos. Destacamos as violações contra o patrimônio, contra pessoa indígena e os casos de omissão quanto aos direitos à saúde, educação e terra.

Muitas das violências e violações estão vinculadas à negação ao direito territorial destes povos, seja pela não demarcação ou pela invasão de territórios demarcados. Parte da solução para estes casos passa, então, pela efetiva demarcação das terras indígenas e pela proteção destes territórios pelo Estado brasileiro. Também é fato que a impunidade frente aos crimes cometidos contra estes povos reforça as violências, pois os agressores sentem que não sendo punidos podem seguir violando a lei.

Em março de 2016 o Brasil recebeu a visita da Relatora Especial da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpus. Ela esteve em visitas aos indígenas Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, povos que vem sendo há anos vitimados por ataques de paramilitares e pela negação de seu direito à terra.

Em seu Relatório, apresentado em setembro do mesmo ano, Victória fez duras críticas ao governo brasileiro e ao descaso deste para com os povos indígenas.

7- Quais as maiores demandas que o Cimi apresenta ao estado brasileiro no que diz respeito às políticas públicas que garantam os direitos das populações indígenas?

Como apontado antes, entre estas demandas está a efetiva demarcação e proteção das terras. Os povos demandam ainda a efetivação de uma Educação Escolar Indígena diferenciada, com respeito às suas culturas e formas de organização; também o atendimento à saúde, embora a criação da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena, segue com grandes deficiências.

O Brasil é signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho que, entre outras dimensões, reafirma a autodeterminação dos povos. Neste aspecto, os povos vêm cobrando que o direito à consulta previa, livre e informada seja respeitado quando da realização de qualquer ação que os afetem.

8- Percebe-se uma onda de criminalização dos movimentos sociais por parte de alguns partidos políticos. O senhor acredita que isso esteja acontecendo agora com entidades que defendem os direitos indígenas, como o próprio Cimi, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA)? Como o senhor avalia esse cenário e qual a resposta do Cimi sobre o pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal na CPI da Funai?

Os primeiros criminalizados são os próprios povos e lideranças indígenas, pois seus direitos elementares são negados. Em segundo lugar vemos uma onda de criminalização de todos os que se opõe ao projeto hegemônico do capital, que tem em sua base a exploração dos bens da natureza.

Há 30 anos o Cimi enfrentou uma primeira CPI, com acusações infundadas que tentavam desmoralizar e criminalizar o Cimi. Em 2015 a Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul também instalou uma CPI para supostamente investigar as ações do Cimi; outra CPI, para investigar a Funai e o Incra, instaladas na Câmara dos Deputados também buscam investigar o Cimi e as organizações citadas, além do Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Tanto em 1987 quanto agora, a presidência da CNBB assumiu a defesa do Cimi e de seus missionários e missionárias.

Estranhamente as CPIs de 1897 e a do MS não encontraram nada que de fato possa incriminar o Cimi e a CPI da Câmara que investiga órgãos públicos, quer investigar-nos mesmo sabendo que não acessamos qualquer recurso público.

De fato estas CPIs visam criminalizar os povos indígenas e seus aliados.

9- O Projeto Cruviana, um sistema de geração de energia eólica e solar para abastecer comunidades tradicionais da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, feito em parceria entre o Conselho Indigenista de Roraima, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), pode ser visto como um exemplo de sucesso de terra indígena demarcada que preserva o ambiente e gera energia? Por que esse projeto não é tão conhecido?

Este projeto é uma demonstração concreta de que o Brasil tem uma potencialidade para gerar de forma alternativa energia, sem obrigatoriamente determinar a construção de grandes hidrelétricas, como são os planos dos diferentes governos.

A mídia corporativa e empresarial, por interesse econômico das corporações que financiam suas programações, prioriza a veiculação de informações que se contraponham às demarcações das terras indígenas e esconde as iniciativas positivas dos povos.

10- Estudos revelam que o desmatamento é significativamente menor dentro de reservas indígenas bem estabelecidas (uns 40% no Brasil, por exemplo) do que em áreas não demarcadas, o que revela que a presença indígena protege as florestas e traz uma série de outros benefícios com impactos econômicos positivos diretos ou indiretos: estabiliza o clima regional, garante o suprimento de água para a agricultura e o consumo humano (já que matas atuam como imensos filtros naturais) e abriga polinizadores, sem os quais muitas lavouras não vingam. Do ponto de vista humano, como os indígenas podem nos servir de exemplo no dia a dia, por exemplo no que diz respeito ao viver em família e ao bem viver e preservar toda a criação?

Os povos indígenas sempre buscam manter uma vida harmoniosa com a natureza, respeitando seus ciclos e utilizando de forma que esta possa continuar se mantendo e mantendo a vida de suas comunidades.

Esta maneira de viver dos povos foi lembrada pelo Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Sí e também no encontro realizado com representantes dos Povos Indígenas, onde o Papa afirmou que os povos é quem devem ter a palavra final sobre suas terras. Sabemos que, como lembrou Francisco, há projetos que ameaçam esta harmonia, pois em vista de um desenvolvimento que não os inclui, impactam a natureza e, consequentemente, os povos. Assim vemos as grandes hidrelétricas, estradas e outros empreendimentos.

