20° Seminário das CEBs fortalece caminhada em busca de justiça

Tenda montada em Perus. foto Karla Maria

Constituir um grupo de estudo sobre a implantação de pedágios no estado de São Paulo e solidariezar-se com as comunidades indígenas que estão localizadas no Jaraguá, zona noroeste da cidade. Estes foram os compromissos assumidos pelos 260 delegados que participaram, nos dias 24 e 25, do 20° Seminário Estadual das Comunidades Eclesias de Base (CEBs).

O encontro foi realizado sob uma tenda, no pátio da Paróquia São José Operário, em Perus, bairro marcado pela ausência de políticas públicas no que tange ao cuidado com o meio ambiente e pela violência urbana, tema também abordado no Seminário pela ex-prefeita e atual deputada federal pelo PSB, Luiza Erundina, que fez uma análise da realidade urbana, sob a ótica da justiça.

Cemitério de Perus. foto de Karla Maria

As lideranças das CEBs contaram também com as assessoriais do cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer e o bispo da Região Episcopal Brasilândia, dom Milton Kenan Júnior, ambos trabalharam respectivamente, a missão das CEBs na cidade e sua identidade. Durante sua assessoria, dom Odilo afirmou que a missão na dimensão da justiça, acontece a partir do conhecimento da realidade, de seu contexto de injustiça. “O profeta denuncia e anuncia a própria existência das CEBs é um sinal profético”, afirmou o arcebispo, apontando que as CEBs devem anunciar o Evangelho e praticar a caridade no conjunto do serviço pastoral.

A organização do Seminário destinou parte da programação para um contato com a realidade local, os participantes foram destinados “às missões”. Nas Paróquias Cristo Rei e Nossa Senhora das Graças, os delegados conheceram o histórico de lutas dos movimentos sociais da região, onde destaca-se o trabalho da Pastoral Carcerária, de reinserção do egresso e a luta contra a instalação de pedágios na região da Rodovia Anhanguera. Na Paróquia Santa Rosa de Lima, cerca de 40 pessoas, foram levadas até o Cemitério Municipal Dom Bosco, construído na ditadura militar para o sepultamento clandestino de corpos desaparecidos políticos. Conheceram a Vala Comum, onde foram enterrados 1049, dos quais apenas sete foram identificados.

Na Paróquia Santo Agostinho, os delegados conheceram as manifestações realizadas contra a instalação de “lixões” na região. Em 2003, os moradores fecharam a Rodovia Anhaguera e impediram a instalação do mesmo em Perus. Aqueles que foram acolhidos pela Paróquia São José Operário conheceram o Histórico de lutas dos Queixadas, quando na década de 60 trabalhadores da fábrica de cimento de Perus, os queixadas, foram reconhecidos internacionalmente pela luta não violenta contra as injustiças cometidas pelo mau patrão.

Para o cônego Antonio Manzatto, teólogo da PUC e também assessor no Seminário “ser comunidade é estar em comunhão, em relações completas de vivência, que se faz com a preocupação a partir dos pobres”. A mística do modo de ser Igreja acontece em torno da Palavra e do Pão, e foi deste modo que encerrou-se o encontro estadual, dom Milton Kenan Júnior, presidiu missa sob a tenda e concelebrou junto aos padres das diversas cidades de São Paulo.

A Profecia das CEBs nas Cidades e no Brasil

Dom MIlton Kenan Jr. foto de Karla Maria

“As CEBs no passado foram um tanto estigmatizadas pelo seu compromisso social e também por sua participação política, mas isso é um elemento constitutivo, já no Sínodo de 1971, sobre a justiça no mundo, os bispos diziam que o envolvimento com a causa da justiça, era um elemento constitutivo de ser Igreja, penso que as CEBs vivem um momento de maturidade, que foi incorporando o seu compromisso com a justiça, a sua preocupação de participar politicamente do destino da nação, mas incorporou a isso uma mística, a uma abertura e docilidade à Palavra de Deus”, revelou o bispo da Região Brasilândia.

Durante o encerramento do Seminário, que culminou com a presença de quase 600 pessoas, entre as famílias que acolheram os delegados, equipes de trabalho (40 pessoas) e demais membros das comunidades de Perus, Célia Aparecida Leme destacou “Encontramos muitas pessoas que há muito tempo não víamos, acolhemos pessoas em nossas casas e nossas comunidades, fizemos amigos, descobrimos que lá e aqui a vida teima em vencer, partilhamos sonhos, trocamos contatos”, afirmou Célia Leme que junto a João Sérgio, Leonardo Cândido, padre José Aécio e demais membros da Comissão de CEBs da Brasilândia, realizaram um primoroso Seminário, arraigado de fé e política.

