133 anos da abolição da escravatura e CPI da Covid-19

Está no ar o segundo episódio do Ká entre Nós, agora em podcast

A semana passou que nem vimos. Rápido demais pra um tempo que parece não ter fim. Continuamos contabilizando mortes em decorrência da Covid-19. Até aqui são mais de 430 mil mortes. Imaginem… E nossas armas contra esse vírus continuam fragilizadas e ameaçadas. Os cuidados pessoais como uso de máscaras e distanciamento social são diariamente banalizados pelo líder da nação que já está em campanha para sua reeleição.

Uma campanha de morte, uma estratégia para desviar a atenção da sociedade sobre os encaminhamentos e depoimentos recolhidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19. É sobre isso que falo em meu segundo episódio Ká entre Nós agora em podcast, mas não só. Chamo a atenção para os 133 da abolição da escravatura em nosso país e sobre os impactos culturais que a escravidão, um sistema econômico adotado pela Estado brasileiro, causaram e provocaram em nossa sociedade tão, tão racista culturalmente.

As heranças da escravidão continuam flagelando so corpos pretos. Basta abrir os olhos para enxergar. Falo mais sobre isso no podcast.

Racismo, até quando?

Eu não sei você, mas por aqui o peito segue apertado, angustiado. Hoje, uma sexta-feira fria em Guarulhos, depois de uma reunião e um copo quentinho de café, estou aqui sentada – que privilégio – ouvindo o relato de Mirtes. Ouvindo e chorando. Admito. Não é mimimi, como dizem uns, é o sentimento de humanidade comum a todos nós, ou a quase todos.

Mirtes Renata Santana de Souza, essa mulher forte, corajosa, ex-empregada doméstica do prefeito de Tamandaré, uma cidade do Pernambuco, fala da morte de seu pequeno Miguel. Ela fala com tanta dor e saudade. Ele era sua vida, seu orgulho, sua motivação diária

O pequeno Miguel Otávio foi muito cedo e de uma maneira que escancara a classificação que a elite deste país faz dos brasileiros. Miguel tinha apenas cinco aninhos de idade. Um sorriso sapeca, de criança verdadeiramente feliz. Morreu à procura da mãe. Foi abandonado – criminosamente – dentro de um elevador pela patroa da mãe, enquanto sua mãe passeava com a cachorra da família branca, rica.

Será que a patroa Sari Gaspar Corte Real, a primeira dama de Tamandaré, deixaria um sobrinho, um filho dentro do elevador sozinho? Será que ela apertaria o botão do elevador levando o menino para um andar mais alto, afim de que Miguel ficasse “passeando” sozinho dentro do prédio? Você deixaria uma criança sozinha no elevador?

Caímos aqui em algumas reflexões necessárias, indignações, diria. Fosse Miguel uma criança branca seria ele tratado desta maneira? Aquilo que há de mais sagrado, a vida de uma criança, foi banalizada, colocada em risco, para que a patroa, dama da elite pernambucana pudesse continuar fazendo as unhas em casa com sua manicure, em meio a uma pandemia de Covid-19, que até o momento em que escrevo este texto matou mais de 34 mil pessoas no Brasil.

Absurdo a manicure e Mirtes terem de ir até o condomínio rico, em meio à pandemia. Outro absurdo, dentre tantos, foi a demora em conseguir localizar o nome da patroa de Mirtes, porque a polícia preferiu não divulgar. E se fosse o contrário? Se Mirtes fosse a empregada preta que tivesse negligenciado a segurança da filha da patroa? Alguém duvida que ela teria sido levada no camburão e estaria presa provisoriamente, aguardando um julgamento como 43% da população prisional brasileira aguarda. Alguém duvida?

A patroa, a primeira dama, foi indiciada por homicídio culposo, pagou 20 mil de fiança e responde em casa, em liberdade. Na mesma casa em que fazia as unhas, enquanto o pequeno Miguel procurava a mãe e caia de 35 metros de altura.

O fato de a primeira-dama, branca, ter contado com privilégios mesmo sendo a criminosa, corresponde ao cenário existente dentro dos presídios que visitei, onde a esmagadora maioria dos presos são pretos. Observe que são maioria nas cadeias, não porque são os que mais cometem crimes, diferentemente do que racistas têm propagado pela blogosfera, e sim, porque todo o sistema judiciário possui mecanismos racistas que privilegiam os criminosos que são brancos e nãos os prendem. Simples assim.