O Bem Viver que significa a vivência harmônica com a natureza e entre os seres humanos, como preconizam os povos andinos é uma grande lição que nós precisamos aprender, pois ao invés de cuidar da criação estamos destruindo.

11- Sobre a evangelização, como se dá a missão junto aos indígenas tendo em vista a identidade cultural de cada povo?

O Cimi tem como ponto de partida o diálogo, o respeito pela diferença e, como nos afirma o Documento de Aparecida, pelas “sementes do Verbo” presentes nos povos indígenas. Como popularmente se diz: “Deus estava presente no meio dos povos indígenas antes dos Europeus chegarem aqui”. Assim, a Evangelização não pode ser uma imposição, mas fruto da vivência e do Evangelho Gritado pela Vida, como nos ensinou Carlos de Foucauld; nunca uma demonização das tradições, costumes e espiritualidades dos povos. Respeitamos a identidade de cada povo e alteridade de cada povo que também passa por suas expressões religiosas. Entre povos que já possuem experiências antigas de catequese e cristianismo, o Cimi busca responder de forma respeitosa, de maneira encarnada.

12- Há projetos dos regionais da CNBB que enviam missionários do sul para a Amazônia? Faltam missionários juntos aos indígenas? Qual o trabalho que ainda precisa ser desenvolvido?

Mais que trabalhos pré estabelecidos, necessitamos de presença de missionários e missionárias que desejem assumir um processo de encarnação junto aos povos indígenas. Pessoas que sejam capazes de construir com as comunidades. Homens e mulheres que nos ajudem a construir pontes, que tenham a coragem de descalçar as sandálias e sejam pessoas apaixonadas pelo Reino de Deus.

Missionário que seja capaz de construir com as comunidades indígenas, processos que fortaleçam a autonomia no diálogo intercultural, ecumênico e inter-religioso.

um prêmio

Larozza

Estive em Trindade, em Goiás, para receber o terceiro prêmio de jornalismo da minha carreira. Quero me concentrar no mais recente e motivo deste post com sabor mais do que especial: o Dom Helder Câmara de Imprensa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A reportagem que me levou até o prêmio foi Trilhos da Vida, que escrevi depois de oito dias no interior do Maranhão apurando a realidade de pescadores, quilombolas, professores, crianças, donas de casa, gente que vive às margens da Estrada de Ferro Carajás e há décadas convive com os impactos que a exploração de minério na Serra dos Carajás e o escoamento do mesmo até o porto em São Luís causa.

Impactos como casas rachadas; assoreamento dos rios e por isso falta de peixe; professoras sem voz tentando falar mais alto que o barulho do trem e por isso crianças sem aulas; falta de sinalização e acesso na ferrovia e por isso atropelamentos; indígenas e quilombolas tendo suas terras cortadas por obras e por isso um futuro incerto aos povos originários.

A apuração da reportagem contou com o apoio da Rede Justiça nos Trilhos, uma organização que visa fortalecer as comunidades ao longo do corredor Carajás e denunciar as violações aos direitos humanos e da natureza responsabilizando Vale e Estado, prevenindo novas violações e reafirmando os modos de vida e a autonomia das comunidades nos seus territórios.

Eles como poucos e aqui destaco a figura do padre Dario Bossi, conhecem a realidade, o dia a dia, as dores dos que vivem às margens da ferrovia, e nos acompanharam pela estrada possibilitando transporte, alimentação, ombro, o contato com homens e mulheres que mudaram minha forma de ver a vida, gente como Anacleta, Rose… mulheres que coloquei inclusive em meu livro, o Mulheres Extraordinárias.

A reportagem premiada também está no livro, mas com bastidores e impressões da mulher repórter. Não há a censura editorial bem comum nas redações por diversos motivos 🙂

A Rede Justiça nos Trilhos, pois,  é responsável também por construir a esperança na vida daqueles cidadãos, de que é preciso lutar pelos nossos direitos. A comunidade de Piquiá de Baixo, com cerca de 350 famílias, sabe muito bem o que é isso, tanto que depois de décadas vivendo sob o pó da siderurgia em Açailândia, no Maranhão, de problemas sérios respiratórios, alérgicos, conseguiram um terreno para viverem com mais qualidade de vida. Um terreno um pouco mais afastado dos impactos das siderúrgicas que permanecem por lá.

Ir até o Maranhão só foi possível porque a Associação Católica de Comunicação (Signis) acreditou e viu a necessidade de denunciar tal situação tão distante dos olhos da maioria dos brasileiros, das tevês e jornais tradicionais. A reportagem foi publicada na Revista Família Cristã, onde sou repórter contratada, e compartilhada em diversas outras publicações que acreditaram na necessidade de denunciar os descasos do poder público e da empresa Vale.

Eu não fui sozinha pela estrada, ao contrário. Se nas costas estavam a mochila, ao lado, estava Felipe Larozza, o repórter-fotográfico que fez fotos tão impactantes, significativas e lindas que dispensariam minhas palavras, meu texto. Junto a nós estavam Renata Santos e Guto Stancatti, a equipe de tv que nos acompanhou e produziu um documentário para a Rede Século 21, que também foi transmitido por outras dezenas de canais com a chancela da Signis.

Este prêmio é, portanto, nosso, de muita gente que acredita na função do jornalismo de formar e informar as pessoas para o bem de uma sociedade mais justa e democrática, e o dedico aos homens e mulheres que resistem no Maranhão e no Pará aos desmandos de grandes empresas que desrespeitam legislações ambientais e os direitos humanos, em detrimento de um desenvolvimento econômico insustentável.

