Câmara aprova projeto que permite registro de candidato com contas rejeitadas

O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) publicou nota de repúdio à aprovação, na Câmara dos Deputados, dia 22, ao Projeto de Lei nº 3839.

De autoria do deputado Roberto Balestra (PP-GO), o projeto altera a Lei Eleitoral (9.504/97) e estabelece novas regras para a expedição da certidão de quitação eleitoral. A certidão é um dos documentos exigidos pela legislação para que uma pessoa possa garantir a sua candidatura.

O MCCE aponta que o projeto foi aprovado sem qualquer debate popular e anistia os políticos que fraudaram suas prestações de contas de campanha. “O projeto de lei 3839/2012 atenta contra tudo o que deseja a sociedade brasileira, que se encontra mobilizada em favor dos valores da ética e da moral, que devem presidir as declarações do Parlamento”, afirma nota.

Segundo o projeto, a decisão que desaprovar as contas sujeitará o candidato unicamente ao pagamento de multa no valor equivalente ao das irregularidades detectadas, acrescida de 10%. Os recursos arrecadados com o pagamento da multa serão destinados ao Fundo Partidário.

O projeto recebeu parecer favorável do relator, deputado Arthur Lira (PP-AL). O texto vai agora ao Senado.

(Com ‘Agência Câmara de Notícias)

‘Eu fui vítima, minha filha foi vítima’

Foto: Luciney Martins | Manifestação no centro de SP

Entre janeiro e abril, o Estado de SP registrou 4.644 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes

A pequena Maria (nome
fictício) foi explorada sexualmente por seu tio, aos 6 anos. Tudo aconteceu na casa da tia, irmã de sua mãe, onde ficava, enquanto seus pais trabalhavam.

Um dia, brincando de contar segredos com Joana, sua mãe (nome também fictício), revelou que o tio fazia coisas estranhas e que não estava gostando. Naquela noite, Joana não dormiu, perdeu o chão. Lembrou-se de uma história semelhante, reviveu a sua história, quando aos cinco anos, também sofreu exploração sexual. “Eu fui vítima, minha filha foi vítima e quando eu soube, pareceu ter acontecido comigo de novo”.

Joana decidiu não se calar, busca justiça por sua filha, por um passado não reparado, por um futuro sem vítimas. “Não me interessa o quanto ele pode pegar de cadeia, quero que ele seja condenado, que assuma o que fez perante a sociedade. A pior condenação é ser exposto”, desabafou a mãe.

O processo de Maria está na Vara da Violência Doméstica do Foro Regional de São Miguel Paulista, e aguarda denúncia do Ministério Público para que o  agressor seja indiciado e responda criminalmente pelo abuso.

Segundo o advogado que acompanha o caso, Fernando Rodrigues, a denúncia
depende do conjunto de indícios que já estão nos autos e das entrevistas que
estão sendo realizadas no setor psicossocial. “Na prática ainda não existe processo criminal contra o indiciado e estamos na expectativa que isso possa ocorrer o mais breve possível”, pondera o advogado, e enquanto isso, o “tio” está solto.

O agressor esta sendo investigado, com base no Estatuto da Criança e do  Adolescente (ECA), pelo crime de produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente, já que em seu celular e computador foram encontradas fotos da pequena Maria nua. A pena para esse crime varia de quatro a oito anos e multa.

Junto ao ECA, o agressor terá de responder também ao código penal que  aponta crime ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos, e para esse crime, a pena é de oito a 15 anos. Maria passou por perícias, contudo a demora em realizálas e a mudança do local onde estava tramitando o  processo, da Vara Comum da Barra Funda para o Foro Regional de São Miguel Paulista, atrasaram o andamento do processo.

Para Joana, a morosidade da Justiça e a “falta de vontade” de alguns órgãos públicos, desencoraja que outras mulheres  e famílias denunciem o abuso. “O escrivão disse que não adiantava eu processar, o conselho tutelar também.
Falavam-me ‘olha, a gentepega casos como esse direto e não dá em nada.”

A história de Maria e Joana se repete por todo o Brasil. Nos primeiros quatro meses de 2012, o módulo Criança e Adolescente do Disque 100 registrou um aumento de 71% das denúncias de violação de direitos humanos contra crianças e adolescentes em relação a 2011. Entre janeiro e abril deste ano,  foram 34.142 denúncias contra 19.946 em 2011.

