Carter: Kátia Abreu recebe 25 vezes mais dinheiro do Governo do que o MST

De Paulo Henrique Amorim *
Em dezembro de 2009, Miguel Carter concluiu o trabalho de organizar o livro ‘Combatendo a Desigualdade Social – O MST e a Reforma Agrária no Brasil.’. É um lançamento da Editora UNESP, que reúne colaborações de especialistas sobre a questão agrária e o papel do MST pela luta pela Reforma Agrária no Brasil.Esta semana, ele conversou com Paulo Henrique Amorim, por telefone.

PHA – Professor Miguel, o senhor é professor de onde?

MC – Eu sou professor da American University, em Washington D.C.

PHA – Há quanto tempo o senhor estuda o problema agrário no Brasil e o MST?

MC- Quase duas décadas já. Comecei com as primeiras pesquisas no ano de 91.

PHA – Eu gostaria de tocar agora em alguns pontos específicos da sua introdução “Desigualdade Social Democracia no Brasil”. O senhor descreve, por exemplo, a manifestação de 2 de maio de 2005, em que, por 16 dias, 12 mil membros do MST cruzaram o serrado para chegar a Brasília. O senhor diz que, provavelmente, esse é um dos maiores eventos de larga escala do tipo marcha na história contemporânea. Que comparações o senhor faria?MC – Não achei outra marcha na história contemporânea mundial que fosse desse tamanho. A gente tem exemplo de outras mobilizações importantes, em outros momentos, mas não se comparam na duração e no numero de pessoas a essa marcha de 12 mil pessoas. Houve depois, como eu relatei no rodapé, uma mobilização ainda maior na Índia, também de camponeses sem terra. Mas a de 2005 era a maior marcha.

PHA – O senhor compara esse evento, que foi no dia 2 de maio de 2005, com outro do dia 4 de junho de 2005 -apenas 18 dias após a marcha do MST- com uma solenidade extremamente importante aqui em São Paulo que contou com Governador Geraldo Alckmin, sua esposa, Dona Lu Alckmin, e nada mais nada menos do que um possível candidato do PSDB a Presidência da República, José Serra, que naquela altura era prefeito de São Paulo. Também esteve presente Antônio Carlos Magalhães, então influente senador da Bahia. Trata-se da inauguração da Daslu. Por que o senhor resolver confrontar um assunto com o outro?

MC – Porque eu achei que começar o livro com simples estatísticas de desigualdades sociais seria um começo muito frio. Eu acho que um assunto como esse precisa de uma introdução que também suscite emoções de fato e (chame a atenção para) a complexidade do fenômeno da desigualdade no Brasil. A coincidência de essa marcha ter acontecido quase ao mesmo tempo em que se inaugurava a maior loja de artigos de luxo do planeta refletia uma imagem, um contraste muito forte dessa realidade gravíssima da desigualdade social no Brasil. E mostra nos detalhes como as coisas aconteciam, como os políticos se posicionavam de um lado e de outro, como é que a grande imprensa retratava os fenômenos de um lado e de outro.

PHA – O senhor sabe muito bem que a grande imprensa brasileira -que no nosso site nós chamamos esse pessoal de PiG (Partido da Imprensa Golpista)- a propósito da grande marcha do MST, a imprensa ficou muito preocupada como foi financiada a marcha. O senhor sabe que agora está em curso uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista, que reúne o Senado e a Câmara, para discutir, entre outras coisas, a fonte de financiamento do MST. Como o senhor trata essa questão? De onde vem o dinheiro do MST?

MC – Tem um capítulo 9 de minha autoria feito em conjunto com o Horácio Marques de Carvalho que tem um segmento que trata de mostrar o amplo leque de apoio que o MST tem, inclusive e apoio financeiro.

PHA – O capítulo se chama “Luta na terra, o MST e os assentamentos” – é esse?

MC – Exatamente. Há uma parte onde eu considero sete recursos internos que o MST desenvolveu para fortalecer sua atuação, nesse processo de fazer a luta na terra, de fortalecer as suas comunidades, seus assentamentos. E aí estão alguns detalhes, alguns números interessantes. Porque eu apresento dados do volume de recursos que são repassados para entidades parceiras por parte do Governo Federal. Eu sublinho no rodapé dessa mesma página o fato de que as principais entidades ruralistas do Brasil têm recebido 25 vezes mais subsídios do Governo Federal (do que o MST). E o curioso de tudo isso é que só fiscalizado como pobre recebe recurso público. Mas, sobre os ricos, que recebem um volume de recursos 25 vezes maior que o dos pobres, (sobre isso) ninguém faz nenhuma pergunta, ninguém fiscaliza nada. Parece que ninguém tem interesse nisso. E aí o Governo Federal subsidia advogados, secretárias, férias, todo tipo de atividade dos ruralistas. Então chama a atenção que propriedade agrária no Brasil, ainda que modernizada e renovada, continua ter laços fortes com o poder e recebe grande fatia de recursos públicos. Isso são dados do próprio Ministério da Agricultura, mencionados também nesse capítulo. Ainda no Governo Lula, a agricultura empresarial recebeu sete vezes mais recursos públicos do que a agricultura familiar. Sendo que a agricultura familiar emprega 80% ou mais dos trabalhadores rurais.

PHA – Qual é a responsabilidade da agricultura familiar na produção de alimentos na economia brasileira?

MC – Na página 69 há muitos dados a esse respeito.

PHA- Aqui: a mandioca, 92% saem da agricultura familiar. Carne de frango e ovos, 88%. Banana, 85%. Feijão, 78%. Batata, 77%. Leite, 71%. E café, 70%. É o que diz o senhor na página 69 sobre o papel da agricultura familiar. Agora, o senhor falava de financiamentos públicos. Confederação Nacional da Agricultura, presidida pela senadora Kátia Abreu, que talvez seja candidata a vice-presidente de José Serra, a Confederação Nacional da Agricultura recebe do Governo Federal mais dinheiro do que o MST?

MC – Muito mais. Essas entidades ruralistas em conjunto, a CNA, a SRB, aquela entidade das grandes cooperativas, em conjunto elas recebem 25 vezes do valor que recebem as entidades parceiras do MST. Esses dados, pelo menos no período 1995 e 2005, fizeram parte do relatório da primeira CPI do MST. O relatório foi preparado pelo deputado João Alfredo, do Ceará.

PHA – O senhor acredita que o MST conseguirá realizar uma reforma agrária efetiva? A sua introdução mostra que a reforma agrária no Brasil é a mais atrasada de todos os países que fazem ou fizeram reforma agrária. Que o Brasil é o lanterninha da reforma agrária. Eu pergunto: por que o MST não consegue empreender um ritmo mais eficaz?

MC – Em primeiro lugar, a reforma agrária é feita pelo Estado. O que os movimentos sociais como o MST e os setenta e tantos outros que existem em todo o Brasil fazem é pressionar o Estado para que o Estado cumpra o determinado na Constituição. É a cláusula que favorece a reforma agrária. O MST não é responsável por fazer. É responsável por pressionar o Governo. Acontece que nesse país de tamanha desigualdade, a história da desigualdade está fundamentalmente ligada à questão agrária. Claro que, no século 20, o Brasil, se modernizou, virou muito mais complexo, surgiu todo um setor industrial, um setor financeiro, um comercial. E a (economia) agrária já não é mais aquela, com tanta presença no Brasil. Mas, ainda sim, ficou muito forte pelo fato de o desenvolvimento capitalista moderno no campo, nas últimas décadas, ligar a propriedade agrária ao setor financeiro do país. É o que prova, por exemplo, de um banqueiro (condenado há dez anos por subornar um agente federal – PHA) como o Dantas acabar tendo enormes fazendas no estado do Pará e em outras regiões do Brasil. Houve então uma imbricação muito forte entre a elite agrária e a elite financeira. E agora nessa última década ela se acentuou num terceiro ponto em termos de poder econômico que são os transacionais, o agronegócio. Cargill, a Syngenta… Antes, o que sustentava a elite agrária era uma forte aliança patrimonialista com o Estado. Agora, essa aliança se sustenta em com setor transacional e o setor financeiro.

