Campanha ‘Natal dos Sonhos’ chama à solidariedade

Fotos: Luciney Martins

Arrecadação de brinquedos continua até dia 15, nas paróquias de SP

De um lado bola, boneca, carrinho, peteca; do outro, abraços, beijos estalados, mãos estendidas, um olhar carinhoso, um agradecimento sincero. Os gestos foram recolhidos por toda a cidade, durante a Campanha “Natal dos Sonhos”, promovida pela Pastoral do Menor neste 2011.

No último sábado, 26, aconteceu o ‘dia da grande arrecadação”. Com o tema “A solidariedade Transforma o Mundo! Doe um Brinquedo”, o Teatro Grande Otelo, no Colégio Liceu Coração de Jesus, no centro, acolheu mais de 800 pessoas, em sua grande maioria crianças e adolescentes, para celebrar a solidariedade em prol das crianças mais carentes.

“As crianças precisam, desde cedo, se preocupar com o próximo, com o mais pobre, é uma questão de cidadania”, disse o estudante Gustavo Eustáquio de Paula, 17 anos. Para a professora Terezinha Fátima Tomazi, 52 anos, a campanha estimula a solidariedade nas famílias, transformando-se em gesto concreto, como a doação de brinquedos. E foram muitos brinquedos; em 2010, foram arrecadados cerca de 350 mil, e neste ano, a pastoral imagina bater esse número até o dia 15, quando se encerram as doações, nas diversas paróquias da Arquidiocese de São Paulo e nas dioceses de Campo Limpo e Santo Amaro.

O dia da grande arrecadação foi animado, contou com corais, shows e celebração, tudo com tradução simultânea em libras, estava concreto o gesto da inclusão. As crianças e adolescentes dos colégios e entidades católicas, atendidas pela Pastoral do Menor, de todas as cores e classes sociais, se divertiram, brincaram, cantaram e rezaram para que as crianças sejam respeitadas e tenham direito à educação, cultura e lazer.
“Com a campanha, tivemos a oportunidade de denunciar o desejo, a fantasia que há por de tras do brinquedo, mas que infelizmente é inatingível para muitas crianças que sonham durante toda a sua infância, com um Natal dos Sonhos”, disse Sueli Camargo, coordenadora da Pastoral do Menor e da campanha.

O grande dia de arrecadação despertou o lado lúdico da criançada com a apresentação de danças e corais, chamaram também atenção para o verdadeiro sentido do Natal, com a encenação do nascimento do Menino Jesus, entoado por uma Ave Maria, na voz de Renata Pizi. Quando o ‘Menino Jesus’ apareceu no colo de Maria, as cabecinhas se esticaram para enxergá-lo, os pés perderam o chão e as mãos o aplaudiram. Nessa história, que se repete por dois milênios, os reis magos são outros: dezenas de crianças apresentaram presentes, enquanto outras crianças do coral do Colégio Santa Marcelina cantavam Noite Feliz, culminando com o Glória.

Para dom Milton Kenan Junior, bispo na Região Episcopal Brasilândia e referencial para as Pastorais Sociais, Natal é mistério de amor que deve se traduzir em gestos. “Esta campanha é a possibilidade de nossas crianças entrarem na lógica de Deus, que não pode se limitar apenas às boas intenções, ao sentimentalismo vazio, mas que tem que se demonstrar em gesto”.

E os gestos de solidariedade acontecem há 10 anos; desde então, além de incentivar a doação de brinquedos, a campanha vem educando para uma cultura de paz e solidariedade. “Neste período, a Campanha possibilitou destacar a importância do respeito com as fases de desenvolvimento da criança. Conscientizou, mobilizou a sociedade, denunciou o direito de brincar, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente que está sendo roubado das nossas crianças, que são obrigadas a irem para as ruas, para os faróis como pedintes com a obrigação do sustento da família”, disse Sueli.

Publicado em O SÃO PAULO

A construção da identidade negra

Em entrevista exclusiva ao Ká entre Nós, Edilson Marques da Silva Miranda, professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), autor de livros sobre a construção da identidade negra, fala da participação da mídia e da literatura na formação da autoimagem do povo negro. Destaca também o preconceito velado na sociedade brasileira.