A região Sudeste é a maior com número de relatos (36,2%), seguida do Nordeste (34,7%), Sul (11,3%), Centro-Oeste (9%) e, por fim, a Região Norte (8,8%). São Paulo é o estado com maior incidência de denúncias (4.644), seguido pelo Rio de Janeiro (4.521) e Bahia (3.634).

Dados do Disque 100 revelam que oito em cada dez vítimas são meninas, assim como Maria e Joana. “Demorei 30 anos para falar sobre isso, fui me reconstruindo sozinha, foi um processo doloroso. Hoje, ajudo minha filha a se recuperar”, disse Joana.

Já Maria, naquela tarde de entrevistas, carregava consigo uma trança e um  caderno. Perdida entre histórias, na livraria, carregava também a vontade de junto com a mãe escrever um livro, mas de estórias com sabor de infância e finais felizes.

Publicado no O SÃO PAULO, edição n° 2902.

Pastoral Carcerária denuncia sistema prisional paulista

Foto de Pastoral Carcerária

Uma em cada 171 pessoas no Estado de São Paulo está presa. São 188.518 presos em detenção provisória ou cumprindo pena em presídios do Estado; 81,85 presos novos por dia. “Decorrência direta desse aumento vertiginoso da população carcerária, a superlotação hoje se reflete nas 85.838 pessoas presas além da capacidade legal do sistema prisional paulista”, denuncia nota pública da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de São Paulo.

Em nota, a Pastoral critica também a entrega à iniciativa privada, da construção e administração de novas unidades prisionais. Segundo o jornalista Rodrigo Viana, do blog “O Escrevinhador”, o governo paulista planeja buscar parceria privada para a construção de três novos presídios na Grande São Paulo, com capacidade para 10,5 mil detentos. A proposta preliminar, aprovada no início do mês, prevê investimentos de 750 milhões de reais, em 27 anos.

“Não podemos admitir que a restrição à liberdade seja objeto de exploração pela iniciativa privada… Aquelas mesmas pessoas alijadas do exercício dos mínimos direitos fundamentais serão agora insumos para a iniciativa privada”, aponta a nota.

O “Plano de Expansão de Unidades Prisionais do Governo do Estado de São Paulo” também foi criticado. Ele prevê, até 2015, a construção de 49 presídios, no valor de 1,5 bilhão de reais, e como se vier, com o apoio da iniciativa privada.

Para a pastoral, a redução da população carcerária só virá com a estruturação das unidades existentes com os equipamentos e com os profissionais adequados à promoção dos direitos básicos inscritos na Constituição da República e na Lei de Execução Penal, apontando ainda tanto o Judiciário quanto o Ministério Público como responsáveis pelo ingente número de pessoas presas “sem necessidade real”. A pastoral vê abusos na utilização da prisão cautelar.

“Parece claro que essa política de encarceramento em massa, longe de responder aos anseios sociais por segurança pública, apenas interessa a quem é ávido por lucrar com o sistema prisional e com a reprodução da cultura de violência”, critica a pastoral.

Para responder às críticas e denúncias da Pastoral Carcerária, O SÃO PAULO buscou o secretário de Administração Penitenciária, Lourival Gomes, que recusou-se a responder à nota, ou às perguntas enviadas pela reportagem, respondendo apenas e por meio da assessora Rosana Garcia: “Por ser uma Nota Pública, a Secretaria não irá se pronunciar”.

A Nota Pública traz ainda denúncia de que apenas 8% têm acesso a alguma forma de educação dentro dos presídios; 12% exercem atividade remunerada; aponta o serviço de saúde como “frágil, com quadro técnico incompleto e diversos casos de graves doenças e até de óbitos oriundos de negligência”; celas onde cabem 12 pessoas, aglutinam-se mais de 40 pessoas e, por fim, a tortura.

A Pastoral Carcerária publicou em 2010 relatório com denúncias de torturas em todo o Brasil. O Estado de São Paulo foi o que mais registrou casos de tortura, 71. “A lei de execução penal determina que ele [o preso] fique privado de sua liberdade, e não de seus direitos”, disse padre Valdir João Silveira, coordenador da Pastoral Carcerária Nacional – CNBB e na Arquidiocese de São Paulo, à época do lançamento.

Publicado no O SÃO PAULO, edição n° 2902.