Dedico também à minha então editora de redação que hoje é membro da diretoria da Signis, Osnilda Lima, e aos colegas de redação: Nathan Xavier e Dagmar Oliveira, Sueli Santos dal Belo quem o revisou, Rebeca Souza Venturini, Mateus Leal que deram a forma e a cor à palavras e fotografias que trouxemos do Maranhão. Mas este prêmio é também do meu marido, Felipe Rabello, aquele cara que segurou as pontas em casa, enquanto eu percorria os quilômetros de estrada. O cara que eu amo e me encoraja a seguir fazendo jornalismo, desses de pé na realidade.

A cerimônia de entrega do prêmio foi no dia 31 de março, no Cineteatro Afipe, no dia de aniversário do Felipe. Noite mais do que especial. Recebi troféu das mãos do arcebispo primaz do Brasil e vice-presidente da CNBB, dom Murilo Sebastião Ramos Krieger. “Esses trabalhos valorizam a defesa da vida, a dignidade da pessoa humana, o sadio divertimento, a ética, enfim, valores que são não apenas do cristianismo, mas de toda a comunidade humana”, destacou  dom Krieger.

Essa premiação nos encoraja a seguir pautando a realidade dos mais pobres e excluídos que vivem nas nossas periferias. É um sinal profético também, um apelo às empresas de comunicação a estarem onde a grande mídia não está e a denunciar o abandono dos mais vulneráveis e seguir apontando sinais de resistência e esperança.

A premiação será veiculada dia 28 de abril, sexta-feira, às  21h30, pelas emissoras
Rede Aparecida, Rede Vida de Televisão, Rede Rede Canção Nova, Rede Século 21

Rede Evangelizar, Rede Nazaré, TV Horizonte e TV Tubá.

Esse Dom Helder Câmara renova minha vontade de ser repórter de all star e bloquinho na mão, da rua, da real. Obrigada a você que de verdade sorri comigo.

Vencedores dos Prêmios de Comunicação da CNBB 2017

Margarida de Prata (Cinema)
Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil, de Belisário Franca
Marias, de Joana Mariani
Chico, de Irmãos Carvalho

Microfone de Prata (Rádio)
– Jornalístico
Prevenção de suicídio. É preciso falar. É possível salvar vidas, de Paula Groba/ Rádio Senado (DF).

– Religioso
Família Consagrada, de Nathalia Silva Pinto/ Rádio Imaculada Conceição (SP).

– Entretenimento
Ponto de Encontro, de Imaculada del Padre (SP).

Dom Helder Câmara (Imprensa)
– Jornal
Terra Bruta, de A. Borges e L. Nossa/O Estado de S. Paulo (SP).

– Revista
Trilhos da Vida, de Karla Maria/Revista Família Cristã (SP).

Clara de Assis (Televisão)
– Reportagem
O mundo sem cárcere, de Carlos Eduardo G. de Miranda/TV Aparecida (SP)

– Documentário
O Bento – Terra da gente
, de João Eugênio, Luiz Fernando Batista e Vinícius Portugal/TV Horizonte / Belo Horizonte (MG).

Dom Luciano Mendes de Almeida (Internet)
– Portal, sites e blogs

Só notícia boa, de Rinaldo de Oliveira e Silva (DF).
http://www.sonoticiaboa.com.br

– Iniciativas em Redes Sociais

SP Invisível, de Vinicius Lima e Andre Soler (SP).
PT-br.facebook.com/spinvisivel

– Aplicativos
Senhor do Bonfim, de Elaine Franco (SP).

Menções Honrosas
– Miguel Pereira, crítico de cinema, docente da PUC-RJ e um dos organizador do Margarida de Prata.

– Silvio Tendler, diretor de seis filmes premiados.

– Dira Paes, atriz e coprodutora de Esse homem vai morrer – Um faroeste caboclo
(Emilio Gallo, 2011).

– Rodrigo Santoro, ator em dois filmes premiados.

– Fernanda Montenegro, atriz em dois filmes premiados.

Saiu o livro Mulheres Extraordinárias

livroEle já está disponível nas nuvens e eu já me sinto nua por completo. Estou falando do Mulheres Extraordinárias, o livro que escrevi com olhar curioso e pés famintos, que percorreram lugares distantes e nem sempre bonitos.  Trata-se da união de reportagens e perfis que escrevi sobre algumas mulheres e suas realidades escondidas por este país, mulheres não ouvidas, mulheres esquecidas.

Sinto-me nua, porque nas reportagens e perfis acabei me revelando, entre uma escolha e outra, no meio da apuração e nos perrengues que só quem bota a mochila nas costas e pega a estrada sabe que acontecem, e como acontecem. Neste livro, do qual me orgulho muito, coloquei-me no lugar delas e dei minha “voz” a elas.

Mãe órfã, mulher traficada, refugiada e freira ao lado de indígenas, negras, quilombolas; mulheres em situação de rua, que luta detrás das grades. Tem Mc Soffia, tem Mãe de Maio, Mãe da Sé. Tem meninas que gostam de meninas, mulheres que apanharam e recomeçaram, mulheres belas. Tem a Bela, a vida, a resistência, o grito. Tem Guadalupe, tem Maria, te fé.