Vejas as abordagens policiais pelas ruas, pelos aeroportos, pelos elevadores… Há seleção de quem deve ser preso, e morto. Das ruas até os juris. Seleção baseada em preconceitos, estigmas entre as autoridades policiais e jurídicas. E a cor da pele é elemento de decisão. Pergunte aos homens e mulheres pretas com quem você convive e se não convive… escute-os, leia-os. Fuja da ignorância, da alienação.

Enfim, este texto é um desabafo, uma maneira de arrancar do peito tanta indignação diante à banalidade do mal. Miguel, Mirtes, Ágatha, Marcos Vinícius, João Pedro, Amarildo, Marielle, George Floyd e tantas e tantas pessoas morreram e morrem diariamente vítimas de racismo, de um sentimento de superioridade branca, e que coloca os cidadãos que têm mais melanina em um lugar de não-cidadania, de não-vida.

Até quando? Até quando?

#vidasnegrasimportam

A literatura esquecida de Carolina

Divulgação
Maria Carolina

Karla Maria

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 na pequena cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais. Como escritora, foi descoberta tardiamente, aos 43 anos, em 1958, na extinta favela do Canindé, em São Paulo (SP), onde hoje fica o Estádio do Canindé, da Associação Portuguesa de Desportos. Seu descobridor foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do diário Folha da Noite, de maneira acidental. Ambos se conheceram quando ele trabalhava em uma reportagem sobre a favela. Negra, mãe solteira de três crianças, catadora de papel e semianalfabeta, essa improvável escritora havia estudado apenas até a 2a série do curso primário no Colégio Allan Kardec, do Grupo Espírita Esperança e Caridade, na sua cidade natal. Era então uma mulher que descrevia em cadernos encontrados no lixo, meio sebosos, seu percurso desde que deixou Sacramento, aos 17 anos, até chegar à capital paulista em 1947.

Os cadernos acumulados guardavam memória de 15 anos e eram preenchidos em uma tentativa imaginária de escapar das dificuldades diárias e do nervosismo que a tomava quando a fome era intensa. “Enquanto escrevo, vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim, e eu contemplo as flores de todas as qualidades”, revela um trecho extraído deles. “Seria mais uma das milhares de mulheres que existem pelo País não fosse o fato de dar voz àquilo que vivia e via na favela. Seus montes de caderno foram entregues ao jornalista, e ele, com a sensação do furo e a pecha do ‘novo jornalismo’, selecionou as histórias, editou os textos e criou volumes como Quarto de despejo: Diário de uma favelada, em 1960”, escreveu o professor da Universidade de São Paulo (USP), José Carlos Sebe Bom Meihy, coautor do estudo Cinderela negra: A saga de Carolina Maria de Jesus.

Bitita – Quarto de despejo, o livro de estreia, foi lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960 e, devido a seu estrondoso sucesso, teve oito reimpressões no mesmo ano. Em menos de 12 meses, mais de 70 mil exemplares foram vendidos – uma tiragem bem-sucedida, na época, era de aproximadamente 4 mil exemplares. Nenhum autor no Brasil chegara perto desse fenômeno de venda, nem mesmo o campeoníssimo Jorge Amado. Revistas internacionais do porte de Life, Paris Match e Time fizeram reportagens sobre Carolina e o seu livro. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo foi traduzido para 14 idiomas em mais de 40 países, como Dinamarca, Holanda, Argentina, França, Alemanha, Suécia, Itália, passando pela República Tcheca, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e chegando à Rússia, Japão, Polônia, Hungria e Cuba.

A catadora de papel Carolina Maria virava celebridade. E mais: sua literatura chegava ao público em momento que as letras eram um espaço reservado a homens brancos, letrados e, com raras exceções, ricos e em posição social elevada. “Se eu tivesse diploma superior, seria respeitada, mas tenho só dois anos de grupo. Sou semianalfabeta”, desabafou Carolina. O mesmo sucesso, porém, não foi alcançado pelos seus livros seguintes Casa de alvenaria: Diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da fome (1963) e Provérbios (1963). Neste mesmo ano, comprou um pedaço de terra em Parelheiros, bairro periférico da zona sul de São Paulo, e iniciou a construção de uma casa. Plantava ali sua horta e criava galinhas, mas ainda passando por inúmeras dificuldades. Sem nunca deixar de escrever. Em 1975, entregou os manuscritos sobre sua infância e adolescência para duas jornalistas francesas que culminaram no livro Journal de Bitita ou Diário de Bitita.