PHA – Um dos sustos que o MST provoca na sociedade brasileira, sobretudo a partir da imprensa, que eu chamo de PiG, é que o MST pode ser uma organização revolucionária – revolucionária no sentido da Revolução Russa de 1917 ou da Revolução Cubana de 1959. Até empregam aqui no Brasil, como economista Xico Graziano, que hoje é secretário de José Serra, que num artigo que o senhor fala em “terrorismo agrário”. E ali Graziano compara o MST ao Primeiro Comando da Capital. O Primeiro Comando da Capital, o PCC, que, como se sabe ocupou por dois dias a cidade de São Paulo, numa rebelião histórica. Eu pergunto: o MST é uma instituição revolucionária?

MC – No sentido de fazer uma revolução russa, cubana, isso uma grande fantasia. E uma fantasia às vezes alardeada com maldade, porque eu duvido que uma pessoa como o Xico Graziano, que já andou bastante pelo campo no Brasil, não saiba melhor. Ele sabe melhor. Mas eu acho que (o papel do) MST é (promover) uma redistribuição da propriedade. E não só isso, (distribuição) de recursos públicos, que sempre privilegiou os setores mais ricos e poderosos do país. Há, às vezes, malícia mesmo de certos jornalistas, do Xico Graziano, Zander Navarro, dizendo que o MST está fazendo uma tomada do Palácio da Alvorada. Eles nunca pisaram em um acampamento antes. Então, tem muito intelectual que critica sem saber nada. O importante desse (“Combatendo a desigualdade social”) é que todos os autores têm longos anos de experiência (na questão agrária). A grande maioria tem 20, 30 anos de experiência e todos eles têm vivência em acampamento e assentamentos. Então conhecem a realidade por perto e na pele. O Zander Navarro, por exemplo, se alguma vez acompanhou de perto o MST, foi há mais de 15 anos. Tem que ter acompanhamento porque o MST é de fato um movimento.

PHA – Ou seja, na sua opinião há uma hipertrofia do que seja o MST ? Há um exagero exatamente para criar uma situação política?

MC – Exatamente. Eu acho que há interesse por detrás desse exagero. O exagero às vezes é inocente por gente que não sabe do assunto. Mas, às vezes, é malicioso e procura com isso criar um clima de opinião para reprimir, criminalizar o MST ou cortar qualquer verba que possa ir para o setor mais pobre da sociedade brasileira. Há muito preconceito de classe por trás (desse exagero).

[*Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista].

* Jornalista. Conversa Afiada – Máximas e Mínimas 1254 http://www.paulohenriqueamorim.com.br

Vinte anos depois do Plano Collor, ex-presidente pede desculpas à população pelo bloqueio do dinheiro

Entrevista a Cezar Motta e Adriano Faria

Agência Senado

“Peço desculpas, as mais sentidas e as mais humildes, aos brasileiros que passaram por constrangimentos, traumas, medos, incertezas e dramas pessoais com o bloqueio do dinheiro. Lamento que tenha acontecido. Hoje, não faria de novo”. Assim o senador Fernando Collor (PTB-AL) se manifesta hoje sobre o empréstimo compulsório que deixou apenas 50 mil cruzados novos (equivalente a R$ 6 mil) nas contas correntes, cadernetas de poupança e demais investimentos em 16 de março de 1990, dia posterior à posse do primeiro presidente eleito após o regime militar.

– Mas a minha agenda macroeconômica prevalece até hoje, quebrou tabus como a abertura da economia, a Lei da Informática, as reservas de mercado, as privatizações, o não-calote da dívida externa. Tudo isso era parte do plano de estabilização, mas hoje só falam no bloqueio do dinheiro – lamenta Collor.

O hoje senador, que renunciou à Presidência da República em dezembro de 1992, na reta final do processo de impeachment, garante que sua queda foi “orquestrada pelo grande empresariado”, que não aceitou a perda de privilégios, reservas de mercado e não absorveu a competição com produtos estrangeiros decorrente da abertura de mercado.

– Minha queda começou na Avenida Paulista, ainda em 1990, pouco tempo depois da posse – disse Collor, que tem pronto um livro em que conta detalhes de todo o período, com conversas e conspirações, mas que não sabe ainda quando será lançado. Fernando Collor concedeu a seguinte entrevista à Agência Senado e à Rádio Senado:

Em que momento da campanha o senhor sentiu que a vitória era mais do que provável e, a partir daí, começou a montar uma equipe, escolher cada um, elaborar o Plano Brasil Novo, com uma inflação já de 84% ao mês?

Desde a campanha, sabíamos que os problemas na economia que iríamos enfrentar eram de uma magnitude nunca vista no Brasil do século passado. Por isso, pensamos em um plano que aproveitasse os erros e acertos do Plano Cruzado, para ter chances de êxito. Quando a candidatura começou a ganhar musculatura, a ter resposta nas ruas e nas pesquisas e o segundo turno parecia certo, iniciamos então a preparação do programa de governo, que teve a coordenação da economista Zélia Cardoso de Mello.

E como o senhor chegou ao nome da Zélia? Já a conhecia?

Sim, eu a conheci quando eu era governador de Alagoas e ela, assessora do então ministro da Fazenda Dílson Funaro, que a designou para acompanhar o meu governo, o ajuste fiscal e as reformas que fazíamos para equilibrar as contas do estado. Quando o ministro Funaro deixou o governo, a doutora Zélia continuou a trabalhar conosco, eu a contratei, ela formou uma equipe e nos prestou assessoria. Quando, já candidato a presidente, comecei a elaborar meu programa de governo, eu a convidei para coordenar o trabalho.

O senhor já tinha idéia, durante a campanha, do que iria fazer depois de eleito?

Sem dúvida. As contas públicas estavam absolutamente deterioradas, tudo estava indexado em uma ciranda realimentadora da inflação absurda, a dívida externa era insuportável, as reservas em moeda estrangeira estavam zeradas. Mas o pior de tudo era a inflação que impedia qualquer planejamento, tanto de governo quanto da vida das pessoas comuns. Era o pior dos impostos, o elemento mais cruel e concentrador de renda de uma economia, que castiga justamente os mais pobres, que não podem se defender. Esse era o problema mais imediato. Mas a agenda que implantamos permanece até hoje, e permitiu o sucesso do Plano Real dois anos depois. Era tabu, era proibido no país falar em abertura da economia, no fim das reservas de mercado como o da informática.

Diziam que abrir o mercado de informática permitiria que o capital internacional tivesse acesso à nossa inteligência, aos nossos segredos, ao nosso conhecimento.Diziam que a dívida externa não deveria ser paga, porque era ilegítima, fora contraída de forma irregular. Diziam que o Brasil deveria romper com o FMI. Tanto que o nosso programa, em entrevistas e debates, era o oposto dos outros candidatos. Nós já falávamos em estado menos pesado e mais eficiente, em abertura da economia. Os outros candidatos defendiam um estado que resolvesse todos os problemas do país; diziam que a abertura da economia iria quebrar a indústria brasileira, construída para substituir importações. Diziam que a indústria automobilística não poderia competir com os carros importados, iria fechar e provocar desemprego.

