Venda e consumo persistem na Cracolândia

Matérias sobre a Operação Sufoco na Cracolândia foram publicadas no O SÃO PAULO – edição 2884, de 17 de janeiro.

Enquanto o “churrasco da gente diferenciada” acontecia, dia 14, na esquina da rua Helvétia com Alameda Dino Bueno, acontecia sob a vigilância da Polícia Militar, na rua Barão de Piracicaba, o comércio de drogas a céu aberto. Cerca de 200 pessoas negociavam pedras de crack, ouvia-se o preço: 5 reais, 10 reais.

De dentro do ‘fumacê’, um jovem atravessou a rua e veio ao encontro da  reportagem do O SÃO PAULO, a quem tentou vender um celular por dez reais, insistiu e argumentou: “Tô precisando  de uma pedra, é dez, compra aí”, o preço caiu para 5. Diante das negativas, o jovem recorreu a um casal morador da região, que observava, com uma  criança, a movimentação.  A mulher tirou do bolso três notas de dois reais. O  celular foi vendido e o “barato” garantido.

Usuária de crack pede ajuda para viver

A cigana Eliane Ferreira de Sena tem 34 anos e precisa de ajuda. Sentada na calçada da rua Helvétia, durante o “churrascão”, chorava. “Olha, tem gente aqui preocupada comigo, com a gente. Esses dias têm sido muito difíceis, corro pra não apanhar da polícia”, contou à reportagem.

Natural de Jaú, a cerca de 300 quilômetros da capital, Eliane conta que já se prostituiu e roubou para  manter o vício. Tem quatro filhos e três netos, de seu marido não tem notícias. “Ele fumou tudo o que a gente tinha, não sei onde está”. Usuária de crack há 23 anos, Eliane pede ajuda. “Eu quero que me levem daqui, quero ir para Jaú, mas não tenho dinheiro para a passagem. Se eu chegar lá, eu paro de usar drogas. Lá tenho meus filhos, tenho carinho, minha mãe”. Eliane disse que já buscou ajuda nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) do centro, mas sem sucesso. “Não adianta ficar em albergue por aqui não, a gente fica do lado da droga e aí, é muito difícil resistir”. A cigana confirma estatística da Universidade Federal de São Paulo, que aponta: 47% dos usuários da região, que somam 11.279, querem tratamento.

De onde vem a droga?

Segundo a Secretaria Nacional anti Drogas, a droga sai do Peru, Colômbia e Bolívia como cocaína, entra no Brasil principalmente pelo estados do AC, AM, RR, MT e MS, desses estados é distribuída pelos traficantes há laboratórios clandestinos em SP, RJ, ES, PR e RS.

Em São Paulo, a cocaína chega como pasta, para virar pedra, é misturada ao bicarbonato de sódio e vendida por pequenos traficantes em toda a cidade. O preço da pedra na capital há anos varia de 5 a 20 reais, mas é possível encontrá-la por três.

Tratamento requer perseveração e acolhida

foto de Luciney Martins

Marina Silva Oliveira, 30 anos, tinha 18 quando começou a usar drogas na porta da escola. “Um dia, cabulei aula e fui roubar um ônibus com os colegas, me prenderam e eu fui para a cadeia”. Marina ficou presa por cinco anos e quatro meses na Penitenciária do Estado, em Santana, zona norte.

“Conheci o crack na cadeia, aí saí treinada, com mais revolta no coração”. Dona Vera, a mãe, sempre esteve ao seu lado, mas a dependência a levou à Cracolândia.  “Fiquei quatro meses na rua. Levantava, roubava, fazia o “corre”, assim foram quatro meses longe da família, até que encontrei a Missão Belém, em 2007. “Vi o extensório, que hoje, eu sei, é Jesus”. Marina foi para Rio Grande da Serra, onde ficou um ano e seis meses, em uma das casas da Missão. Sentindo-se bem, retornou para casa e recaiu outras duas vezes.

“Para as pessoas que pensam que a gente não tem jeito, a gente tem jeito sim, o homem veio pra matar e destruir e Jesus pra dar a vida, por isso estou aqui hoje”, disse Marina que com o apoio da Missão Belém persevera pela 5ª vez. “Desta última vez, fiquei três  meses jogada na Cracolândia e agora, antes do Natal, a Missão Belém me acolheu de novo”.