Permanência – “Passados cem anos de seu nascimento e 37 anos de sua morte, Carolina resiste, sobretudo, nos Estados Unidos, onde todos os seus livros estão disponíveis”, afirma o escritor e professor de Literatura Hispano-Americana, na Universidade Federal de São Carlos (Ufiscar), Wilson Alves Bezerra. Para ele, Carolina, no Brasil, ainda é tratada como objeto de estudo.

Por ocasião do centenário de nascimento da escritora, celebrado este ano, o jornalista Audálio Dantas recontou os passos da descoberta, do perfil de Carolina e de como sua literatura foi aceita no cenário brasileiro. “A maioria ‘consumiu’ Carolina como uma novidade, uma fruta estranha. Carolina, como objeto de consumo, passou, mas a importância de seus livros, um documento sobre os marginalizados, permanece”, sentencia. A crítica literária concorda. “Carolina é uma escritora fundamental para entender a literatura brasileira feita, em sua grande maioria, de autores brancos de classe média que dominavam a língua formal. Ela mostra a outra face dessa história, que passa a ser vista do ponto de vista dela, de baixo”, explica a professora da Universidade de Brasília (UnB) Germana Henriques Pereira, autora de O estranho diário de uma escritora vira-lata.

Carolina Maria não conseguiu escapar de seu destino. Cinco anos após o sucesso de Quarto de despejo, ela voltou a catar lixo. “Estou no inferno, não saiu nada do jeito que desejei e eu não gosto de ser teleguiada. Eles é que administram o que arrecado”, escreveu na época. Morreu pobre em 13 de fevereiro de 1977, antes dos cem anos que desejara viver para ler todos os livros do mundo.

Publicado originalmente na Revista Família Cristã, edição de dezembro de 2014.

Indígenas se mobilizam pela garantia de direitos

indigenasNesta semana pela Mobilização Nacional Indígena, estão confirmados atos em pelo menos quatro capitais (Brasília, São Paulo, Belém e Rio Branco), além de cidades no interior .

“O objetivo é protestar contra o ataque generalizado aos direitos territoriais dessas populações que parte do governo, da bancada ruralista no Congresso e do lobby de grandes empresas de mineração e energia”, aponta a mobilização.

Apoiam o ato o ISA, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), mas também por outros movimentos sociais e organizações da sociedade civil, como o Greenpeace, a Coordenação Nacional de Comunidades Quilombolas (Conaq) e o Movimento Passe Livre (MPL).

Em maio, estive na região metropolitana de Porto Alegre (RS) pela Revista Família Cristã, e lá com o apoio d Cimi flagramos situações de violação aos direitos indígenas, que vivem às margens das rodovias gaúchas.

A reportagem completa sobre os Guarani Mbya está no blog da Revista.

 

 

 

Gente simples, fazendo coisas pequenas na construção da paz

Foto de Paulo Flores / CEBs fazem memória de seus mártires
Foto: Paulo Flores / Momento das Dores e Alegrias de Maria

CEBs a caminho de Crato para seu 13. Intereclesial

O 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) já começou, ao menos para os 400 delegados do Estado de São Paulo, que participaram neste fim de semana, dias 21 e 22, em Pirajuí, Diocese de Lins, de um encontro preparatório e de envio para o encontro nacional das CEBs, que acontecerá de 7 a 11 de janeiro, de 2014, em Juazeiro do Norte (CE), na “Terra de Padim Cícero”.

A Arquidiocese de Sao Paulo foi representada por cerca de 90 pessoas, entre delegados (79) e convidados (11). As regiões episcopais Brasilândia e Belém contam com o maior número de delegados, 38 cada. Assessorados pelos padres Benedito Ferraro e Nelito Dornelas Justiça, os delegados refletiram sobre a identidade das CEBs e a Profecida a serviço da Vida. “Quando falamos de CEBs falamos de fé e vida. O nosso compromisso social é a luta pela justiça”, aponta carta final do Encontro.