Padre José Renato Ferreira, assessor arquidiocesano das CEBs afirmou que o Seminário foi realizado em Mutirão, e após a missa agradeceu nominalmente a todos que colaboraram e acolheram a atividade. “Agradecemos à Arquidiocese de São Paulo pelo apoio incondicional, no aspecto financeiro, quanto de estrutura e à Região Brasilândia que acolheu com alegria este Seminário”. O assessor estadual da CEBs, padre Felix Manoel dos Santos avalia o 20° Seminário realizado em Perus “Vimos neste Seminário que há muitas injustiças a anunciar, e este é o momento de viver a profecia e anunciar o Evangelho”, finalizou.

Os Documentos de Aparecida e da CNBB, respectivamente 169 e 92 incentivam que as paróquias se organizem em comunidades e valorizam o modo de ser Igreja das CEBs, acabando com o preconceito e estigma atribuídos a elas nas últimas décadas, dada a falta de conhecimento histórico da Igreja no Brasil.

As CEBs do Brasil caminham para o 13° Intereclesial, na diocese de Crato, no Vale do Cariri (CE), em 2013, mas as CEBs do Regional Sul 1 já estão de olho no 14°. “Estamos sonhando e pensando desde já em trazer o 14° para São Paulo”.

de Karla Maria, publicado no Jornal O São Paulo

5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo começa nesta quinta-feira em São Paulo

Promovido pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), o 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é um dos maiores encontros brasileiros entre os profissionais da área. É uma grande oportunidade para troca de informações e experiências entre países diferentes, além de ser um espaço de formação para os estudantes, que somam quase 60% do total de inscritos. O jornalista Fernando Rodrigues, presidente da associação, acredita que a grande participação de estudantes demonstra o interesse pelo ensino de técnicas e de boas histórias contadas no Congresso.

Nos corredores, é possível encontrar as principais personalidades do jornalismo no Brasil e exterior. Profissionais que construíram suas carreiras por meio da investigação séria e aprofundada e inovaram ao incorporar as novas mídias na rotina de apuração. Segundo Rodrigues, os palestrantes foram escolhidos pela excelência do trabalho que desenvolvem. Destaca a participação de Aron Pilhofer, do New York Times, que tem trabalhado utilizando uma técnica ainda pouco difundida no meio jornalístico, o data-driven journalism, um banco de dados virtual com múltiplas opções de consulta.

Com 500 inscrições pela internet, a Abraji espera aproximadamente 600 participantes nos três dias do evento. É o maior número de inscritos desde a primeira edição do congresso, em 2005. Serão mais de 100 palestrantes, do Brasil, Reino Unidos, dos Estados Unidos, Espanha, México, Paraguai e Argentina, Quênia, que ministrarão 54 palestras e 18 cursos. Do Brasil virão jornalistas de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Ceará, Brasília e Amazonas.

Um trabalho que exigiu pelo menos um ano de planejamento e organização. A parceria e o apoio de instituições possibilitou que a Abraji – uma organização sem fins lucrativos – trouxesse estes palestrantes. Além da co-realizadora Universidade Anhembi- Morumbi, que disponibilizará seu campus, o congresso conta com o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism e da Unesco e o patrocínio de Claro e Tetrapak.

Além de convidar os palestrantes e organizar os horários e as mesas, a Abraji preparou a infra-estrutura para receber os participantes. O site disponibilizou hotéis com preços variados e próximos ao local do congresso, na Vila Olímpia. “A Abraji tem como objetivo melhorar a prática do jornalismo no Brasil, sendo o treinamento sua principal forma de atuação”, comenta Guilherme Alpendre, jornalista que atua na organização do evento. Ele acredita que hoje, o Congresso internacional de jornalismo investigativo seja o mais importante encontro de jornalistas feito para jornalistas do Brasil, e uma oportunidade rara para profissionais se aprimorarem dentro de sua área e trocarem experiências com jornalistas de outros veículos.

Fonte: Abraji

Futebol é arte e religião

Fé
Brasil 1 X Holanda 2

De Frei Betto *


Sou um analfubola. Ou seja, nada entendo de futebol. Todas as vezes que me perguntam para qual time torço, fico tão constrangido como mineiro que não gosta de queijo.