Musical, adaptado de texto do papa João Paulo 2º, estreia em SP

Texto: Karla Maria
Fotos: Luciney Martins

O teatro no Brasil surgiu no século 16, quando os jovens padres, José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, desembarcaram na Bahia usando do teatro para se comunicar e evangelizar os índios.

Meio século depois, a arte continua a evangelizar e comunicar os valores cristãos, e desta vez com “Enlace – a Loja do Ourives”, uma obra escrita por Karol Wojtyla, o papa João Paulo 2º, que estreou dia 19, no Tuca – o teatro da PUC.

Antes os jesuítas no teatro, agora o beato João Paulo 2º na origem dos musicais genuinamente brasileiros. O Enlace, diferentemente das produções da Broadway, conta com adaptação, direção, produção, interpretação e musicalidade brasileiros, cerca de 40 atores e nove músicos se apresentam no palco, enquanto outras dezenas trabalham na produção.

Os cardeais dom Raymundo Damasceno, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e dom Odilo Scherer, arcebispo metropolitano, prestigiaram a estreia do musical. “Muito bonito, com uma mensagem muito positiva, muito oportuna para esse nosso tempo: é o amor que no final reconstrói a vida”, disse dom Odilo.

O arcebispo metropolitano lembrou que a mensagem do musical também é parte do Evangelho, do Anúncio, dos valores que a Igreja propõe, defende e propaga, tendo um valor evangelizador. “Recomendo a todo mundo, a católicos e não católicos que venham assistir ao musical”.

Autoridades políticas também marcaram presença, o prefeito e vice-prefeita, Gilberto Kassab e Alda Marco Antonio, bem como dois dos pré-candidatos às eleições municipais: José Serra (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB). Cláudio Pastro, artista plástico, também esteve na estreia. “Belíssimo o musical que nos enche de esperança e amor. Alguma coisa que não é atual, é eterno”. O texto “Enlace…” foi escrito em 1960, trazia três personagens e grandes monólogos sobre o amor com os seus encontros e desencontros, suas esperanças, esperas e medos.

O dramaturgo Elísio Lopes Jr foi o responsável pela adaptação, a direção geral é de Jô Santana, para quem “a peça define o amor”. Em entrevista ao O SÃO PAULO, Jô destacou o empenho de padre Juarez de Castro na realização do projeto. Padre Juarez abraçou o musical há cerca de um ano e meio, se tornando o assessor eclesiástico. “Queria dizer para vocês, que o verdadeiro ourives dessa história, é o próprio Papa, esse ourives trouxe para nós esse grande espetáculo e como tenho dito, vocês se convençam e digam para as pessoas o Papa é um espetáculo”, disse o padre no palco, ao término da sessão de estreia.

A atriz Françoise Forton, interpreta Teodora, uma mulher que descobre na maturidade que é possível amar. “Me encanta nesse trabalho poder falar do amor, que o amor pode durar a vida toda, que pode começar na maturidade”.

Para Rafael Almeida, que interpreta Adok, o fato do texto original ter sido do papa João Paulo 2º, chamou sua atenção. “Quando fui convidado para fazer o musical, e me disseram ser do Papa, eu achei incrível e inclusive, foi um dos grandes atrativos para eu aceitar”.

Rogério Lage, diretor artístico e encenador do musical, acredita que o grande valor do texto de Karol Wojtyla é “que trata de valores fundamentais para o homem viver em sociedade”. Rogério afirmou que o musical fica em São Paulo, até agosto ou setembro, e depois segue por capitais do Brasil, tendo temporada marcada no Rio de Janeiro, em abril de 2013.

Jornada Mundial da Juventude no Rio deve reunir 2 milhões de pessoas

De 23 a 28 de julho de 2013, o Rio de Janeiro será sede do maior evento católico do mundo: a Jornada Mundial da Juventude. Trata-se do encontro de jovens de todo o mundo com o papa Bento 16, que deve reunir cerca de 2 milhões de pessoas na cidade maravilhosa, e antes de 18 a 21 de julho, em centenas de cidades que receberão esses jovens para a Semana Missionária.

É mais gente que Copa do Mundo e Olimpíadas e espera-se que o Brasil tenha estrutura para receber esses jovens peregrinos. Na última edição, em Madri, na Espanha, a Confederação de Empresários local calculou um lucro de 160 milhões de euros.

O setor hoteleiro foi o mais beneficiado, 70% dos leitos disponíveis na cidade foram ocupados, o que representa um aumento de 30% no fluxo normal. Além da hotelaria, as redes de fast-food, restaurantes e bares também foram beneficiados com o evento.