O tema trabalhado ao longo dos dias, é o mesmo que norteará  a dinâmica no Ceará, em janeiro de 2014: Justiça e Profecida a Serviço da Vida, CEBs Romeiras do Reino no Campo e na cidade. É tradição, as CEBs de todo o Brasil partilharem suas experiências de comunidade de fé, após a análise de conjuntura da realidade que se vive eclesial e políticamente. E, é diante dessas realidades, e em memória dos Mártires da Igreja, que estas lideranças assumem compromissos para a Construção do Reino, com o pé fincado na realidade, em geral do mais empobrecido.

Para Jefferson Rodrigues, 21 anos, membro da Pastoral da Juventude e um dos delegados da Arquidiocese, o encontro deixou uma mensagem. “Que todos nós cristãos possamos estar sempre a serviço da vida. Que saiamos do nosso comodismo, e debaixo dos telhados das igrejas, para ir ao encontro da verdadeira Igreja, que está nas ruas, no campo e na cidade”.

Jefferson também esteve no Rio de Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude, para se encontrar com o papa Francisco, que vem reforçando a cada dia, seu desejo de ver uma Igreja mais próxima dos pobres. Os delegados de todo o Estado foram acolhidos pelo bispo de Lins,  dom Irineu Danelon e acompanhados pelo bispo referencial das CEBs, dom José Luiz Bertanha.

Karla Maria, publicada no Jornal O SÃO PAULO.

às margens da estrada e da história

indio
Foto Karla Maria I BR 290 – Acampamento Arroio Divisa

Em maio, estive cortando as estradas do Rio Grande do Sul para realizar reportagens que mexem com a história daquela povo, com a história que construiu e garantiu o jeito peculiar de ser do gaúcho.

Uma reportagem especial, que acaba de ser publicada na edição impressa da Revista Família Cristã, traz a situação de três acampamentos indígenas dos Guarani M’bya, às margens das rodovias RS 040, BR 116 e BR 290. Um contexto de extrema pobreza e abandono dos poderes públicos.

Convido os leitores a desvirem o olhar a estes povos, cerca de 36 mil brasileiros e brasileiras que vivem no estado gaúcho.

Foto de Guilherme Klein I dona Joventina e a repórter
Foto de Guilherme Klein I dona Joventina e a repórter

Também para a Revista Família Crista, desta vez para sua página eletrônica, estive em Espumoso, cidade à 5 horas de ônibus de Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul.

Ali, conheci dona Joventina, uma senhora centenária, que traz em seu olhar, parte da história do Brasil e das consequências insuperáveis causadas pela escravidão.

Fica o convite para as leituras do texto, das fotos e do vídeo, que irão dizer mais do que minhas perseverantes palavras.

Guadalupe na porta, malas por fechar e pesar

Picture 348Último dia no Arizona. Estou sentada num banquinho, debaixo de uma árvore, esperando o ônibus, enquanto os carros passam. É domigo, Dia das Mães, dia de almoço, abraço e beijo…
Não sou mãe, ainda, e espero ser de um jeito ou de outro em um amanhã. Mas não me faltaram abraços, não me faltaram carinhos neste dia.
Mensagens no telefone dizem “I am going miss you, you are special, be happy”, letras que marcam a despedida, encerram esse capítulo que foi bem confuso, difícil e surpreendente também.
Pequenos momentos me marcaram: o primeiro dia de aula, naquela sala cheia de história e cultura; conhecer e brincar na neve como criança; andar nas ruas de Tucson com minha família americana, celebrar a Paixão e Páscoa com eles; sentir o cheirinho do Oriente em uma cozinha palestina.
Nestes tempos de intercâmbio, fui além do inglês, acho que além de mim. Conheci o meu limite e gostei. Vi que o mundo é pequenininho, cabe numa conversa, assim debaixo da árvore, num café aguado, agora no ônibus com o motorista, que elogia o inglês desta estrangeira. Sim, o ônibus chegou.
Neste período falei do Brasil, quase todos os dias por aqui, foi outro ponto interessante… o Pelé? sim, mas ia além, porque nós somos mais.
Aqui também vi a guerra de perto, no olho dos amigos vindos da Síria, da Palestina, da Somália, do Iraque…; vi o sonho trazido pelo deserto com os mexicanos e a pobreza estabelecida aqui com os americanos.
Tanta coisa, tanta gente, tanta história, tanta, tanta, tanta…  Chegando em casa, sol forte, Guadalupe na porta, malas por fechar e pesar.
Ela, a mala volta mais pesada sim, a cabeça mais aberta, os olhos mais atentos e o coração, a esse  coração volta na mão…