Ká entre Nós: Por que ainda hoje, século 21, setores da sociedade brasileira permanecem (ainda que menos) classificando homens e mulheres negras como cidadãos de 2°categoria, ligados à pobreza e marginalidade? O senhor observa isso? Qual a origem dessa percepҫão?
Edilsom Marques: Sim. Infelizmente, esta continua sendo uma realidade em nosso meio. A população negra continua sendo vista como inferior. Varias literaturas ao longo do tempo tem reforçado esta ideia, de que os homens e mulheres negros são inferiores dentro da sociedade. A escravidão das pessoas oriundas do continente africano se deu com base na argumentação desta inferioridade. Mesmo após a abolição da escravatura no Brasil, ocorrida a pouco mais de 100 anos, não houve a desmistificação desta ideia. No processo de construção do Brasil, a presença africana foi fundamental, mas esta contribuição tem sido negada sistematicamente. A ideia que fica patente em nossa sociedade, é que as pessoas negras tem o seu lugar previamente delimitado dentro da sociedade, sempre aliado a pobreza, marginalidade e a ignorância.

Ká entre Nós: O senhor considera que a mídia seja também responsável pela manutenção dessa percepҫão? De que modo?
Edilsom Marques
: A mídia tem um papel fundamental para perpetuar a idéia de inferioridade da população negra. Nas novelas brasileiras, sempre tem reserva espaço para os atores e atrizes afro descendentes nos papeis de escravos e atividades subalternas. Em 1975 na novela Pecado Capital escrita pela Janete Clair, trouxe pela primeira vez um psiquiatra negro, interpretado pelo ator Milton Gonçalves. Nesta história, havia apenas um único personagem negro, totalmente desprovido de vínculos familiares. Vinte anos depois, em 1995, na novela “A Próxima Vítima”, escrita por Silvio de Abreu, pela primeira vez numa novela brasileira, é apresentado um família negra de classe média.

O pai era o ator Antonio Pitanga, a mãe a atriz Zezé Motta e uns dos filhos era o falecido ator Norton Nascimento.   Quase 10 anos depois, em 2004, a novela “Da Cor do Pecado”, escrita por João Emanuel Carneiro, traz como protagonista uma atriz negra, Tais Araujo. Ela desempenha um  clássico papel, onde a mulher negra sedutora  desestabiliza as relações e o casamento do casal branco.  As telenovelas, ultimamente, tem se preocupado em fazer o chamado “merchandising social”, onde defendem uma bandeira social.  Se empenham em mostrar o problemas e enfatizar as soluções. Já foi enfocado a questão da violência contra mulher, alcoolismo, doação de medula óssea, deficiências físicas e visuais, pedofilia, cleptomania, homossexualismo, gravidez psicológica, analfabetismo entre outros. Infelizmente, ainda não entrou na lista de prioridades da teledramaturgia brasileira o tema do racismo, mostrando o problema e dando ênfase nas soluções.

Ká entre Nós: Como em sua avaliação, a mídia afeta a imagem do afrodescendente no Brasil, e sua auto estima?
Edilsom Marques:  A mídia cria uma imagem de normalidade do país, dando uma idéia de quem é o brasileiro comum. Conforme o estereótipo reforçado pela mídia brasileira, os afro descendentes não fazem parte do perfil do brasileiro comum. É muito comum, uma criança negra se sentir um alienígena, porque ela não se vê representada em nenhum espaço na sociedade.

Nos livros didáticos tem total ausência de pessoas negras, e quando aparece, está ligada a escravidão e situações subalternas. Nas telenovelas ainda há pouca presença de personagens negros. É muito importante para os mais jovens se espelharem nas figuras de destaque dentro de uma sociedade, para que possam traçar seus objetivos e sentirem segurança nos espaços sociais que podem e devem ocupar. Ainda constitui-se a população negra no Brasil, cada vez mais ampliar os espaços de atuações. Mesmo o país, tendo uma população de mais de 50% de negros e pardos, ainda parece que a população negra é uma “estranha no ninho”, como se fosse uma legião de estrangeiros sem direito de gozar de plena cidadania dentro do seu próprio país. Mas, por outro lado, a história é dinâmica, e a cada dia novos desafios são enfrentados e superados. Ainda temos um longo caminho a ser percorrido, na reconstrução de uma auto imagem, cada vez mais positiva, dos afro descendentes no Brasil.