Viva el Mexico

Catedral Metropolidade Ciudade de Mexico (15) Caminhar pela Cidade do México dá gosto. Um gosto bom, daqueles que a gente tem vontade de trazer para a nossa terra. O gosto pela arte, pela leitura, pela fé. Aqui a mãe de Jesus ganha o nome de “Virgem de Guadalupe” e a devoção por ela não passa despercebida, é moda. Percorrer estas ruas é ver no rosto do povo mexicano os traços indígenas, que mesmo explorado pela colonização espanhola, resistem e encantam.

Ao caminhar pelo Zócalo, o coração da cidade onde ainda se encontram resquícios do que um dia foi a capital da civilização asteca, a Tenochtitlan, vê-se a Catedral Metropolitana, cuja construção demorou 200 anos. Com seus 13 retábulos de diferentes concepções arquitetônicas, destaca-se o Cristo Negro estendido na cruz e adorado por alguns transeuntes que atravessavam as portas que datam do século 16. Construída exatamente sobre o espaço que era antes dedicado aos rituais astecas, os espanhóis não foram sutis em determinar que a colonização trazia consigo, para além da arte e dos costumes europeus, a sobreposição violenta da cultura espanhola sobre os povos que os antecederam.

Caminhando mais um pouco, chega-se ao Palácio Nacional, edifício que pertenceu a Moctezuma, o imperador asteca. Nele, hoje, estão os famosos murais do Diego Rivera intitulado “México, através dos séculos”, pintados entre 1929 e 1951. Já nas escadarias do palácio o visitante toma um sobressalto ao admirar parte do mural, um impacto de tirar o fôlego dada a beleza e dimensão, dados os detalhes da história ali contida e revelada. “Aqui esta a história nacional, desde a chegada dos espanhóis até o pensamento revolucionário do século 20”, contou Guilhermo Westphal, o guia no México, formado em história da arte.

Os painéis de Diego Rivera

Os painéis de Diego Rivera

“Por trás do conjunto se destaca um magnífico trabalho de perspectiva e de documentação por parte de Rivera”, continua Westpahl. Segundo artistas plásticos e historiadores, Rivera teve como inspiração artistas como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Juan Miró, além do arquiteto Antoni Gaudí. Dizem, inspiração esta nascida de sua passagem pela Europa e mais tarde do amor vindo de Frida Kahlo, com quem se casou em 1929. Frida é a mulher que estampa a nota de 500 pesos, mas era mais, muito mais.

Era a terceira filha do segundo casamento de um imigrante alemão judeu e de uma mãe mestiça mexicana católica devota. “A relação de Frida com a mãe parecia ser depressiva e inadequada. Sua profunda sensação de estar só na sua presença está documentada no quadro Meu nascimento”, afirma a psicanalista Gina Khafif Levinzon em seu artigo Frida Kahlo: a pintura como processo de busca de si mesmo.

Aos 18 anos, no dia 17 de setembro de 1925, Frida sofreu um acidente que a marcou profundamente, o bonde em que estava colidiu com um trem, levando-a fraturas em sua espinha dorsal e muito sofrimento, que lhe deixaram sequelas por toda a vida e por toda a arte. Sem poder andar, começou a pintar em sua cama, deitada mesmo. Um espelho foi fixado no dossel de sua cama o que permitia Frida se ver e, desta maneira, tornar-se sua própria modelo.

“O infortúnio não assumiu o caráter de tragédia: eu sentia que tinha energias suficientes para fazer qualquer coisa em vez de estudar para virar médica. E, sem prestar muita atenção, comecei a pintar.”, disse Frida em um de seus diários, revelado pela biógrafa Hayden Herrera, no livro “Frida – A Biografia”.
Ela começou assim, a longa série de autorretratos, que constituem a parte mais significativa e impressionante de sua obra. Os três abortos que sofreu, já depois de casada, mataram sua esperança de ser mãe e constituir uma família completa ao lado de Rivera também marcaram de forma dramática sua arte onde difundida por todo o mundo.

“Foi uma vida de sofrimento durante décadas. A razão inicial foi o acidente. Ela começou a pintar desde menina, desde moça. Aprendeu muito com seu marido. Era talentosa, mas a pintura dela nunca foi considerada importante, 80% dos quadros são auto-retratos”, disse o Guillermo Westphal.

Frida tornou-se um ícone da arte mexicana e também do universo feminino, por ter se mostrado à frente de seu tempo, em questões à época exclusivas aos homens como arte e política. Junto a Diego, Frida abrigou em sua casa um dos ícones da revolução russa Leon Trotsky com sua mulher e netos. O abrigo era a Casa Azul onde viveram de 1929 a 1954. Depois da morte de Frida, em 13 de julho de 1954, o lugar virou o Museu Frida Kahlo, um dos pontos mais visitados do México e não é para menos.

Localizada no elegante bairro de Coyoacán, onde caminhar se iguala à leitura de um bom livro, a Casa Azul está lá, na Rua Londres, 247, esquina com Rua Allende e possibilita ao visitante que se encontre com fragmentos daquilo que um dia foi instrumento da arte e do dia-a-dia de Frida. Chegando à porta da casa pintada com um azul único por Diego a pedido de Frida, deparamo-nos com uma fila formada na maioria por mulheres jovens.

“Frida é a ‘santa padroeira’ das mulheres mexicanas independentes e liberais, obverse o público que a visita”, informou o guia que cresceu no bairro Coyoacán. “Mulheres vestidas com jeans, camisas bordadas com temas indígenas, brincos indígenas”, obsevou.

Do jardim às louças da cozinha, tudo está intacto. As cartas de amor que enviou a Diego, as tintas guardadas em frascos de perfume, seus livros de leitura. Os objetos pessoais está lá ecompõem um quebra-cabeça da mulher mito que faziam questão de valorizar a cultura popular mexicana em suas roupas que também estão expostas.

É possível visitar os quartos em que Frida passava os dias e as noites, o atelier de pintura com uma vista ampla e iluminada para o jardim. O quarto onde recebeu por dois anos Leon Trotski permanece arrumado. No museu há uma amostra da riqueza da produção da artista, com quadros, desenhos, estudos.

Quem visitar a Casa Azul pode estender a caminhada pelo bairro de Coyoacán e visitar também o Museu Anahuacalli, que guarda um acervo pré-hispânico idealizado por Diego Rivera. O Museu Leon Trotski, casa em que viveu e morreu o revolucionário russo após sua acolhida na casa de Frida também está por perto. Outra opção interessante é sentar em um dos cafés do bairro e observar o movimento misturado entre a alegria da juventude e o olhar silêncio dos habitantes mais experientes do bairro. Coyoacán é mais uma joia desta coroa chamada México.

Publicada na Revista Família Cristã/outubro de 2014.

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