Festivais seguem revelando novos talentos da música brasileira

Banda
Durante o 4º Som Léo Festival. Foto de Laila Araujo

Elis Regina, Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Estes nomes surgiram e tocaram o Brasil nos anos 1960. Eram tempos de Festivais da Música Popular Brasieira, transmitidos pela TV Excelsior e depois pela TV Record.

Desde então, canções como “Arrastão” (Edu Lobo e Vinicius de Moraes), interpretada por Elis Regina, e “Porta-estandarte” (Geraldo Vandré e Fernando Lona), interpretada por Airto Moreira e Tuca permanecem no imaginário do brasileiro, são raízes da cultura popular brasileira.

Cinquenta anos depois, os festivais espalhados pelo país, continuam revelando grandes e escondidos talentos, contando desta vez, com as possibilidades da internet para a divulgação e participação do público na escolha de seus preferidos artistas.

No 4º Som Léo Festival de Música de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, entre os dias 21 e 22 de setembro de 2012, o público que seguia o Festival e as bandas participantes, pôde escolher suas bandas preferidas através da rede social, o Facebook. Na página do Festival também foram divulgados os vídeos dos artistas e das bandas musicais.

Destaque do 4º Som Léo Festival de Música de São Leopoldo, a banda II Louis and The Jay formada por quatro gaúchos e um catarinense, mistura influências do folk, rock, reggae e blues, compoe suas próprias canções e conta com a internet para a divulgação de seu trabalho.

Em entrevista ao Ká entre Nós, o vocalista Jeremias Dillenburg fala do surgimento da banda, de música e inspiração, da importância dos festivais na carreira da banda e mais, de internet e projetos que estão por vir. Antes, com vocês, a banda II Louis and The Jay:

Jeremias Dillenburg, nos vocais e violão
Luiz Carlos Oliveira, no baixo
Luiz Bitencourt, na bateria

Músicos convidados
Matheus Miguel , na guitarra
Isaque Pacheco, nos teclados

Ká entre Nós:  Como tudo começou?
Jeremias Dillenburg:
Eu sempre tive a vontade de formar uma banda de surf music, pois sou um surfista fissurado por esta cultura de mar! Conversei sobre essa vontade com um ex-colega do curso Técnico em Música, o Luiz Bitencourt, e ele topou ser o baterista. O baixista, Luiz Carlos, conheci na aula de inglês e, no momento, ele fazia o mesmo curso que nós tínhamos feito. Fechou! Formamos um trio e essa é a base da banda até hoje.

Ká entre Nós: Ouvindo as músicas que tocaram no Festival, percebe-se diversas referências na música de vocês. Quem, quais são as referências musicais?
Jeremias Dillenburg:
Somos fãs de música boa, criativa e simples. Gostamos dos mesmos caras, como Ben Harper, Bob Marley, Jack Johnson, Tim Maia, Natiruts, O Rappa, entre outros. Claro que cada um possui seu gosto pessoal, mas no fim aderimos à mesma sonoridade. Os gêneros mais frequentados são o folk, o rock, o reggae e o blues.

II Louis & the Jay / Foto: Facebook/Estudio Digroove
II Louis & the Jay / Foto: Facebook/Estudio Digroove

Ká entre Nós: Esse foi o prmeiro festival que participaram? Qual o peso para vocês de festivais na Carreira musical?
Jeremias Dillenburg:
O 4º Som Léo Festival foi o nosso primeiro e já entramos ganhando. As 10 bandas selecionadas foram agraciadas com a gravação de um DVD. Isso foi demais! De uma hora pra outra estávamos gravando entrevistas em rádio e TV, além do making off para a produção e o show final no Teatro Municipal de São Leopoldo. Acreditamos que os festivais são essenciais para a experiência e exposição da banda. Em 2013, já participamos de um festival de rock em Porto Alegre e estamos prontos para tocar no Festival do Meio Ambiente de Sapucaia do Sul, onde nossas três músicas também foram selecionadas.