O livro está disponível no site da Paulus, editora que me fez este convite inusitado para uma repórter “da rua” e que apostou em dar voz a essas mulheres incríveis com suas dores e suas alegrias.

Não é um manual de como fazer boas reportagens. Não! Mas é uma boa leitura para os que pretendem se aventurar na reportagem. Um choque de realidade distante do glamour que existe em torno da profissão que sigo antes mesmo de ser graduada.

O preço é bem acessível, por isso deixo o convite sem constrangimentos… leia as 256 páginas ilustradas por Rebeca Venturini, leia estas mulheres e com elas as diferentes realidades socioeconômicas e culturais, os problemas e soluções que encontraram, que trilharam para seguir. Espero de coração que goste, que se constranja, que sinta indignação, compaixão e esperança. Boa leitura!

Dom Zumbi para não ser esquecido

Dom José Maria Pires _ Foto de Felipe Rabello

Dom José Maria Pires _ Foto de Felipe Rabello

Havia injustiça e situações que você não aguenta. Tem que falar, tem que gritar. Então, realmente o que levou a gente a tomar posição foi a situação do povo. Ou você toma posição ou você está traindo o seu ministério.”

Encontramos-nos no jardim da casa de repouso dos jesuítas em Belo Horizonte, Minas Gerais. Era um dia quente, mas providenciamos uma sombrinha fresca para conversar. Ficamos por ali, entre pássaros e o vento, por cerca de duas horas tratando dos 95 anos de dom José Maria Pires.

A conversa só foi interrompida por umas boas risadas e por uns goles d’água desta repórter, já que o entrevistado não parecia cansar ou perder o fôlego de recuperar sua história.

Dom José é conhecido popularmente por dom Pelé, em homenagem ao atleta santista que se destacou na década de 1960, já que ele mesmo se destacava como o único bispo negro do País; hoje ainda são apenas 13. Também é conhecido por dom Zumbi, por motivação de dom Pedro Casaldáliga, que o “rebatizou” na celebração do centenário da Abolição da Escravatura, em 1988, na Serra da Barriga, que fica a cerca de nove quilômetros do município de União dos Palmares, em Alagoas.

E foi com dom Zumbi que conversamos naquela tarde. Seus poucos cabelos brancos estavam alinhados. A visão esquerda periférica, comprometida por um acidente vascular cerebral anos atrás. Suas mãos carregavam o anel de bispo, que era simples, e um lenço branco que saía do bolso, de tempos em tempos, para socorrer ‘o nariz de negro’ de uma gripe que parecia iniciar. A voz forte contava assim, com o jeito mineiro de ser, a história de uma vida toda, que ia da infância lá em Córregos, no interior de Minas Gerais, até sua estada na capital mineira, entre os jesuítas.

Filho de Eleutério e dona Pedralina, José nasceu em 15 de março de 1919. Seus primeiros anos de vida passou ali mesmo na pequena Córregos, junto de seus irmãos: Geraldo, João, Maria da Cruz e Florinda. Foi assim até a morte da mãe em 1927, quando os filhos foram separados.

José soube da morte da mãe apenas quatro meses depois. “Eu estava em Diamantina com a madrinha e fui saber da morte da mamãe meses depois. Naquele tempo não tinha telefone. Papai escreveu uma carta que chegou pelo correio e foi assim que fiquei sabendo”, contou dom José. O pai era carpinteiro e sozinho não tinha como criar os filhos, então Geraldo ficou com o pai; João, o terceiro, ficou com monsenhor Domingos [Januário Santana]. A quarta, Maria da Cruz, ficou com os padrinhos dela e a última, que era Florinda, pequenina aos quatro meses, ficou com duas tias em Córregos mesmo.

José ficou com a madrinha Maria D’áfrica Machado, em Diamantina. E foi por ali que aos 12 anos entrou para o seminário, iniciando os estudos para o sacerdócio. Mas a decisão acontecera bem antes, aos oito anos, ainda em Córregos, como conta. “Em um domingo, depois da missa, no meio de todos, eu disse que queria ser padre. Todos riram, foi uma decepção só”. A madrinha puxou o menino pelo braço e o levou para conversarem sobre a novidade. “José, o que você disse é algo muito sério, reze para São José que é o padroeiro das vocações e veremos o que ele arruma”. E foi a partir da conversa com a madrinha que José passou a ir à igreja todos os dias antes da aula. Parava diante da imagem de São José, se ajoelhava e dizia: “São José, eu quero ser padre”. Fazia o sinal da cruz, girava os calcanhares e seguia rumo à escola.

O menino gostava de rezar, aprendera com o pai ainda pequeno a desfiar o rosário, todas as noites, antes de se deitar. Aos domingos ia à missa religiosamente. “O vigário era muito compreensivo com o povo, até com os que tomavam cachaça”, contou divertindo-se.

A oração de José a seu padroeiro homônimo rendeu frutos. No dia 25 de janeiro de 1931 entrou para o seminário em Diamantina. Não fora fácil. A madrinha teve de fazer uma vaquinha para providenciar o enxoval. “A gente andava de batinas. Precisavam de duas, de um cobertor, até bacia tínhamos que levar, porque naquele tempo o seminário não fornecia nada. Então a madrinha e as amigas fizeram uma cotização, como se costuma dizer”, contou o bispo.