O único ponto em comum que todos tínhamos, e era um consenso na sociedade inteira, era a urgência de vencer a inflação. O resto eram falsos dilemas, que foram desmoralizados e não são levados mais a sério, o que demonstra que, há 20 anos, nossa visão estava correta. Infelizmente, não coube a mim estabilizar a economia, mas as bases, a semente do Plano Real foram lançadas com a nossa agenda macroeconômica.

E como se chegou à idéia de bloquear o dinheiro, os ativos financeiros, e como o senhor recebeu a idéia?

Todo presidente aprende com o antecessor, tanto com os erros quanto com os acertos. No Plano Cruzado, vimos que o congelamento de preços foi feito em um momento de liquidez, não excessiva, mas real. E quem tinha dinheiro na ciranda financeira, no overnight, até mesmo quem vivia de salário, correu às compras, para aproveitar os preços congelados. Quem pensava em comprar geladeira, máquina de lavar e televisão nova, em trocar de carro, em consumir mais, correu às lojas. E a indústria, naquele momento, não estava preparada para repor estoques, para atender à demanda. Veio o desabastecimento, as prateleiras ficaram vazias, as pessoas tinham o dinheiro mas não tinham o que comprar. A inflação voltou então forte, uma inflação de demanda.

Quando tomamos posse, havia ainda mais liquidez, o dinheiro aplicado na ciranda financeira se havia decuplicado, o quadro de dinheiro em circulação era incontrolável, e a moeda valia cada vez menos.Vimos então que um dos pressupostos básicos para estancar o processo, era um novo congelamento de preços. Mas não podíamos fazê-lo com todo aquele dinheiro disponível em bancos, em aplicações financeiras.

E aí veio a idéia do bloqueio do dinheiro…

No início, pensamos apenas em bloquear por tempo determinado os títulos ao portador, os títulos da dívida pública, do Tesouro. Mas o mercado, essa coisa intangível, sabe se defender muito bem. Quando então falamos em acabar a inflação com um tiro só, perceberam logo que vinha congelamento. E pensaram: vão congelar, mas não podem incorrer no mesmo erro do Plano Cruzado. Então, o bloqueio do dinheiro será muito mais amplo. E todos começaram a migrar dos investimentos para as contas correntes e para caderneta de poupança, houve até enormes saques em dinheiro. E nós, às vésperas da posse, estávamos monitorando todo esse movimento.

Ainda na campanha, o senhor garantiu que a poupança seria preservada.

Eu nunca afirmei isso. Ao contrário, em um dos debates eu disse que o meu adversário é que iria confiscar as poupanças, justamente para evitar que a pergunta me fosse feita. O fato é que, quando todos da minha equipe viram que as contas correntes e a poupança receberam enormes aportes, concluímos que não bastava bloquear os títulos, não seria suficiente. E posso garantir que todos os candidatos tinham a mesma intenção. O PT, o PMDB. Tanto é verdade que, dois dias depois, economistas e políticos do PT paulista, alguns ex-colegas da ministra Zélia na Universidade de São Paulo (USP), a procuraram e disseram: “Era este exatamente o programa que queríamos aplicar. Só que, no nosso caso, o governo cairia no dia seguinte”. Então, todos trabalhavam com essa saída. A grande surpresa foi o volume dos ativos, ninguém esperava tanto. Mas nós precisávamos de um tempo para respirar e dar os passos seguintes, como renegociar a dívida externa; restabelecer a confiança dos credores internacionais, abalada com a moratória de 1987; reiniciar as linhas de crédito; acenar com o programa liberal, mas com preocupações sociais.

E como foi a reação do empresariado brasileiro com a abertura da economia?

A minha queda começou na Avenida Paulista, com a insatisfação dos que perderam suas reservas de mercado, seus privilégios. Mas a indústria brasileira deu um grande salto de produtividade e qualidade depois da abertura da economia. Criamos as câmaras setoriais para analisar cada setor, o que poderia ser feito para lhes garantir competitividade, como enfrentar a competição internacional. Depois da abertura, nossos carros melhoraram, nossos computadores deram um salto de qualidade – a gente tinha uma coisa impensável que chamavam de computador, mas que era três ou quatro gerações atrasada em relação ao que se encontrava em qualquer shopping norte-americano.

Não tínhamos celular, fizemos uma campanha sem qualquer memória em relação a eleições anteriores, coordenar uma logística nacional era uma coisa absurdamente difícil. Hoje, temos celulares, computadores de última geração, ninguém mais pensa em reservas de mercado, ninguém mais tem medo de privatizações, a dívida externa está equacionada, e o início foi ali, no meu governo. Meu negociador da dívida externa foi o embaixador Jório Dauster, que fez um extraordinário trabalho e reabriu as portas para o Brasil.

Voltando a falar do bloqueio de ativos: como se chegou ao valor de 50 mil cruzados novos? Há muita especulação, e chegou-se até a falar em sorteio com papeizinhos, que teria sido na base do improviso…

Decidimos com base na caderneta de poupança. Porque não queríamos atingir o pequeno poupador, o típico aplicador em caderneta, que vive de salário, pensão ou aposentadoria. Tiramos uma média e vimos que 50 mil cruzados novos (NR: o equivalente, na época, a US$ 1.300) era a média dos aplicadores em caderneta de poupança. No entanto, houve uma corrida para a poupança de grandes aplicadores.Hoje, quando se fala no Plano Brasil Novo, fala-se no bloqueio, fala-se em confisco, esquecendo-se de todo o conjunto do plano, e de que o dinheiro foi devolvido 18 meses depois, em 18 parcelas, com juros de 6%, acima do que pagava a poupança.Ao contrário de outros empréstimos compulsórios, como o das viagens ao exterior, no governo Geisel, e o da gasolina, nos anos 80, de que ninguém nunca mais teve notícia, não recebeu o dinheiro de volta e nem sabe quanto perdeu.

E por que deu errado? O impacto do bloqueio do dinheiro teria sido tão grande que levou a população a ficar contra o governo e o plano?

Não, a população não sabotou. Ao contrário, uma pesquisa logo depois do plano mostrou que tínhamos 67% de aprovação. Erramos em uma série de pequenas coisas, que se tornaram grandes. Por exemplo, na administração da liberação do dinheiro no que chamávamos de “torneiras”. Todo dia nos deparávamos com uma surpresa. Nossas reservas cambiais eram atacadas no mercado, e nós precisávamos delas. Muitas frentes estavam abertas, mas a grande resistência veio da Avenida Paulista, como disse, dos grandes industriais e empresários brasileiros, que não gostaram de perder suas reservas de mercado. Em nenhum momento tivemos problemas com sindicatos de trabalhadores ou partidos de oposição, embora o PT já fosse uma oposição forte e ativa.

Quem sabotou foram os que queriam manter privilégios, aumentar preços e tarifas, a burocracia, os que se envolviam com a Cacex (Câmara de Comércio Exterior do Banco do Brasil, que estabelecia tarifas de importação e exportação). Enfim, era a mesma gente que me apoiou no segundo turno, que defendia a medidas que adotei. Mas logo percebi que defendiam as medidas em relação ao vizinho, mas não aceitavam que fossem adotadas em relação a eles próprios. Tanto que, quando o então presidente da CUT, Jair Meneguelli, foi ao Palácio falar sobre greves e movimentos contra o plano, eu lhe disse: “Não se preocupe, porque vocês, os trabalhadores, não desestabilizam o governo, mesmo com greves. Quem está realmente causando problemas são os seus patrões, os industriais”.