Ká entre Nós: Como avalia o cenário da indústria fonográfica? Primeiro sobre  a qualidade das músicas?
Jeremias Dillenburg:
Sabemos que indústria fonográfica tomou outros rumos, principalmente com o crescimento e a facilidade do uso da internet e de outras ferramentas digitais. Hoje em dia, podemos encontrar muita música, de diversos gêneros e qualidades, e podemos fazer música em casa sem muita dificuldade. Acredito que a qualidade e a precisão das músicas de hoje são incríveis , mas perdemos muito sentimento no processo do trabalho em cima da obra. Temos mais “música passageira” do que “clássicos”.

Ká entre Nós: Falávamos no facebook sobre música independente. Quanto difícil é trabalhar, promover sua música longe das grandes gravadoras?
Jeremias Dillenburg:
Somos como formigas: pequenos e operários. Trabalhamos muito para poder gravar uma única música que for e utilizamos a divulgação do “boca a boca” ou “face to face” para apresentá-la ao público. É muito difícil fazer isso em meio a tanta informação, mas as pessoas que se identificam com a gente vão ajudando inconscientemente no processo. Além disso, já contamos com a ajuda de uma produtora musical, a Adriana Vargas, que empresaria a banda e assessora nossos passos.

Ká entre Nós: Qual o papel da internet na vida de uma banda independente?
Jeremias Dillenburg:
A internet é uma ferramenta de custo quase-zero muito acessível.  Nossa divulgação, por exemplo, é toda feita através do site  e das redes sociais, como o youtube e o facebook.  Atingimos um grande público em curto prazo.

Ká entre Nós: Você acha que é possível viver de música hoje? Esse é o plano de vocês?
Jeremias Dillenburg:
Acho que sempre foi possível viver de música, pois, como em todas as funções dentro de uma sociedade, é preciso de muito trabalho e dedicação para ser recompensado. O único “porém” também está ligado às outras profissões: COMO FAZER O QUE GOSTO, SER FELIZ E GANHAR DINHEIRO COM ISSO? Acredito que muita gente é obrigada a trabalhar com determinado tipo de música, principalmente a música comercial, só por dinheiro. A nossa banda ainda segue paralela com nossos empregos comuns, mas o sonho é viver da nossa música, da alegria de ver todos curtindo o nosso som do jeito que ele é.

Ká entre Nós: O que te inspira a compor? Quantas músicas você já compos?
Jeremias Dillenburg:
A minha inspiração vem de relacionamentos afetivos e do estilo de vida que almejo: correr sem pressa na areia de uma praia, sentir o vento no rosto em uma viagem, agradecer ás pessoas que amo todos os dias, surfar até cansar…enfim, felicidade nas coisas mais simples da vida. Já fiz muitas músicas, algumas até já estão perdidas no tempo. Com a banda, já temos música suficiente para o primeiro álbum.

Ká entre Nós: Quais são os planos, objetivos da banda? Mais festivais pela frente? Músicas novas?
Jeremias Dillenburg:
Nosso objetivo mais próximo é a gravação de um E.P. com cinco músicas. Estamos lançando nos próximos dias nossa primeira música gerada por gravação independente, totalmente caseira e numa versão folk. Fora isso, tocamos em bares e pretendemos participar de muitos festivais ainda, sempre buscando o aperfeiçoamento e o reconhecimento! ALOHA

Contatos da banda
www.twolouisandthejay.com
youtube.com/2louisjay
facebook.com/TwoLouisandtheJay

Meus dias de conclave

jornalistaLonge das minhas habituais pautas, os últimos dias foram para mim um conclave, e explico. Morando em um país de minoria católica, acompanhei os passos dos 115 cardeais pelos sites e tvs de diferentes países. Esta foi, sem dúvida, uma experiência importante, um exercício de observação do comportamento da mídia e do impacto que este homem, agora líder de 1,2 bilhão de pessoas já provoca na sociedade.