Torci, na infância, pelo Fluminense, do Rio, e o América, de Belo Horizonte. Influência materna. Mais tarde, fui atleticano por um detalhe geográfico: minha avó morava defronte do estádio, na avenida Olegário Maciel, na capital mineira. E só. Sem contar a emoção de ter estado no Maracanã na noite de 14 de novembro de 1963 para assistir, misturado a 132 mil torcedores, aquele que é, por muitos, considerado o jogo dos jogos, a disputa entre Santos e Milan pelo Mundial Interclubes!

Hoje, me dou ao luxo de assistir, pela TV, às decisões de campeonato. Escolho para quem torcer. E não perco Copa do Mundo. Jogo do Brasil é missa obrigatória.

Eu disse missa? Sim, sem exagero. Porque, no Brasil, futebol é religião. E jogo, liturgia. O torcedor tem fé no seu time. Ainda que o time seja o lanterninha, o torcedor acredita piamente que dias melhores virão. Por isso, honra a camisa, vai ao estádio, mistura-se à multidão, grita, xinga, aplaude, chora de tristeza ou alegria, qual devoto que deposita todas as suas esperanças no santo de sua invocação.O futebol nasceu na Inglaterra e virou arte no Brasil. Na verdade, virou balé. Aqui, tão importante quanto o gol são os dribles. Eles comprovam que nossos craques têm samba no pé e senso matemático na intuição. Observe a precisão de um passe de bola! No gramado, imenso palco ao ar livre, se desenha uma bela e estranha coreografia. Faça a experiência: desligue o som da TV e contemple os movimentos dos jogadores quando trombam. É uma sinfonia de corpos alados. Fosse eu cineasta, editaria as cenas mais expressivas em câmara lenta e as adequaria a uma trilha sonora, de preferência valsa, ritmando o flutuar dos corpos sobre o verde do gramado.

O Brasil conta com 190 milhões de técnicos de futebol. Todos dão palpite. E ninguém se envergonha de fazê-lo, como se cada um de nós tivesse, nessa matéria, autoridade intrínseca. Pode-se discordar da opinião alheia. Ninguém, no entanto, ousa ridicularizá-la.

Pena que a violência esteja contaminando as torcidas. Outrora, elas anabolizavam, com sua vibração, o desempenho dos jogadores. Agora, disputam no grito a prevalência sobre as torcidas adversárias. E se perdem no jogo, insistem em ganhar no braço. A continuar assim, em breve o campo será ocupado, não pelo time, e sim, como uma grande arena, pelas torcidas. Voltaremos ao tempo dos gladiadores, agora em versão coletiva.

Quando ouço a estridência de vuvuzelas, como um enxame de abelhas a nos picar os tímpanos, penso que os torcedores já não prestam atenção ao jogo. Querem transferir o espetáculo do gramado para as arquibancadas. O ruído da torcida passa a ser mais importante que o desempenho dos jogadores.

Nossa autoestima como nação se apoia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido; e nossa maior invenção – o avião – é questionada pelos usamericanos. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol. Se a história dos países europeus do século XX se delimita por duas guerras mundiais, a nossa é demarcada pelas Copas. E nossos heróis mais populares eram ou são exímios jogadores de futebol. A ponto de o mais completo, Pelé, merecer o titulo de rei.

A Copa é um acontecimento tão importante para o Brasil que, no dia do jogo da nossa seleção, se faz feriado. Se vencemos, a nação entra em euforia. Se perdemos, somos tomados por uma triste estupefação. Como se todos se perguntassem: como é possível o melhor não ter vencido?

Gilberto Freyre bem percebeu que na arte futebolística brasileira mesclam-se Dionísio e Apolo: a emoção e a dança dos dribles são dionisíacos; a força da disputa e a razão das técnicas, apolíneos.

Criança, eu escutava futebol no rádio. Quanta emoção! Completava-se a imaginação com a descrição do narrador. Hoje, não há locutores na transmissão televisiva, apenas comentaristas. São lerdos, narram o óbvio e, palpiteiros, com frequência esquecem o que se passa no campo e ficam a tecer considerações sobre o jogo com seus assistentes.

“Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma”, poetou Carlos Drummond de Andrade. Com toda razão.

* Escritor e assessor de movimentos sociais