Na véspera, José com seus 12 anos mal conseguia dormir. “Quando acordei disse: ‘graças a Deus que eu vou para o seminário’”. E foi. Entre os muros do Seminário Sagrado Coração de Jesus, inaugurado em 1867, por dom João Antônio dos Santos, o menino iniciou seus estudos no seminário menor. Eram seis aulas por dia, quatro de manhã e duas à tarde. Lições de português e latim, francês e ciências. Aos sábados à tarde tinha o futebol. “A gente não podia tirar a batina, então suspendia e prendia com um cinturão pra deixar as pernas livres”, contou com riso.

Já no seminário maior levantava às 5 horas da manhã, lavava o rosto e ia para a sala de oração: uma hora antes de iniciar a missa e depois dela tomava o café e começava os estudos de filosofia, história da Igreja, grego, hebraico. Tudo em silêncio, em oração, em fila. “Era um ritmo puxado, só de estudos, completamente diferente do que é hoje. Hoje é impossível pensar em uma organização desta maneira. Não digo que era melhor ou pior, era o que a gente podia ter naquela época”, explicou dom Zumbi.

Aos 22 anos terminou os estudos, realizou os exames finais e fez seus votos. Nunca pensou em desistir. Foi ordenado em 20 de dezembro de 1941.

Já padre – Permaneceu o ano de 1942 no seminário. No final daquele ano foi mandado para Travessão de Guanhães, um distrito mineiro do município de São Miguel de Guanhães, onde os protestantes juntavam seus fiéis. “Lá eu comecei a ter um contato com os protestantes. Tinha um que entendia bem de arrumar relógio e eu precisava arrumar o da paróquia. Ele ia e nem entrava na igreja”, lembra dom José, sorrindo do “causo”.

Padre José se dividia entre os cuidados das paróquias em Açucena e Naque, uma cidade no interior de Minas Gerais. A distância era de seis horas a cavalo mais trem. Usava um facão para ir abrindo os caminhos da mata fechada. “A gente era jovem e até gostava. Eu ia cortando os galhos. Tinha era medo de descer do animal. Chegava de manhãzinha lá em Açucena e ia direto para a igreja. Chegava e tocava o sino, o pessoal sabia que o padre chegou. Depois ia para casa e tomava banho, nem água podia tomar porque já ia celebrar”, recorda dom José de suas aventuras de padre moço por Minas Gerais.

O jejum era obrigatório antes das missas. Jejum natural – da meia-noite até a hora da comunhão. O sacrifício maior era quando as pessoas queriam se confessar antes da missa e assim o padre passava horas sem comer atendendo o povo, mesmo depois de uma longa e cansativa viagem a cavalo pelo mato. “Este era o maior sacrifício, porque você tem sede e não sei como não morri de sede”, desabafou.

Ficou neste vai e vem por alguns anos, não se lembra ao certo quantos. Até que o arcebispo o mandou trabalhar na assistência aos “padres velhos”. Foi nomeado missionário arquidiocesano da irmandade da providência. “Eu fazia batizado, assistia casamento, fazia tudo com o objetivo de conseguir recursos para a chácara para os idosos. Sabendo que era para os padres velhos entrou uma chuva de dinheiro. Atendia confissão, ajudava os vigários, visitava as famílias. Foi um trabalho muito interessante e o povo colaborou que você não queira saber. Às vezes não recebia dinheiro, mas recebia bezerro, galinha, ovos”, recorda dom José, que ficou na Irmandade por seis anos.

Logo após foi nomeado pároco de Corvello, onde ficou por pouco tempo, até ser ordenado bispo em 22 de setembro de 1957. Tornava-se o terceiro bispo da diocese de Araçuaí.

Bispo – Dom José participou das quatro sessões do Concílio Vaticano 2º e para ele foi um momento que mudou “completamente” o estilo de Igreja. “São João 23 quando completou o Concílio dizia que não era para proclamar novos dogmas não, era para a gente realizar a Igreja unida. Os concílios antigos excomungavam, o Vaticano 2º era para dizer ‘a paz esteja com você’”, disse.  E continuou descrevendo as reações dos que protagonizaram aquele momento.

“A gente sai da primeira sessão do Concílio e começa a refletir e ver que esse povão é que frequenta a Igreja. Então se a Igreja é povo e o povo que nós temos é simples e humilde, então é com este povo que a gente tem de trabalhar. Você não exclui os outros, mas a função tem de ser na comunidade eclesial de base”. Desta conclusão dos bispos é que vai surgir um pacto interessante. “O Pacto das Catacumbas reuniu um grupo de bispos que fizeram um compromisso de pobreza. Pobreza não é miséria não, mas é isso, você ter o necessário. Não era necessário ter uma cruz de outro, então substituíamos por uma de madeira. Depois, meu Deus, será que a gente pode, trabalhando com os pobres, morar em um palácio?”, disse dom José, lembrando-se da radicalidade de dom Hélder Câmara, que deixou o Palácio dos Manguinhos, o palácio episcopal de Recife, para morar na sacristia de uma igreja.