E a perda do apoio congressual, principalmente no Senado?

Só mesmo depois de 1991, quando tomou posse um novo Congresso. Tanto que, em 1990, todas as medidas foram aprovadas no Congresso Nacional e até pelo Judiciário. A perda de apoio no Senado só aconteceu um ano depois, porque eu peguei na posse o Congresso anterior, do cruzado, foi uma eleição solteira para presidente da República. No ano seguinte, em 1990, aí sim, veio a eleição para o Congresso e, em 1991, tomou posse um Congresso Nacional que se defrontou com o desgaste do governo, renovou-se a Câmara dos Deputados e dois terços das cadeiras do Senado. E veio uma oposição forte, ainda sob os efeitos do segundo turno da eleição presidencial e do desgaste do governo com o plano econômico.

O bloqueio do dinheiro provocou dramas pessoais, mexeu com a vida de milhões debrasileiros, havia viúvas que viviam dos rendimentos da poupança, foi traumático. Como o senhor vê hoje de uma perspectiva histórica tudo isso?

Eu peço desculpas, as mais humildes e sentidas desculpas, a todas as pessoas e todas as famílias que sofreram constrangimentos, medos, inseguranças, contrariedades, viveram dramas pessoais, e tenho a dizer que lamento muito que isso tenha acontecido. Acho que, mais tarde, todos devem ter percebido que não tomei aquela medida por gosto, mas porque eu queria salvar o país e a população do flagelo da inflação, esse imposto draconiano que corroia salários. Eu lamento que tenha acontecido, foi um sacrifício muito maior do que eu teria imaginado.

O senhor disse que, na época, era tecnicamente inevitável, e que qualquer que fosse o eleito, faria o mesmo. De novo, com a distância histórica de hoje, faria o mesmo?

Não, é a única coisa que eu não faria de novo. Há instrumentos hoje que permitiriam medidas mais brandas. Se a situação se repetisse, seguramente eu não tomaria a mesma medida, não faria o bloqueio, encontraria fórmula mais criativa, menos traumática.

A gente vê hoje a foto da equipe econômica anunciando o plano econômico, todos muito jovens. Faltou maturidade à equipe, houve erros?

Sem dúvida, faltou maturidade, havia muito voluntarismo, o que leva a erros. Aquele ministério era o do idealismo. Éramos todos jovens, sonhadores, com vontade de fazer o melhor para o país, com vontade de realizar o que sonhávamos nas ruas, quando estudantes, em passeatas, em movimentos, nas universidades, combater o que criticávamos. E essa juventude leva ao voluntarismo, que por sua vez leva a decisões temerárias, a correr riscos. Mas sem essa juventude, não teríamos a coragem de fazer o que fizemos, e que era preciso fazer. O governador Leonel Brizola, gentilmente, em sua posse, disse que “estão tentando derrubar o Collor muito mais por suas qualidades do que por seus defeitos”.

Vinte anos depois, o que o senhor pode contar daquele período, daquela crise, que não pôde contar então?

Tudo isso está contado em um livro que repousa docemente em dois disquetes, ainda nem pus em CD.Um livro que comecei a escrever logo depois da minha queda. Eu sei o que vocês querem que eu conte agora, mas não posso fazê-lo. Eventualmente, quando há alguma provocação, alguma informação errada, eu conto o que realmente houve. Recentemente, por exemplo, o Delfim Netto disse que não foi consultado na época do plano por ninguém da equipe. Realmente, ninguém da equipe o procurou, mas ele esteve comigo. Ele desmente e diz que, convenientemente, escolho só testemunhas já mortas. Mas há as esposas que estavam presentes. Este encontro foi na casa do ex-deputado Amaral Neto, e a d. Ângela, mulher dele, estava lá, um final de tarde, com o então deputado Ricardo Fiúza e o senador Roberto Campos. Eu os consultei sobre a situação da economia, e todos foram unânimes: com essa liquidez, nenhum plano anti-inflação dará certo. Disseram que seria decisiva a escolha do presidente do Banco Central. Era preciso um nome capaz, que o mercado respeitasse. Eu mencionei alguns nomes, e quando citei Ibrahim Eris, Delfim vibrou: “extraordinário nome, extraordinário nome, perfeito!”. Já Roberto Campos não gostou: “Esse não pode, Delfim, é um fiscalista, seria um erro”.

E depois da posse e do plano apresentado?

Logo depois, o Delfim foi ao Planalto, lépido e fagueiro, com aquele cabelo sempre bem penteado, bem barbeado, sorridente, e disse: “genial presidente, genial!! Nem eu com o AI-5 teria condições de fazer isso. Parabéns!” Hoje ele nega o encontro. Mas houve, e dou mais um detalhe da conversa. Ele me perguntou: “Mas esse dinheiro não vai ser devolvido, não é?” E eu respondi: “Sim, vai ser devolvido e com juros”. Ele riu e duvidou: “Ah, mas isso eu quero estar vivo pra assistir”.Pois o dinheiro foi devolvido e Deus permitiu a ele estar vivo para testemunhar. Ele desmente o encontro, mas explicou que apenas propôs o pagamento em títulos. Ou seja, sem querer, confirmou.

E quando o livro com as histórias dos bastidores da época será lançado?

Não sei ainda. Tenho contado alguns dos episódios aos poucos, à medida que a necessidade se apresenta. Aqui mesmo no Senado contei o episódio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo que, uma vez, pediu uma audiência a um ministro do Supremo Tribunal Federal a pretexto de uma entrevista e lhe propôs: ministro, condene o Collor que eu lhe garanto tantas páginas da Veja, além da capa, com o título “O homem que condenou o caçador de marajás”, alguma coisa assim. Isso não é coisa que um jornalista faça. E o ministro do Supremo está vivo…

Não sei quando vou lançar o livro, mas é prematuro. Uma vez, em 1993, procurei meu querido amigo Thales Ramalho, então ministro do TCU, homem de grande experiência e sabedoria, infelizmente já falecido, e lhe mostrei o texto. Ele lia e balançava a cabeça… Lia e balançava a cabeça, em negação.Até que me disse: “Presidente, isto é um livro de memórias, coisa que só pode ser lançada por quem, como eu, está na ante-sala da morte. O senhor é jovem, mais cedo ou mais tarde vai retomar sua vida política, não pode fazer isso agora. A maioria dessas pessoas está viva, tem filhos, família, netos, não seria bom.”E eu respondi, mas o senhor sabe que tudo o que está aí é verdade, não é?E ele respondeu que sim, e me contou uma passagem, que conto no livro, em que ele foi convidado em 1990 para um jantar com um líder de um setor empresarial de São Paulo. Eu tinha tomado posse havia pouco tempo.O empresário, então, sentou-se à mesa com convidados e disse: vamos então retomar o assunto que iniciamos na semana passada. O doutor Thales perguntou: “Que assunto?” E o empresário: “A queda do Collor, temos que afastá-lo da Presidência”. O doutor Thales disse então: “Vocês estão loucos? Acabamos de eleger um presidente da República depois de vinte anos, o país não agüenta mais golpes, vocês querem mergulhar em outra aventura?” Eles, então, esfriaram ali a conversa. Thales disse que nem me contou depois porque achou aquilo um verdadeiro delírio.Mas a minha queda começou a ser tramada na Avenida Paulista ainda em 1990.

Houve mesmo um acordo para que o então senador Fernando Henrique Cardoso assumisse o Itamaraty em 1991?