A Igreja Católica, contudo, está de olho em outro tipo de lucro, e aqui não estou falando em dinheiro. Em entrevista que realizei pelo O SÃO PAULO, com dom Eduardo Pinheiro, bispo referencial da juventude brasileira, ele fala sobre a expectativa da Jornada Mundial da Juventude como um momento único de evangelizar.

Para os católicos, como esta que vos escreve, evangelizar é anunciar a Boa Notícia, levar o Cristo e com eles seus valores éticos, de respeito e defesa à vida e sua dignidade humana em todos os seus aspectos.

Penso que a Jornada vem em boa hora, não só aos jovens, mas a todos, para que valores de paz e respeito ao próximo e à vida, sejam reestabelecidos e enraizados na cultura. Abaixo você confere a conversa com dom Eduardo…

Dom Eduardo aponta JMJ como estratégia de Deus para evangelizar

Karla Maria
Publicada no O SÃO PAULO

A Jornada Mundial da Juventude-2013 já começou, isso se acompanharmos o raciocínio de dom Eduardo Pinheiro, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Para ele, a JMJ faz parte do processo de evangelização da juventude brasileira, que segue as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora do Brasil (2011-2015).

“Desde quando solicitamos ao Papa a possibilidade da jornada aqui no Brasil, nós já fomos pensando-a, dentro de uma dinâmica de evangelização da juventude”, disse dom Eduardo em entrevista ao O SÃO PAULO.
O bispo, salesiano, lembra que a jornada está dentro do contexto de atenção efetiva e afetiva da Igreja do Brasil pela juventude. “A jornada tem uma força que temos que reconhecer e agora cabe a nós, CNBB, Comissão Episcopal para a juventude, pastorais da juventude e todas as demais expressões aproveitar desse momento”.
Em uma das estratégias de comunicação da Comissão Episcopal da Juventude, mensalmente, dom Eduardo envia carta aos párocos, porque vê neles um papel importante de articulação e animação da juventude. “Essa é uma maneira de articular com os padres, para que criem grupos de jovens, proporcionem espaços, criem formação para assessores. A proposta é dinamizar a juventude na paróquia, porque é lá que a gente acredita que a Jornada terá um ganho real concreto”.
Já foram publicadas quatro cartas aos padres, que estão disponíveis na página www.jovensconectados.org.br. A eles, o bispo envia mensagem especial. “Meus queridos irmãos padres, não percam essa oportunidade, é ímpar, única. Os jovens estão vindo atrás, se o pároco sabe que tem 500 jovens em sua paróquia que estão indo à jornada, que estão se movimentando por causa da peregrinação, pegue esses jovens e faça alguma coisa depois. Pense longe, grande, não só na jornada, e não só na Cruz passando. Estas são estratégias que Deus está usando para dinamizar e evangelizar a Juventude”.
Durante a entrevista, dom Eduardo também convidou a Pastoral da Juventude e demais expressões juvenis a aproveitarem a oportunidade. “Que bonito o trabalho que a Pastoral da Juventude tem na história da evangelização da juventude no Brasil, e justamente por causa dessa riqueza e capacidade em organizar e evangelizar, pedimos que coloque essa experiência, essa capacitação a serviço da Igreja”.
Para dom Eduardo “é um retrocesso, uma falta de esperteza, perder essa oportunidade que Deus está nos dando, é uma avalanche de jovens e quem tem mais experiência de organização, de processo e planejamento, que ponha a serviço, para que a gente não perca esses jovens”.
E essa avalanche de jovens já vem se manifestando pelas redes sociais. Até o fechamento desta edição o Twitter oficial da Jornada Mundial da Juventude em português @jmj_pt, já contabilizava 17.554 seguidores e o @jovensconectados, perfil oficial da Comissão da CNBB para a Juventude possuía 13.242 seguidores. “Temos que aproveitar dessa ocasião que está todo mundo nas redes sociais”, apontou dom Eduardo, lembrando que por meio das redes, é possível acompanhar os ‘passos’ dos ícones da JMJ, seja por terra ou mar, e assim, as realidades do povo brasileiro.
Aos conectados que queiram acompanhar a peregrinação, é possível fazer download gratuito do aplicativo “Siga a Cruz”, no www.rio2013.com ou se inteirar das atividades preparativas para a Pré – Jornada ou Semana Missionária na Arquidiocese de São Paulo, que se realizará de 18 a 21 de julho de 2013.
Segundo o Vicariato da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo, na Solenidade de Pentecostes, 27 de maio, será lançado o site www.prejmjsp.com, e nele estarão as informações sobre a Campanha de Voluntariado e Hospedagem Solidária na Arquidiocese.