Uma prosa boa_Foto de Osnilda Lima

Uma prosa boa_Foto de Osnilda Lima

Dom José também assumiu o pacto. Suas visitas pastorais eram simples. Lembra-se – e com diversão – de quando foi à cidade de Pilar, já na Paraíba, e foi hospedado por uma professora que morava com o pai. Tinha lá um quarto “arrumadinho”, conta. Foi tomar seu banho e quando voltou encontrou duas camas. “O quarto era grande. Parece que era um viajante, porque se levantou muito cedo. Dividimos o espaço e isso se chama opção preferencial pelos pobres. Não só porque você vai dar atenção aos pobres, mas porque também você vai adotar um estilo de vida que seja realmente bem próximo dos pobres”, explicou o bispo.

Depois do Concílio Vaticano 2º, dom José foi nomeado arcebispo da Paraíba, tomando posse em 2 de dezembro de 1965. Eram tempos de ditadura. O presidente João Goulart acabara de ser deposto pelos militares, depois de ter governado o País de 1961 a 1964. No começo, dom José, como a maioria do prelado brasileiro, defendia a “revolução”. “No começo a gente acreditava na revolução. Não houve nada de mais, nada de prisões. Nesta ocasião eu já era arcebispo da Paraíba e o marechal foi a Recife visitar uma unidade militar lá. Nós bispos fomos todos convidados a jantar com o marechal Castelo Branco”. O expediente dos militares parecia convencer os bispos.

O jantar dos militares servido aos bispos tinha carne de sol com macaxeira. A sobremesa foi doce de jaca, que para o paladar do arcebispo só é boa quando dura. A água mineral oferecida era das fontes da Paraíba. O presidente Castelo Branco ia de mesa em mesa. E assim os militares convenceram a Igreja, de modo doce, até que o amargo começou a surgir da boca dos presos e torturados.

“Acontece que logo depois começaram as prisões e aí ameaçavam de prisão um padre na Paraíba porque ele fez um sermão do qual não gostaram. Eu peguei meu jipe e viajei 500 e tantos quilômetros até Belo Horizonte para conversar com o general, era o Mourão”. O general mineiro Olympio Mourão Filho foi o mesmo que em 31 de março de 1964 ordenou que as tropas da 4ª Divisão de Infantaria, que comandava em Juiz de Fora, seguissem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, fato que precipitou o golpe militar de 1964.

“Eu não vou admitir que prendam padres na minha diocese sem antes vocês conversarem comigo, eu disse, e ele dizia que estávamos caminhando para dentro do comunismo”, contou-nos dom José.

Prenderam padres, estudantes, agricultores, gente de pastoral. “O Exército começa a assumir a coisa e vai prendendo adoidadamente. Os padres e agentes de pastoral você tem que fazer algo, você sabe que são incapazes de fazer aquilo de que estão sendo acusados, então tem que realmente ir atrás”, conta. E iam. Na Paraíba, além de contar com o grupo dos notáveis, três monsenhores velhos que andavam de batina e com o chapéu de sol atrás dos presos, surgiu o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Paraíba, o primeiro do Brasil, fundado por dom José.

“Tinha que defender aquele pessoal e só com advogado para ficar exclusivamente com aqueles casos, então eu fui a São Paulo e conversei com dom Paulo Evaristo Arns, ele achou que o negócio ia dar certo”. E deu. Dom Paulo foi à Paraíba para inaugurar o centro de defesa que tinha o objetivo de ajudar os presos políticos e suas famílias.

“Havia injustiça e situações que você não aguenta. Tem que falar, tem que gritar. Então, realmente o que levou a gente a tomar posição foi a situação do povo. Ou você toma posição ou você está traindo o seu ministério. Que bispo é este? Que padre é este que está a serviço do povo e na hora que o povo é massacrado você então não fala nada? Então a gente denunciava. Eu  tenho algumas cartas pastorais, são todas de denúncias”, revelou.

Mas a tomada de postura contra o regime não foi fácil e sofreu retaliações dentro da Igreja. “Dentro da Igreja no começo nós não éramos aceitos. Muitas vezes os bispos do Sul não entendiam a coisa e achavam que era exagero nosso. Em um destes nossos encontros dom Hélder saiu chorando, porque foi colocar a situação de alguns que estavam sendo torturados e aí os bispos do Sul questionaram: ‘o senhor tem provas disso?’. Mas, meu Deus, prova de tortura?! A gente sabe pelas visitas que fazia, não tinha nada escrito, nada de provas não”, contou dom José, que junto a dom Paulo Evaristo Arns e dom Tomás Balduíno coordenou a publicação do documento “Eu ouvi os clamores deste povo”, que denunciava as questões da ditadura.

“Mas como é que a gente ia publicar aquilo? Eles foram de diocese em diocese mostrar o documento. No fim saiu um documento forte denunciando a ditadura e condenando a maneira através da qual os militares estavam conduzindo. Em todas as missas, em todas as dioceses do Nordeste o documento foi lido”, revela.

Preconceito – O menino José sentira preconceito no seminário. Muito antes de ter autoridade para enfrentar militares, foi vítima de uma tortura institucionalizada, aceita socialmente: o preconceito de raça. Em um dia normal de seminário, pisou no cordão de um colega. Branco, filho de família nobre, foi motivo o bastante para descobrir qual era seu lugar. “Ele me mostrou um canivete e disse: ‘lá fora você me paga’. Na hora do recreio eu fui pra cima dele e nós rolamos”, conta hoje, se divertindo. “Aí veio o regente, nos separou e nos colocou de castigo”.
Os dois ficaram de castigo até o regente justificá-lo para o diretor. “‘Este menino aqui é de boa família, este [nego] aqui é que não presta’. Durante a minha vida no seminário várias vezes eu senti isso. Como padre várias vezes a gente sentiu na paróquia esta discriminação e como bispo, a coisa ainda veio”, revelou aos 95 anos, e completou: “Eu me honro de ser negro. Sou negro no corpo e na alma. Olha meu cabelo, meu nariz, meu coração só podia ser de negro”.