Sim, sim, fechamos o acordo com o presidente do PSDB, o então deputado Franco Montoro, o partido nos apoiaria no Congresso, o Fernando Henrique seria chanceler e o José Serra seria o ministro da Fazenda. Viajei com tudo acertado, e quando voltei soube que o senador Mário Covas havia vetado tudo, anulado o acordo. Soube ainda de outra tentativa de golpe quando formei uma comissão, coordenada pelo ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, para trabalhar a opinião pública em favor do parlamentarismo, no plebiscito de 1993. Por campanha educativa, mostraríamos que o nosso presidencialismo era arcaico, imperfeito, disfuncional. Passarinho, que era presidencialista, me procurou um dia e disse: “presidente, uma comissão de parlamentares está preparando tudo para, uma vez vitorioso no plebiscito, o parlamentarismo seja implantado imediatamente, ainda no seu mandato”.

Seminário sobre a Liberdade de Expressão e Direito à Informação acontece em São Paulo

Nesta quinta-feira, 25 de março, acontece no Memorial da América Latina, em São Paulo, a 2° sessão do Seminário Liberdade de Expressão / Direito à Informação nas sociedades contemporâneas da América Latina. Coordenado pela profª Cremilda Medina, da ECA-USP, o seminário foi programado no âmbito da Cátedra Unesco Memorial da América Latina e se articula com evento complementar, que se dará no mesmo local no mês de abril, sob o tema “Liberdade de Imprensa e Democracia na América Latina”, que será coordenado  jornalistas Eugênio Bucci e Carlos Eduardo Lins e Silva.  Pela manhã discutiu-se a trajetória brasileira recente na questão da liberdade de imprensa, sob o tema geral “Da censura às atuais regulações da informação de atualidade”. A conferência de Cremilda Medina tem o tema “Autoria e assinatura coletiva na comunicação social. O projeto de formação universitária”. A coordenação da mesa é do professor Pedro Ortiz. À tarde, às 14h30, o jornalista José Maria Mayrink fala sobre “Censura e Democracia, o caso Estado de S. Paulo”; às 16h, é a vez de Alberto Dines discorrer sobre “Da censura à imprensa ao lobby da mídia. Um percurso latino-americano”; por fiz, será a vez da conferência de Eugênio Bucci, sob o tema “Mídia privada, mídia pública e intervenções do Estado brasileiro”. Na quarta-feira Demétrio Magnoli abriu o seminário com uma “Retrospectiva, atualidade e projeção do Direito à Informação na América Latina”.  Cientista social, geógrafo e jornalista, Magnoli fez um “Panorama nas sociedades latino-americanas – da vocalização da Nova Ordem da Informação à doutrina contemporânea do terror mediático”. Ele começou listando os casos recentes em Cuba e Irã, onde o bloqueio oficial à imprensa livre tem sido vazado pelos novos meios de comunicação – “reportagens” feitas por gravadores digitais e celulares que gravam som e imagem  foram enviadas por pessoas comuns por meio das várias ferramentas da internet, como redes sociais, twitter e blogs. Magnoli sublinhou a diferença com os anos 70, quando 80% da informação internacional era difundida pelas agências americanas APE e UPI e as européias France Press e Reuter. Outros 15% do bolo de notícias internacionais que circulavam no mundo vinham das agências EFE e ANSA, também européias. Somente 5% eram, digamos, “independente”. Apesar dessa melhora, a liberdade de imprensa enfrenta sérias ameaças na América Latina, segundo Demétrio Magnoli. “O princípio da liberdade de imprensa passou hoje a ser rejeitada explicitamente pela esquerda”. Será então que defender a liberdade de imprensa é uma postura de direita, pergunta Magnoli. Para ele, a ditadura totalitária, como a de Cuba, por exemplo, diferentemente da “ditadura normal”, censura a liberdade em nome do futuro, pois postula uma razão de princípio e não de circunstância. Assim é que o fascismo censurava para o bem da nação italiana, o nazismo em nome da raça pura e o comunismo em defesa do proletariado mundial.

Com informações Memorial da América Latina

Ei! Sorria…

Mas não se esconda atrás desse sorriso…Mostre aquilo que você é, sem medo. Existem pessoas que sonham com o seu sorriso, assim como eu. Viva! Tente! A vida não passa de uma tentativa. Ei! Ame acima de tudo, ame a tudo e a todos. Não feche os olhos para a sujeira do mundo, não ignore a fome! Esqueça a bomba, mas antes, faça algo para combatê-la, mesmo que se sinta incapaz. Procure o que há de bom em tudo e em todos.
Não faça dos defeitos uma distancia, e sim, uma aproximação.
Aceite! A vida, as pessoas, faça delas a sua razão de viver. Entenda! Entenda as pessoas que pensam diferente de você, não as reprove. Ei! Olhe… Olhe a sua volta, quantos amigos… Você já tornou alguém feliz hoje?
Ou fez alguém sofrer com o seu egoísmo? Ei! Não corra. Para que tanta pressa? Corra apenas para dentro de você. Sonhe! Mas não prejudique ninguém e não transforme seu sonho em fuga. Acredite! Espere! Sempre haverá uma saída, sempre brilhará uma estrela. Chore! Lute! Faça aquilo que gosta, sinta o que há dentro de você. Ei! Ouça… Escute o que as outras pessoas têm a dizer, é importante. Suba… faça dos obstáculos degraus para aquilo que você acha supremo, Mas não esqueça daqueles que não conseguem subir a escada da vida. Ei! Descubra! Descubra aquilo que há de bom dentro de você. Procure acima de tudo ser gente, eu também vou tentar. Ei! Você… não vá embora. Eu preciso dizer-lhe que… te adoro, simplesmente porque você existe.

Charles Chaplin

Cansada de “porrada”, Soninha diz que está infeliz

De Monica Aquino, do R7

Subprefeita da Lapa não imaginava que cargo seria “uma bomba” tão grande

Soninha Francine, subprefefeita da Lapa, voltou a dividir opiniões quando decidiu posar seminua na revista Playboy deste mês e num calendário de uma ONG que defende a bicicleta como meio de transporte. O R7 procurou a subprefeita para tentar descobrir algumas faces dessa mulher que não tem medo de dizer o que pensa e admite que está infeliz.- Fui candidata à prefeita, vereadora, trabalhei na MTV, na ESPN, escrevo na Folha de S.Paulo, sou amiga do Serra, saio pelada na revista. Que era uma bomba [assumir a Subprefeitura da Lapa], eu imaginava, mas não que ia me deixar tão infeliz. O resultado é absolutamente insatisfatório para mim. Não consigo ficar feliz com o resultado.

Em uma longa conversa, Soninha não se esquiva de nenhuma pergunta, fala de tudo. De como resolveu ser política, da decepção com o PT, da amizade com o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), de como não está satisfeita com o resultado do trabalho à frente da Subprefeitura da Lapa, e do que faz para “desestressar”.

Entrada na vida política

A vontade veio de pequena, da época do colégio. Pensava: “eu quero ser política”, mas depois desisti. A gente nem votava em prefeito ainda. Era a época do senador biônico. Depois, quando o Jânio Quadros foi prefeito, eu me interessava muito, fazia boca de urna, já simpatizava totalmente com o PT, já me considerava do partido. Quando decidi [entrar na política], meu marido na época quase morreu. Porque a gente sempre teve uma paixão por mato, por vida rústica. Ele era budista antes de mim, então a gente pensava em mudar para perto de um templo, eu dar aula e ele cuidar da terra. Quando eu falei que queria me candidatar, isso significava ficar muito longe da vida natural, rústica e campestre. Ele temia, era um pesadelo dele se confirmando.

