Guerra e Paz em SP, um convite à inquietude

Guerra

“Diante destes choros, destes cavalos-marinhos, que falam mais profundo de minh’alma me sinto em estado de absoluta inibição crítica. Tudo que posso fazer é admirar…”, disse Manuel Bandeira sobre os painéis Guerra e Paz de Cândido  Portinari.

Depois de mais de 50 anos, os painéis deixaram o hall de entrada da sede das  Nações Unidas, em Nova Iorque, e desembarcaram no Rio de Janeiro para um restauro de fevereiro a maio de 2011, no Palácio Gustavo Capanema. O trabalho foi realizado em ateliê aberto ao público fluminense, com a realização de programa educativo voltado para o atendimento às escolas. Expostos no Teatro Municipal do Rio, em 12 dias, as obras de Portinari foram visitadas por cerca de 40 mil pessoas.

Talvez a grandeza das obras explique o sucesso de público, são dois painéis de 14 metros de altura por 10 metros de largura cada. Talvez se explique pelo tema, tão atual: Guerra e Paz. Vê-se no óleo sobre madeira, pietás, mães que amparam seus filhos mortos, mãos entrelaças que rezam a Deus, joelhos dobrados em súplica, braços erguidos que esperam o milagre, a morte a galopar, as bestas, a angústia, a solidão, o medo. Portinari consegue calar, impactar ao retratar a guerra através das vítimas.

Sem soldados, bombas ou armas, Portinari tira quem visita sua obra do estado de normalidade, lembrando que a arte continua a tratar a realidade que viaja entre o Oriente e o Ocidente, entre as “cracolândias” e desocupações.  Da perplexidade, da  escuridão e por que não da oração, chega-se à luz, à leveza da alegre infância de Portinari em Brodowski, interior de São Paulo. Na Paz, há um convite à comunhão  fraterna, ao canto universal da fraternidade, à dança, à ciranda, à esperança, ao encantamento.

Paz

Os tons leves, dourados são pano de fundo para meninos que brincam em balanços, meninos nas gangorras, mulheres que dançam. Durante o período de criação dos painéis Guerra e Paz, Portinari foi proibido de pintar pelos médicos. “Estou proibido de viver”, disse Portinari ao jornal O Globo, em 1954. Os médicos tentavam frear o processo de envenenamento pelas tintas que o pintor sofria, mas Portinari não recuou ao pedido do Governo Brasileiro, e durante quatro anos trabalhou no auditório dos estúdios da TV Tupi na confecção dos estudos, esboços e maquetes para os murais, até a entrega em 5 de janeiro de 1956.

O artista não foi convidado à inauguração dos painéis na ONU, devido ao seu  envolvimento com o Partido Comunista. Foi representado pelo chefe da delegação brasileira na Organização, o Embaixador Cyro de Freitas-Valle, que afirmou: “Com pesar, não o vejo hoje entre nós (…) Desejo salientar um ponto: o Brasil está oferecendo hoje às Nações Unidas o que acredita ser o melhor que tem para dar”.

Segundo publicação da Agência Reuters de 1957, Portinari recebeu pelos painéis, o valor de 2 milhões e 800 mil cruzeiros. Sem curso primário completo, morreu tragicamente aos 58 anos, deixando um legado de mais de 5 mil obras murais,  afrescos e painéis, pinturas, desenhos e gravuras que representam uma ampla síntese crítica de todos os aspectos da vida brasileira e seu tempo, que também podem ser descobertos junto aos painéis, no Memorial da América Latina, na Barra Funda, até dia 21 de abril.

VISITAÇÃO

Terça a domingo das 9h às 18h.
Entrada franca.

Memorial da América Latina
Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664 – Metrô Barra Funda (SP)
Agendamento educativo: educativo@portinari.org.br

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2 Responses to “Guerra e Paz em SP, um convite à inquietude”


  1. 1 JUCELENE abril 4, 2012 às 8:37

    Realmente encantador e estimulante à uma postura mais ativa, crítica e banhada na esperança de que os seres humanos são bem mais! Gostei viu?!

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