Defensoria apura casos de violação de direitos humanos

foto: Associação Nacional dos Defensores Públicos

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo acolheu desde o início da operação, 40 denúncias. “Presenciamos situações bastante graves no que diz respeito aos direitos humanos das pessoas que ali vivem. Não podemos compactuar com situações em que a Segurança Pública se divorcia dos direitos humanos, disse o defensor público Carlos Weis, destacando que é direito constitucional do cidadão o ir, vir e permanecer.

“As pessoas não podem ser levadas ao distrito policial, pela mera suspeita ou por falta de documentos”, disse o defensor durante audiência extraordinária da Comissão de Direitos Humanos, Cidadania, Segurança Pública e Relações  Internacionais da Câmara Municipal de São Paulo, dia 11.

Para o desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Antonio Carlos Malheiros, a operação na região da Luz “foi um dos maiores equívocos dos últimos tempos”. “Algo que parecia uma operação para caçar traficantes, se transformou em algumas horas em uma perseguição, numa caçada a  viciados e usuários, desarticulando todo um plano que há cinco meses vinha se costurando junto ao Ministério Público Estadual”, disse o desembargador, que afirma que os juízes estarão nas ruas atendendo a população, em prazo ainda indefinido.

A Arquidiocese de São Paulo desde o início da operação, na pessoa de padre  Júlio Lancellotti, tem acompanhado os trabalhos e denunciado os casos de violência à Defensoria Pública. Na tarde da sexta, 13, dom Milton Kenan Junior, bispo referencial das Pastorais Sociais e padre Júlio se reuniram com o  governador Geraldo Alckmim. “Apresentamos nossa preocupação com a ação violenta, mas ele não abre mão da ação policial, disse ser uma medida  necessária nesse primeiro momento para coibir o uso e garantir a internação com acompanhamento”.

Segundo o governador, desde o início da operação 149 pessoas foram presas,  sendo 106 por delitos diversos e 43 foragidos; 878 pessoas foram encaminhadas para abrigos, 212 para serviços de saúde e 80 internadas. A  Prefeitura de São Paulo conta com 80 vagas para internação, e em todo o Estado são 400.

‘Churrascão’ na região da Luz contra ação da PM

Há 14 dias, a região da Cracolândia está ocupada pelo poder público, mais precisamente pela Polícia Militar, reforçada agora pelas Rondas Ostensivas
Tobias de Aguiar (Rota). A população, de modo geral, tem apoiado a iniciativa de intervir na região que há cerca de 20 anos está abandonada nas mãos da ilegalidade; contudo, denúncias de uso da força e violência têm gerado  protestos.

No último sábado, 14, as alamedas Dino Bueno e Helvétia, que já foram o “QG” do consumo de crack, se tornaram palco de manifestações contra a militarização’ da região e a ‘criminalização’ dos usuários de drogas. Raul  Carvalho Nin Ferreira, 29, do Coletivo ‘Desentorpecendo A Razão’ (DAR), acredita que a política de drogas tem que ser revista no Brasil, “somos absolutamente contrários a essa ação truculenta sem qualquer fundamento,
fere a dignidade das pessoas, se tornando um risco à própria democracia”.

A lei de drogas no Brasil caracteriza apenas o porte de drogas como crime.
Usuários e dependentes não estão sujeitos à pena privativa de liberdade, e sim a medidas sócioeducativas aplicadas por juizados especiais criminais. “Se a lei assegura que usuários não são criminosos, porque a violência da polícia?”, questionava um dos cerca de 1.500 manifestantes: gente de comunidades, do Vicariato do Povo da Rua, da Pastoral da Juventude, estudantes e professores universitários, políticos, lideranças de diversos movimentos sociais e entidades representativas da cidade, entre elas o Conselho Regional de Psicologia. “O crack na região da Luz aparece como o sintoma de um problema infinitamente maior. O consumo abusivo desta droga, nestes contextos não é a causa, mas sim a consequência de falta de moradia, emprego, saúde, educação, enfim, condições dignas de vida às quais todos temos direito”, apontou a nota do conselho.

foto de Ruth Alexandre

O protesto foi um “churrascão de gente diferenciada”, uma ironia resgatando o churrasco realizado no bairro Higienópolis, para defender a construção de uma estação do metrô”. No churrasco, a fila para a carne se estendia, nela muitos
usuários e moradores da região, entre eles Geisa Ramos, 32 com seu pequeno  Aleckssandro, de 3 anos. “Eu sou moradora daqui [residência nº 44 da rua Dino Bueno], não uso drogas e vejo que falta um olhar cuidadoso e carinhoso para com os usuários. Não adianta a polícia pegar aqui e jogar ali”. Procurada para falar sobre a assistência aos usuários de drogas, a vice-prefeita e secretária de assistência social, Alda Marco Antônio não se pronunciou até o fechamento desta edição.