Relação com o PT

Aos 14 anos, falei “gostei do PT, é mais radical do que o PMDB”. Nos dois partidos você tinha gente que vinha do combate à ditadura. Eu achava que o PT era mais radical e isso me agradava. Não foi que eu escolhi o PT, eu era PT. Em 2004, me indispus com o partido desde o começo da candidatura. Porque o partido queria me ajudar, mas de várias maneiras que eu não concordava. […] Aí a Marta perdeu a eleição e veio uma nova rodada de incômodos. O fim do governo dela, a transição, foi muito ruim, caótica. Enquanto isso, o mundo caindo em Brasília [por causa do escândalo do mensalão]. Mas Brasília, para mim, não era tão determinante. Me incomodava muito mais a situação que eu vivia todo dia, toda semana em reunião de bancada. Foram dois anos, desde que me elegi até a hora que eu decidi sair, de conflitos meus com o partido.

Entrada no PPS

Quando desencantei do PT, não queria ir para outro partido. PV e PCdoB falaram comigo. Antes de me procurar, o PPS me defendeu em algumas das minhas brigas na Câmara. Eles me convidaram, eu falei que não queria ir nunca mais para partido nenhum, que não queria ser candidata. Eles falavam, “se você não quer vir para o PPS, não venha, mas seja candidata pelo PT, é importante você continuar vereadora”. Pela primeira vez me disseram “nosso partido também precisa melhorar”. Depois de um tempo, me procuraram de novo, dizendo que o Roberto Freire [líder do partido] estava em São Paulo e queria almoçar comigo. Enfim, a conversa andou. Estamos [PPS, PSDB e DEM, partidos que fazem oposição ao governo Lula] do mesmo lado do meridiano. Mas [nós do PPS] não somos PSDB, não somos DEM. Não iria jamais para nenhum dos dois partidos. Tenho um milhão de críticas ao PSDB, mas não tenho problema de estar ao lado deles em oposição ao Lula.

Aproximação com o Serra

Sendo totalmente PT e petista… Bom, nem todo mundo no PT é assim, mas eu era. Eu odiava o Serra… Fui mestre de cerimônia de um prêmio do Instituto Sérgio Motta e no fim da cerimônia estava no coquetel, cheio de tucanos. Ele passou por mim, sozinho, eu também estava sozinha, e falou “eu leio você”. Até eu entender as três palavras… O que significou para mim? Nossa, aquele cara arrogante, metido, veio falar comigo assim, super numa boa… Mas não reverteu a imagem que eu tinha. Cada vez [nos encontramos] menos. A gente tinha um contato super próximo no tempo da Prefeitura. Da Prefeitura até a Câmara são cinco minutos a pé. A gente conversava no fim de expediente. Agora é difícil, fisicamente também… Não dá para ir tomar um café no Palácio dos Bandeirantes, não tem a menor condição. Mas a gente continua amigo, sim.

Governo Kassab

No fim do ano [de 2008, após a vitória de Kassab] diziam que eu seria secretária da Cultura, mas nunca teve o menor sinal disso. O Kassab me ligou dizendo que queria tomar um café. Fui lá, por volta do dia 23 de dezembro, e ele falou que queria me convidar para ser subprefeita. Ele achava que eu tinha mostrado preparo na campanha, queria que eu fosse da Lapa porque a Luiza Eluf ia sair, voltar para o Ministério Público. Achei bem legal o modo como ele falou, dizendo que eu ia ser capaz, que iria aprender sobre a Prefeitura. Em janeiro respondi dizendo que queria, que seria difícil, mas que gosto de coisas difíceis. Ele falou que eu poderia montar a minha equipe a meu critério. Ele sabia perfeitamente que era o único jeito de trabalhar comigo.

Trabalho na Subprefeitura

Sou muito infeliz. Só não sou mais infeliz do que era na Câmara. Porque a gente tem toda a responsabilidade do mundo, responde por todas as coisas, por tudo o que acontece na sua região, e tem pouquíssimo poder. Você acorda todo dia para tomar porrada, o dia inteiro, abrir o computador, porrada. Na imprensa, no Conseg, no blog, no Twitter, todo dia, o dia inteiro, porrada. Já não estaria feliz de qualquer jeito, e ainda me xingam… É horrível. E, sou eu, fui candidata a prefeita, vereadora, trabalhei na MTV, na ESPN, escrevo na Folha de S. Paulo, sou amiga do Serra, saio pelada na revista. Que era uma bomba, eu imaginava, mas não que ia me deixar tão infeliz. O resultado é absolutamente insatisfatório para mim. Não consigo ficar feliz com o resultado.

Válvula de escape

Jogo Paciência Spider no iPhone. [risos] Faço meditação, mas tenho sido uma péssima meditadora, não consigo. Na meditação, penso mais em problema. Acabou a bateria, preciso ligar na tomada, fazer um retiro. Gordinho vai para um spa. Preciso fazer isso porque só a meditação não tá dando. Faço meditação de manhã e à noite. Em dez minutos, passo oito tentando voltar para a meditação. Também não consigo ir ao centro budista. Mas, de verdade, a última coisa que faço antes de dormir é jogar Paciência Spider e Sodoku. Tiro meus neurônios e eles vão todos ali, para qual número falta no quadradinho…

Edição: Karla Maria

Palestina e Israel são temas de debate na Metodista

A Faculdade de Teologia da Metodista – Universidade Metodista de São Paulo, promoverá um bate papo sobre as iniciativas para a promoção da Paz entre a Palestina e Israel. Como parte do Programa de Extensão da universidade, o debate contará com dois representantes desses esforços. Michel Nseir, membro da Igreja Ortodoxa Antioquina e Manuel Quintero Pérez, membro da Igreja Presbiteriana Reformada, ambos representantes do Conselho Mundial de Igrejas, CMI.

O CMI busca, por meio desses programas, uma solução pacífica para esses países levem em conta os direitos humanitários internacionais. O Conselho, além de apoiar ações não-violentas, abre espaço para que seus participantes acompanhem e relatem casos de violações de direitos humanos, como também podem apoiar atos de resistências não-violentas.

O evento acontecerá dia 23 de março, no Edifício Ômega do Campus Rudge Ramos (Rua Planalto, 125, São Bernardo do Campo – SP), em dois horários: às 9h30 e às 19h30. Para mais informações: 4366-5970

Kátia Abreu, provável vice de Serra

De Bertold, CMI
A rainha dos grileiros pode tornar-se futura candidata a vice na chapa de José Serra, esta possibilidade é bastante concreta já que o DEM, o principal aliado dos tucanos, depois de perder Arruda para Polícia Federal, não abre mão de ter um candidato(a) de ponta ao lado do PSDB. Como todos sabem, Serra não manda mais em sua candidatura resta saber se ele vai esboçar alguma resistência perante esta imposição do DEM.

KÁTIA ABREU:  Senadora (DEM-TO),  Suplente na CPMI

* Formada em psicologia.
* Presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), eleita em 2008 para três anos de mandato. Foi presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (1995-2005).
* Dona de duas fazendas improdutivas que concentram 2.500 hectares de terras.
* Apresentou 23 projetos no Senado e apenas três foram aprovados, mas considerados sem relevância para o país, como a garantia de visita dos avós aos netos.
* Torrou 60% das verbas do seu gabinete com propaganda (R$ 155.307,37).
* É alvo de ação civil do Ministério Público na Justiça de Tocantins por descumprir o Código Florestal, desrespeitar povos indígenas e violar a Constituição.
* Integrante de quadrilha que tomou 105 mil hectares de 80 famílias de camponeses no município de Campos Lindos (TO). Ela e o irmão receberam 2,4 mil hectares com o golpe contra camponeses, em que pagaram menos de R$ 8 por hectare.
* Documentos internos da CNA apontam que a entidade bancou ilegalmente despesas da sua campanha ao Senado. A CNA pagou R$ 650 mil à agência de publicidade da campanha de Kátia Abreu.