Aos 74 anos dom José apresentou sua renúncia à Santa Sé, que chegou em 1976. Hoje é bispo emérito. Pregador de retiros. Contador de histórias e certamente a sua é da melhores. Encerramos a entrevista. Ele tomou, enfim, um gole d’água. Despediu-se atencioso e seguiu com passos lentos para seu descanso, deixando antes seu abraço e sorriso negro, de gente simples, que verdadeiramente se importa com quem lhe atravessa o caminho. A porta se fechou e voltamos para São Paulo.

Decisão sem volta

universo-jatoba-chadeleao1O suicídio é um grave problema de saúde pública presente em 75% dos países de baixa e média renda, inclusive o Brasil

Às 6h50 de um domingo de maio, um homem se jogou no ar. “Os bombeiros tentaram salvá-lo. Chegaram a conversar com ele, mas meu irmão disse que não queria viver. A gente desconfiava um pouco porque ele era muito calado. Trabalhava na mesma empresa há 17 anos e nunca foi de faltar nem de chegar atrasado”, disse a irmã Elisângela dos Santos. Assim, Rafael dos Santos suicidou-se. Foi um entre os 25 casos que, em média, ocorrem diariamente no Brasil – a estatística é da Organização Mundial da Saúde (OMS). Rafael tinha 39 anos e era pai de quatro filhos, mas acabou com a vida atirando-se da ponte estaiada Octávio Frias de Oliveira, no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo (SP), antes do término de seu casamento.

Por ano, no mundo, cerca de 800 mil pessoas optam pelo mesmo fim – uma morte a cada 40 segundos. Segundo a Universidade de Oxford, na Inglaterra, o número supera os óbitos causados por guerras, homicídios e desastres naturais em igual período – 669 mil. Globalmente, os suicídios respondem por 50% das mortes violentas entre homens e 71% entre as mulheres. Em 2020, projetam-se 1,5 milhão de casos, 2,4% das mortes mundiais. As taxas aumentam entre pessoas de 70 anos ou mais. “Jovens e idosos constituem os grupos etários mais sujeitos”, confirma Maria Cecília Minayo, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp). Entre os jovens, as causas mais comuns estão na dificuldade de emancipação da família e de entrada no mercado de trabalho, alta exigência acadêmica, não aceitação entre pares, dificuldades de assumir a orientação sexual, excessiva competitividade no trabalho e na família, e violência doméstica e comunitária, além da desestruturação familiar.

Sentido da vida – No Brasil, os suicídios cresceram 30% entre jovens de 15 e 29 anos, tornando-se a terceira causa de morte de pessoas em idade produtiva. No geral houve crescimento de 10,40% – mulheres, 17,80%; homens, 8,20%. Segundo o Ministério da Saúde, a taxa média de 5,8 suicídios por 100 mil habitantes é a metade da mundial, 11,4 por 100 mil, e está abaixo de outros países da América do Sul, como Argentina (10,3), Bolívia (12,2), Equador (9,2), Uruguai (12,1) e Chile (12,2).

No País, a distribuição do suicídio é desigual. Pesquisa realizada pela Ensp revela que a região Norte apresenta as menores taxas enquanto no Sul estão as maiores. Nele estão 45 dos 50 municípios com índices mais elevados de mortes autoprovocadas, entre pessoas acima de 60 anos. Por quê? “Em seu interior, de tradição europeia, a cultura do trabalho e familiar envolve todos os aspectos. Quando a pessoa se aposenta, não pode mais trabalhar ou já criou os filhos pode perder o sentido da vida”, responde Cecília, que também constatou: os idosos morrem principalmente em suas residências (51%) e o fator de maior frequência tanto para homens (32,1%) como para mulheres (31,7%) é o isolamento social.

Distimia – De modo geral é difícil generalizar as causas do suicídio, normalmente difusas. “Estudos evidenciam como fatores predisponentes doenças graves e degenerativas, dependência física, distúrbios e sofrimentos mentais e reações depressivas ou depressão severa”, enumera a pesquisadora, excetuando a depressão como um fator comum relevante. De fato, pesquisa recente realizada com 1.464 pessoas pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) apontou que 3% dos entrevistados que tentaram o suicídio atribuíram o fato à depressão, principalmente à distimia – uma variação mais leve do transtorno que se caracteriza por um crônico sentimento de negatividade – associada ao abuso do álcool. “Por ter duração longa e responder menos ao tratamento, a distimia impacta a vida das pessoas”, descreve o psiquiatra responsável pelo estudo, Bruno Mendonça Coelho. “Cerca de 90% dos suicídios relacionam-se com doenças psiquiátricas”, completa.