‘Queria o bebê, a Vitória estava aqui, viva’

Texto: Karla Maria
Fotos: Luciney Martins

A jornalista gaúcha Joana Schmitz Croxato, descobriu aos 27 anos, em 2009, que estava grávida. A alegria, conta, foi imensa. O casamento com Marcelo Almeida Croxato, 30 anos, já chegava aos cinco anos e o sonho de aumentar a família era grande. “Ficamos muito felizes, porque já sonhávamos, esperávamos nossa filha e foi uma alegria saber que já tinha uma criança a caminho”, contou Joana ao O SÃO PAULO, em seu apartamento em Santo Amaro.

A notícia da gravidez…
A alegria do casal, a ansiedade a espera do bebê aumentou ao descobrirem o sexo, era menina, a pequena Vitória. Mais uma família crescia nesse imenso mundo, mais uma história comum, não fosse o diagnóstico inicial aos cinco meses de gestação, de acrania, uma anomalia fetal caracterizada pela ausência parcial ou total dos ossos do crânio. “Era uma situação tão difícil, em que você espera um bebê que a medicina diz que vai morrer. Então, a gente pensou: não importa, vamos esperar nossa filha em Cristo”. E assim, o nome da pequena se completou: Vitória de Cristo Schmitz Croxato. “Foi uma forma de esperança, a gente tinha fé, tínhamos esperança que algo diferente poderia acontecer, de que a medicina podia não prever tudo o que aconteceria”, disse a mãe, olhando para sua filha, nos braços do pai.

A notícia do diagnóstico veio junto com a do desemprego de Marcelo, gestor comercial, que negociou com a empresa e diante dos laudos médicos, conseguiu se manter no convênio médico. “Quando ele foi demitido, eles [empresa/convênio] já sabiam que eu estava com uma gestação mais delicada. Mandamos uma carta com os laudos da gestação e aprovaram em nos manter”, disse Joana.

Marcelo e Joana não tinham muita informação, até o diagnóstico, sobre o que era acrania, e depois, sobre anencefalia, e ainda que esta exista em diferentes graus, mas aos poucos foram se informando. “Recebemos bastante informação durante o diagnóstico, eles nos explicaram como seria a gestação e não davam muita informação sobre como o bebê poderia agir, o que poderia sentir”.

Para Marcelo, os nomes técnicos acrania, anencefalia por si só já geram preconceitos e a falta de informação leva a erros, segundo ele, como a decisão do Supremo Tribunal Federal.

Relação com os médicos…
“A minha obstetra foi muita isenta e a primeira médica que fez o diagnóstico, nos deixou muito à vontade, mas depois…”. O depois a que Joana se refere diz respeito aos especialistas em medicina fetal consultados. “Eles foram muito diretos e enfáticos em falar que o melhor era interromper a gravidez”, lembrou a mãe que preferiu não identificar os especialistas.

Marcelo lembrou que o médico disse que sua filha era incompatível com a vida e que o melhor seria antecipar o parto. “E não adianta vir com nome bonitinho, antecipação de parto aos 6 meses é aborto, porque você não dá a mínima possibilidade de a criança nascer, independentemente de quanto ela vai viver”.

Durante a gestação, Joana pesquisou e descobriu dois casos de bebês que nasceram com anencefalia e viveram mais de um ano, e mesmo os médicos desconheciam tais casos.

A decisão, o sim à vida de Vitória…
Joana disse que não teve decisão a ser tomada, a não ser a condição natural da mãe, de amar e cuidar do bebê. “Quando recebemos o diagnóstico não teve decisão, a gente queria o bebê. A Vitória estava aqui, viva, [disse colocando as mãos sobre o útero]. Eu estava bem, e a via se mexendo nos exames… A médica dizia que provavelmente o bebê ia morrer, mas eu dizia o bebê está vivo, então, a gente tem que dar a oportunidade a ela de viver”, disse a mãe. E a oportunidade foi dada.