Mulheres, os números não mentem, a desigualdade permanece

Na Constituição brasileira, especificamente no Artigo 113, inciso 1, lemos: “todos são iguais perante a lei”. Aos olhos de Deus e penso que no coração Dele, todos nós, mulheres e homens, somos seus filhos e filhas sem distinção alguma. Sabemos, contudo, que tanto a Bíblia, quanto a carta magna deste país, sempre e por muito tempo foram interpretadas quase que exclusivamente por homens, pertencentes a uma sociedade patriarcal, culturalmente machista, que nega às mulheres muitos direitos concedidos aos homens.

Olhe para o lado e observe a sua mãe. Existiria o mundo sem a força desta mulher, sem o útero gerador da vida? A ela, foi depositada a responsabilidade e a graça de gerar, e mais, de assumir ao lado do homem, seu papel cidadã garantindo o bem estar a si e às futuras gerações. Agora, que cidadã é essa, que conta na maioria das vezes, com deveres, sem que seus direitos essenciais sejam reconhecidos? A cidadania plena consiste em direitos e deveres.

Em pleno século XXI, as mulheres ainda não são tratadas de forma igual aos homens. Falácia? Vamos aos números. Dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgados nesta manhã (08/03), informam que o rendimento médio do trabalhador de gênero masculino é de R$ 1.070,07, já as trabalhadoras possuem renda média de R$ 700,88, tendo em vista, que as mulheres estudam mais. São 7,6 anos de estudo para as mulheres e 7,2 anos de estudo para homens

Os números ainda apontam que 34,9% das famílias no Brasil são chefiadas por mulheres, que tem conseguido, graças à implementação de políticas públicas de fortalecimento de sua identidade, entrarem no mercado de trabalho. Mas isso não lhes tira a responsabilidade “natural”, pelo trabalho doméstico. Elas dedicam 23,9 horas por semana, às tarefas do lar, enquanto eles, destinam somente 9,7 horas por semana. 42,1% das mulheres empregadas no Brasil, trabalham em condições precárias, os homens são 26,2%. A taxa de desocupação segue com 5,2% para os homens e 9,6% para as mulheres.

No Brasil há 6,2 milhões de trabalhadoras domésticas, ou seja, 15,8% da população feminina, que possuem em média, renda mensal de R$ 350,77, cifra inferior ao salário mínimo. No campo, 28,5% das mulheres trabalhadoras não possuem rendimentos. Trabalho escravo? Exploração? Estes são dados econômicos e refletem diretamente na identidade e valorização da mulher brasileira, que luta contra a interpretação parcial de seu papel na sociedade, e ao lado do homem, quer acabar com esse impasse da humanidade pós-moderna: enfrentar a problemática da relação de gêneros definindo o lugar do homem e da mulher.

O lugar do homem deve ser ao lado da mulher, e o lugar da mulher deve ser ao lado do homem, ambos como cidadãos, que buscam seus direitos sem discriminação de raça e gênero.

Definir a importância e o papel da mulher na sociedade pós-moderna é como definir a mulher: simples e complexa. Requer um olhar. Olhe para o lado, veja a mãe que amamenta o filho, veja a menina que enfeita os cabelos, observe as senadoras, prefeitas, vereadoras, deputadas, governadoras, presidentas que enfrentam o machismo dos ternos e o pragmatismo das leis por eles criadas. Veja as enfermeiras, médicas, cabeleireiras, arquitetas, engenheiras, floristas, artesãs, biólogas, professoras, advogadas, jornalistas, são tantas as mulheres, tantos os sorrisos e formas de resistência.

Olhe para a cozinheira, para a lavadeira, para aquela que lava o seu chão, suas roupas, sua louça, para aquela que leva a Comunhão, o Pão, a Palavra, o amor, para aquela que te ama. As mulheres negras, missionárias, religiosas, indígenas, migrantes, campesinas, sem teto, sem terra, olhe para as pobres e excluídas, as não convencionais deste sistema, as gordas, as magras, as ruivas e morenas, as que sustentam seus cachos, e quebram os quadris na da

nça do dia-a-dia. São tantas as mulheres, a resposta está em cada uma delas. No silêncio e no grito, no riso e na lágrima.

Que no seio da Mãe Terra, brote a igualdade, fora a discriminação e o preconceito, que nós mulheres, saibamos reescrever a história da civilização, por um prisma mais humano, gerador de vida, verdade e paz.

Diploma, emprego…emprego, diploma?

No Amazonas e em Belo Horizonte, os órgãos públicos contratam apenas jornalistas diplomados na área. No Rio Grande do Sul, a Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa aprovou o Projeto de Lei (239/2009), de autoria do deputado Sandro Boka (PMDB), que exige graduação específica para a atuação como jornalista em cargos públicos no estado. O projeto recebeu parecer favorável do deputado Fabiano Pereira e deverá ser votado em Assembleia na próxima semana. Projetos semelhantes tramitam em outras cidades e estados do país.

Mulheres: Mais educadas do que eles, mas não mais iguais

Jaime C. Patias | Articulação de Mulheres durante o 9° FSM, Belém - PA

De Mario Osava*

A escolaridade feminina avançou em todo o mundo, e em muitos países as meninas e as moças estudam mais e melhor do que os homens há décadas. Mas isso está longe de se traduzir em equidade no trabalho, na política e nas relações sociais. No Brasil, por exemplo, 53,3% dos que entraram na universidade em 2007 eram mulheres. Essa proporção quase sempre foi superior a 55% nos últimos 15 anos. E a participação aumenta em mais de cinco pontos percentuais entre os que concluem cada curso, o que confirma que elas são melhores estudantes.

As mulheres são maioria em todos os níveis de ensino e sua escolaridade supera em mais de um ano a masculina. Porém, seus salários são 30% inferiores aos dos homens na mesma função, e elas ocupam apenas 56 das 594 cadeiras do Congresso Nacional. Nas Filipinas, onde há muito as mulheres alfabetizadas são mais do que os homens, 17,8% delas se graduam na universidade, contra 8,2% dos homens, segundo a Comissão Nacional sobre o Papel da Mulher.

Mas as filipinas se concentram em carreiras como educação e saúde, e ficam fora das de engenharia e direito, áreas dominadas em mais de 80% por homens. Também na África do Sul elas são maioria nas universidades, embora não em carreiras de tradição masculina, como engenharia. E tampouco ocupam posteriormente muitos cargos de direção.

No Chile, as mulheres também superam os homens em educação, segundo o governamental Índice de Iniquidade Territorial de Gênero 2009, que considera o analfabetismo, anos de escolaridade e cobertura do ensino básico e médio. Porém, as chilenas perdem em participação trabalhista, com 42%, e seu nível salarial é 30% inferior ao de seus colegas homens.