E a carne era assada, a fila seguia. Cartolinas com frases de protesto eram  pintadas e estendidas sob o olhar de fotógrafos e dos participantes do 25º Curso de Verão, que aconteceu de 8 a 15, na PUC-SP. Eram cerca de 17h,  quando uma passeata, com cerca de 200 pessoas chegou chamando atenção. “É povo de Igreja”, ouvia-se ao longe. E era mesmo, povo das comunidades, paróquias e entidades de todo o Brasil e América Latina manifestando  solidariedade e repúdio ao uso da violência na região.

Padre José  Oscar Beozzo, coordenador do curso, leu um documento que assinado por 550, foi enviado ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), ao  Prefeito Gilberto Kassab (PSD) e aos ministros da Justiça e Saúde,  respectivamente, José Eduardo Cardozo e Antonio Padilha.

Intervenção na Cracolândia é criticada

foto: Luciney MartinsPublicada em O SÃO PAULO – edição 2883, 10 de janeiro

“Como é que se leva o usuário de drogas a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento”, esta foi a afirmação de Luiz Alberto Chaves de Oliveira, coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, dia 3, no início do Plano de Ação Integrada Centro Legal. O plano foi anunciado como uma ação conjunta e articulada da Prefeitura e Governo do Estado de São Paulo, para tentar esvaziar a Cracolândia. Contudo, informações do “O Estado de S. Paulo” apontam que o prefeito Gilberto Kassab (PSB), não sabia da data da operação.

A operação, segundo a Prefeitura, conta com três fases. Neste momento, passa pelo policiamento ostensivo, com a ocupação da Polícia Militar, revista e abordagem de usuários, que têm recebido denúncias da Defensoria Pública por abusos de poder. “O raciocínio da polícia é coibir a droga, eliminando os que a recebem e não os que levam. Estão trabalhando com a consequência e ignorando a causa, e isso leva a uma ação com bombas de gás, balas de borracha”, disse padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, que tem acompanhado diariamente a operação da Prefeitura e suas consequências.

“Algo tem de ser feito, mas não pode ser feito de qualquer maneira. Soluções
imediatistas em geral são aparentes, superficiais e lançam mão da violência e da repressão, como nós estamos vendo”. Padre Júlio repudia o método de causar sofrimento aos usuários. “Causar dor e sofrimento para alguém  deliberadamente, de maneira planejada intencionalmente se chama tortura, isso é crime”, denunciou.

Na segunda fase, a prefeitura garante que usuários serão encaminhados para
tratamento, com possibilidade de internação involuntáriaem um dos seus centros de acompanhamento a usuários de crack, que hoje são duas unidades de Ambulatórios Assistenciais Médicos (AMAs) – Sé e Boracea –, um Centro de
Atenção Psicossicial (CAPs) e o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD). A cidade conta com apenas um serviço que comporta internação de dependentes químicos, possui 80 vagas e fica em Heliópolis,
zona sul.

A prefeitura garante que no próximo dia 30 será inaugurado um complexo de acolhida para usuários de crack. O espaço fica a cerca de 1 quilômetro
da Cracolândia (final da rua Prates, Bom Retiro). Enquanto isso, os 1.664 dependentes que frequentam a Cracolândia, entre eles, 400 residentes nas
ruas da região, perambulam desconfiados como que sobreviventes. Os usuários buscam espaço entre escombros e lixo para fumar o crack. O cachimbo ainda novo, passa rápido de um para o outro e logo é colocado em uma sacola. A cena foi flagrada pela reportagem do O SÃO PAULO, na esquina das
alamedas Dino Bueno com a Cleveland.

Nas ruínas onde ‘moravam’ os usuários ainda há lixo, resquícios do vício, da falta de condições mínimas de higiene. Ratos e cachorros mortos dividem espaço com o lixo e cachimbos, objetos familiares, de vida e infância perdida:
urso de pelúcia, quadros de Nossa Senhora, uma Bíblia. Aberta no livro do Apocalipse, sinalizava o cenário de desolação, de doença.

A reportagem flagrou ainda usuários de crack utilizando a pedra, ‘à porta da Favela do Moinho’, que sofreu incêndio dia 22 de dezembro. “Agora, esses meninos vêm aqui; não pode, temos muitas crianças, eles precisam de  tratamento, de remédio, não podem continuar nas ruas, vão morrer. Algo decente precisa ser feito”, disse dona Maria Josefa, uma liderança da favela.