Segundo médicos especialistas, em casos extremos, a mãe pode correr risco de morte, e precisa de acompanhamento. Joana teve um pré-natal normal, viveu uma gestação tranquila, sem dores ou sustos, disse ter buscado forças em sua fé e em Vitória para superar as dificuldades. “Comecei a perceber que ao viver a gestação e me envolver com a minha filha, eu já estava me tornando mãe, porque a mãe também vai sendo gerada com aquela criança, e pensei: talvez eu não possa cuidar da minha filha por muito tempo quando ela nascer, mas eu posso cuidar dela na gravidez”, revelou a jovem mãe.

O casal lembrou que algumas pessoas da família ficaram sem reação no início de todo o processo, mas que a atitude de esclarecer as dúvidas ajudou a todos a se unirem. “Todo mundo começou a apoiar e isso me dava muita força, as pessoas chamavam a Vitória pelo nome, davam presentinhos”.

Joana lembra com carinho do Chá de Bebê, feito aos 8 meses de gestação, por duas amigas. “Eu não sabia se fazia sentido me preparar para uma gravidez assim… mas eu dizia, tem um bebê aqui”. Marcelo recorda que tudo foi comprado com muito carinho e dedicação, que alguns os chamavam de loucos. “Ainda desempregado, compramos tudo, o último item foi uma escova de cabelo e para uma pessoa que ia nascer sem a parte do couro cabeludo”, lembra, acariciando a mexa castanho claro do cabelo de Vitória.

A chegada de Vitória…
O parto foi cesariana. Dia 13 de janeiro de 2010. “Fiquei muito angustiada no momento do parto, tinha medo que ela falecesse muito rápido e aí quando ouvi aquele chorinho me deu uma alegria, uma paz, foi uma coisa realmente de Deus, como se a minha missão tivesse sido cumprida”, contou emocionada, agora com Vitória nos braços, e em suas mãos, os dedinhos perfeitos e gorduchos de Vitória.

A pequena “guerreira”, como chama a mãe, nasceu com 38 centímetros e 1 quilo e 785 gramas, tamanho de um bebê prematuro. Ficou cinco meses internada na Unidade de Terapia Intensiva e diária e intensamente, recebia o cuidado dos pais, já que, segundo os médicos, a qualquer momento poderia falecer. “Ter a oportunidade de cuidar dela, naquele momento foi maravilhoso”, revelou Joana.

Com duas semanas de vida, pegou uma infecção grave, tinha dificuldades respiratórias. “Por 16 dias os médicos nem a examinavam, pareciam até esperar a morte, até que um dia uma médica examinou com mais atenção, pediu hemograma, e viu-se que ela estava com infecção e anemia, deram antibiótico, transfusão de sangue e ela ficou super bem”. Aos 2 meses, Vitória começou a mamar no seio da mãe, e aos 4 fez uma ressonância magnética que tentou descrever sua condição como anencefalia incompleta — presença de tronco cerebral, cerebelo e diencéfalo, porém ausência de parênquima cerebral (córtex) —, o que caracterizaria a anencefalia.

O julgamento do STF…
O Supremo Tribunal Federal aprovou em 12 de abril deste ano, a antecipação de parto de feto anencéfalo e sobre essa decisão, Joana escreveu em seu blog (amadavitoriadecristo.blogspot.com.br). “Minha tristeza com relação à decisão do STF foi a de perceber que a criança portadora de anencefalia foi totalmente desumanizada nesta decisão, e sua vida inferiorizada e desprezada devido à sua fragilidade e brevidade… É extremamente ofensivo e desrespeitoso referir-se como um caixão ambulante a uma mulher que decide amar e respeitar a vida do seu filho… tudo isso é uma experiência intensa de vida e jamais deveria ser tratado com tanto desprezo e ignorância jurídica e científica”.

Vitória ensina a mãe…
Joana passou seu primeiro Dia das Mães na UTI e no próximo domingo espera estar com Vitória saudável nos braços. “Sinto-me uma pessoa mais sensível, mais humana e mais forte, porque quando me sentia fraca e via minha filha mesmo com um problema tão sério e expectativa de vida tão baixa, e ela lutando, mostrando um desejo de viver”. Marcelo também registrou. “O que mais me encanta nela é quanto dedica e ama genuinamente nossa filha, por entender o valor da vida”.

A entrevista terminou, o gravador foi desligado, as fotos cessaram. Restou o exemplo da pequena “guerreira” e da luta da família pela Vitória, pelas pequenas coisas, por um dia de sol.

Publicado no O SÃO PAULO, edição 2900.