“A educação sozinha não faz milagres”, pois mudar valores é mais complexo e “enquanto não houver creches para todas as famílias, não haverá mudanças estruturais na participação feminina no mercado de trabalho”, disse Fulvia Rosemberg, pesquisadora da brasileira Fundação Carlos Chagas, ao lançar um olhar sobre a desigualdade de oportunidades entre os gêneros. O Brasil vale como exemplo. Apenas 18% dos meninos de zero a três anos frequentam creches, disse ao TerraViva. Além disso, em geral as escolas recebem as crianças por apenas meio período, impondo tripla jornada de trabalho às mulheres, privando-as de “condições comparáveis” às dos homens, afirmou a também professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

A isso se soma o mesmo ensino. O currículo, os livros e a forma de educar reproduzem preconceitos que desvalorizam o papel feminino, o confinam no lar, a trabalhos e carreiras pouco valorizadas, acrescentou. Na universidade, a maioria das mulheres escolhe as ciências humanas e os homens as áreas de exatas e tecnológicas. A escolaridade feminina progrediu rapidamente, mas as mudanças culturais são lentas e as institucionais ainda mais, disse Moema Viezzer, socióloga fundadora da Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e do Caribe, cuja campanha por uma educação não sexista acontece, há 29 anos, todo dia 21 de junho.

Foram necessárias décadas de luta do movimento antes da admissão de mulheres no governo e no Supremo Tribunal brasileiro. A VI Conferência Mundial sobre a Mulher, de 1995, em Pequim, representou “um salto quantitativo”, ao impulsionar políticas públicas, com o Estado assumindo programas antes limitados a organizações não governamentais, disse Viezzer. Desde ontem e até o dia 12 deste mês acontece, na sede da Organização das Nações Unidas em Nova York, a conferência da Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher, para avaliar o cumprimento dos compromissos assumidos há 15 anos. O acesso das mulheres a todos os níveis educacionais foi uma das 12 prioridades da Plataforma de Ação de Pequim.

Além de um ensino com enfoque de gênero adequado, são necessárias muitas ações afirmativas e uma educação popular para a igualdade de gênero, defendeu Viezzer. A melhor escolaridade feminina se impõe onde conta o esforço pessoal e a capacidade, mas não quando entram em jogo relações, negociações, a promoção por recomendação de chefes, disse Schuma Schumacher, coordenadora da não governamental Rede de Desenvolvimento Humano do Brasil.

Um quadro pior na África

No plano mundial, a porcentagem de meninas sem instrução caiu de 58% para 54% entre 1999 e 2007, segundo o Informe de Acompanhamento da Educação para Todos no Mundo 2010. Isto é, o acesso feminino no ensino primário continua abaixo do masculino. Na África subsaariana havia 89 meninas para cada cem meninos na escola primária em 2006, segundo o Informe dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A situação é pior no ensino secundário, onde as adolescentes caem para 80 para cada cem. No conjunto do ensino, elas constituem 55% das excluídas.

A realidade subsaariana, de muita pobreza, fome, guerras e epidemia de síndrome da deficiência imunológica adquirida (aids), trava a escolaridade e fomenta a deserção escolar, especialmente de meninas, disse a sul-africana Muleya Mwananyanda, coordenadora da Semana de Ação da Campanha Mundial pela Educação. Estima-se que 12 milhões de meninas nunca irão à escola, contra sete milhões de meninos. As atitudes estão mudando lentamente nessa parte do mundo. Ainda se vê “com suspeita a educação feminina, sobretudo nas comunidades onde o modelo patriarcal corre risco de se desbaratar”, disse Mwananyanda.

Mas há razões para otimismo, se considerarmos o efeito multiplicador. “Uma mulher me disse assim ‘educar uma menina é educar uma aldeia inteira’, pois as mulheres instruídas enviarão suas filhas para a escola”, afirmou. Dezessete dos 41 países subsaarianos estudados no informe da Educação para Todos alcançaram a igualdade de meninas e meninos na escola primária.

Exceções

Essa região africana vai contra a corrente da tendência mundial. Na América Latina e no Caribe havia 107 meninas para cem meninos na escola secundária em 2006, enquanto na Ásia oriental e no sudeste asiático a proporção era de 101 e 102 para cem, respectivamente, superando inclusive a paridade das regiões do Norte industrial. Entretanto, no segundo maior país latino-americano, o México, perderam força as políticas educacionais com perspectiva de gênero, impulsionadas a partir de Pequim.

Um avanço em matrícula e presença escolar produziu uma “equiparação de matrícula entre homens e mulheres” e atenção para os temas de educação profissional, pós-graduação e eliminação de estereótipos, disse ao TerraViva Clara Jusidman, presidente da não governamental Iniciativa Cidadã e Desenvolvimento Social. Entretanto, desde 2000, quando chegou ao poder o conservador Partido Ação Nacional, primeiro com Vicente Fox e desde 2006 com Felipe Calderón, a educação retomou os antigos valores e estereótipos nos papeis dos homens e das mulheres.

Ainda em pleno século XXI, “há Estados mexicanos governados por conservadores que não permitem livros com texto contendo informação sobre educação sexual e direitos reprodutivos”, disse Jusidman.

Educação machista dada por mulheres

Em todo o mundo as educadoras são maioria. Mas isso não evita que o ensino tenha um caráter sexista, pró-masculino e discriminador difícil de corrigir, segundo as mulheres organizadas. O machismo sobressai nos livros didáticos, onde personagens femininas, minoritárias e secundárias, aparecem mais no contexto familiar, em trabalhos domésticos, como seres passivos e servis, contrastando com os masculinos ativos, autônomos e criativos.

As autoridades educacionais das Filipinas ofereceram treinamento em gênero para autores e editores de livros escolares, quando um Comitê das Nações Unidas condenou, em 1997, os estereótipos em textos e materiais de instrução que reforçam a imagem de subordinação feminina. Mas essas iniciativas ficaram na fase-piloto, e faltam políticas para integrar a igualdade de gênero aos programas educacionais desde o jardim da infância, disse a professora Aurora de Deus, diretora do Instituto de Mulheres e Gênero, de Manila.

“O lugar da mulher é a cozinha” soa muito antigo, mas é um preconceito que persiste na sociedade como um dos fatores que faz “o mundo do poder e do domínio ser quase essencialmente masculino”, disse a brasileira Vera Vieira, da Rede Mulher de Educação. São visões reafirmadas pelos livros infantis.

No Chile, os textos escolares têm enfoque de gênero desde 2008. “Houve uma intervenção na linguagem, tornando visíveis ‘meninas’ e ‘meninos’, e as imagens, evitando figuras estereotipadas como mulheres fazendo trabalho doméstico”, e assim resgatando a contribuição feminina para o desenvolvimento do país, explicou Juana Aguirre, responsável de gênero do Ministério da Educação. A reforma curricular de 2009 incorporou a dimensão de gênero em cinco áreas, como matemática e linguagem, além de estratégias para corrigir o “currículo oculto” nas relações entre educadores e alunos, acrescentou.

No Brasil, o Ministério da Educação adotou, em 1996, uma avaliação dos mais de cem milhões de livros didáticos que compra e distribui anualmente nas escolas, vedando os que expressam “preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou qualquer outra forma de discriminação”. Fulvia Rosemberg, da Fundação Carlos Chagas, duvida dos critérios aplicados por avaliadores especializados em suas disciplinas, mas não em “sexismo e racismo discursivo”. Além do mais, o Ministério condena “preconceitos”, não “estereótipos”.

O ensino discriminador não impede, porém, que as meninas e mulheres tenham melhor desempenho do que os homens, colocando em xeque as análises sobre os efeitos do sexismo nos livros, acrescentou.

* Com as colaborações de Nastasya Tay (Johannesburgo), Kara Santos (Manila), Emilio Godoy (México) e Daniela Estrada (Santiago).

Fonte: IPS/Envolverde