A OMS classifica o suicídio como um grave problema de saúde pública presente em 75% dos países de baixa e média renda. “Por isso trazemos a público a necessidade de alguma intervenção como a oferta de uma rede de saúde qualificada que ouça o indivíduo, o atenda a tempo e faça intervenções com a família e os sobreviventes. Estes fatores de proteção precisam estar disponíveis”, afirma o médico e coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio do Ministério da Saúde, Carlos Felipe Almeida D’Oliveira.

Prevenção – Pelas estatísticas, 90% dos suicídios podem ser previstos e algumas atitudes práticas, segundo Carlos Felipe, ajudam a minimizar tentativas. “Em locais onde as pessoas se precipitam é necessário colocar redes, assim como barreiras em pontes e vidros nas partes internas do hall de residências e locais de trabalho. No metrô de Nova Iorque, por exemplo, há cartazes em várias línguas orientando as pessoas sobre o comportamento de outras que possam colocar as vidas em risco. Já os seguranças são treinados para observar suicidas em potencial”, alerta o médico. Na prevenção, acrescente-se o diálogo e o cuidado com o próximo. “Pequenos sinais como o abandono de hobbies e o isolamento social podem mostrar que algo está errado e a família deve ficar atenta. Conversar ‘olho no olho’ é fundamental para a pessoa desabafar”, aconselha Antônio Batista, há mais de 15 anos voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que, gratuitamente, oferece apoio emocional 24 horas pelo telefone, chat, e-mail, telefonia VoIP, correspondência ou pessoalmente em postos espalhados pelo País.

De acordo com os voluntários, as ligações telefônicas vêm de pessoas comuns. “É gente que passa por um momento difícil, se sente fragilizada e sem esperança. Solitária, sofreu perdas e não têm com quem dividir a angústia”, afirma Antônio, que lembra de conversas que se estenderam por horas. “O pior caso que atendi foi de um pai que havia abusado da filha e, arrependido, queria se matar”, recorda Terezinha Garcia Torreglosa, voluntária do CVV de São José do Rio Preto (SP) há mais de 20 anos. Segundo ela, os conflitos familiares são comuns. “Há muitos casos de jovens que se sentem cobrados pela família por não terem passado no vestibular”, exemplifica.

Não julgar – Falar de suicídio é um tabu. Porém, abrir espaço para discuti-lo é um dos meios mais eficazes de se prevenir contra o acontecimento de um ato sem volta. “Estruturas familiares muito fechadas, onde as pessoas não se comunicam, são um risco. Quanto maior a capacidade de adaptação maior a possibilidade de diálogo, o que evita o isolamento e os comportamentos de risco”, destaca o médico Carlos Felipe. E quando a morte acontece no seio da família a dor é inevitável e, muitas vezes, acompanhada de culpa. “Pais, mães e avós que enterram seus filhos, contrariando a ordem natural da vida, e os familiares que vivem se perguntando ‘por quê?’ não devem se culpar pelo suicídio, mas podem e devem confiar na infinita bondade e a misericórdia de Deus”, aponta o sacerdote e mestre em Psicologia Brendan Coleman Mc Donald.

O assessor da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) recorda que antigamente a Igreja Católica, sem a ajuda da Psicologia pastoral para a compreensão do que leva ao suicídio, aplicava sanções a essas pessoas, como a negação da sepultura eclesiástica e a celebração da missa pela sua alma. “Hoje, ajudada pela Psicologia e a Psiquiatria, a Igreja vê a questão sob outra forma e tem grande compreensão e misericórdia com quem chega a tal ponto. Há sepultamento em cemitério cristão e orações e missa pela alma do suicida”, esclareceu, em um artigo, o sacerdote, que também dispensa julgamentos. “A Psicologia e a Psiquiatria ensinam que ninguém conscientemente vai tirar sua própria vida. Se o faz, com certeza, não está mais consciente mesmo deixando recados explicando suas razões”, concluiu.

Saudade – Tal piedade, diga-se, ancora-se no Catecismo da Igreja Católica, onde se lê: “Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida” (CIC. 2282/3).

Procurada para falar com a reportagem da revista Família Cristã sobre o suicídio de seu filho, D.O., em 25 de janeiro deste ano, por enforcamento, após o término do namoro, a mãe do rapaz, que pediu para permanecer no anonimato, afirmou ainda não conseguir lidar com a dor. A morte recente machuca a mulher que reza pelo ‘anjo’ que se foi abruptamente aos 28 anos de idade e chora em forma de canção. “Oh, pedaço de mim / Oh, metade amputada de mim, leva o que há de ti / Que a saudade dói latejada / É assim como uma fisgada / No membro que já perdi”, respondeu a mãe em forma de canção Pedaço de mim, de Chico Buarque.

 

Abra o jogo

Entre em contato telefônico com o Centro de Valorização da Vida (CVV) teclando 141 ou acessando o bate-papo no site www.cvv.org.br. Outra opção é pelo skype. No mesmo endereço há o endereço dos postos da entidade em todo o País. Lá você não precisará se identificar, apenas dividir o que está passando. Se for o caso de ajudar alguém, fique atento: um suicida em potencial apresenta sinais de desesperança, sente-se um peso para a família, abandona hobbies, fica isolado, não participa de eventos da família e pode abusar do uso de álcool. Estes sinais sugerem que a pessoa precisa de atenção e o cuidado de profissionais de saúde.

Matéria publicada em novembro de 2014, na Revista Família Cristã e ainda atual, muito atual.


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