O primeiro impacto, simplicidade e despojamento. Francisco, o papa, chega pedindo a benção do povo,  se curva a ele, em um gesto de serviço e amor. Seu nome revela o cuidado necessário e urgente com os pobres. Um segundo impacto, as notícias que emergem sobre a ligação do então arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, com a última ditadura militar na Argentina (1976-1983).

Para refutar o segundo impacto, o ativista argentino de direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1980, em entrevista a BBC Mundo afirmou: “Questionam Bergoglio porque dizem que ele não fez o necessário para tirar dois sacerdotes da prisão, sendo ele o superior da congregação de jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos presos e sacerdotes e não eram atendidos”.

O caro leitor deste Ká entre Nós, que muito me honra com a sua presença virtual pode também apontar “a Karla Maria, claro, vai defender o papa porque ela é jornalista católica”… Tenho ouvido isso nesses dias e me sinto na obrigação de esclarecer que sim sou católica apostólica romana, isso faz parte da minha cultura, da minha opção de vida.

Obviamente que os valores que aprendi na Igreja Católica se aplicam diariamente no meu jornalismo, porque valores, ora, são valores, e posso falar sobre eles: amor e respeito ao próximo de toda cor, origem, raça, gênero, credo, compromisso de serviço à sociedade, solidariedade, busca por justiça e dignidade.

Somado a esses valores estão o faro e a alma da jornalista que sempre procura a verdade dos fatos e dos dados à serviço do bem comum, e de acordo com meu compromisso profissional jamais me refutarei a escrever a verdade apurada, ainda que atinja meus “amores, credos ou ideais pessoais”. O que não posso e não farei é entrar na onda dos achismos infundados, do jornalismo preguiçoso e republicar informações sem dados ou provas concretas.

Ser católica não limita ou restringe meu compromisso com a pluralidade e a verdade dos fatos, só reitera meu dever de trabalhar pelo bem comum, sempre, pela verdade, sempre.

Lincoln, política, poder e liberdade

Lincolnnytimes.com_Chego em casa depois de caminhar umas 4 milhas. Foi uma longa caminhada, cerca de 7 quilômetros, voltando de uma tarde de cinema. Na verdade voltando de uma aula de atuação de Daniel Day-Lewis. Não sou crítica de cinema, já arrisquei há alguns anos fazê-lo em curtas metragens, todavia… a tela do cinema hoje se transformou em palco e fez meu caminhar de volta para casa mais reflexivo.

O filme:  Lincoln de Steven Spielberg é baseado no livro Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln (sem tradução para o português), da historiadora Doris Kearns Goodwin, premiada em 1995 com o Pulitzer pela biografia de Franklin Roosevelt (outro ex-presidente norte-americano). Com iluminação e fotografias que te levam ao século 19, o filme retrata os últimos quatro meses de vida do presidente que aprovou a emenda que aboliu a escravidão no país, em 1865.

Spielberg concentra seu olhar e agora o nosso nos gabinetes no poder. É por detrás da fumaça do tabaco que acontecem as negociações, a barganhas de votos por cargos pelos votos dos democratas no Senado americano. Isso no século 19. Entre um diálogo e outro de Lincoln, me lembro do Congresso Nacional Brasileiro. E Não preciso me alongar no motivo…

O detalhe interessante é que o presidente Lincoln era republicano, um partido conservador que não queria o fim da escravatura, já que esta sustentava a atividade econômica do sul do país naquele momento. O crescimento Sulista era baseado no liberalismo econômico que abria todo o mundo às agro-exportações e com mão-de-obra escrava (de origem africana) como base da produção.

No filme, o ator Daniel Day-Lewis, que o protagoniza, é tão extraordinário que nos faz acreditar no verdadeiro desejo presidencial de liberdade e igualdade para todos, o que contudo, é de certa maneira refutado não só pela biografia do presidente, quanto pelos historiadores.

“Lincoln se tornou um dos principais nomes do Partido Republicano, que havia sido fundado principalmente para se opor à escravidão e para ser uma espécie de porta-voz dos interesses industriais mais amplos nos Estados Unidos”, disse Arthur Ávila, doutor em História norte-americana e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), ao jornal Tribuna do Planalto.

Lincoln, explica o professor,  não era um radical, pois antes de chegar à presidência da República sempre se colocou como um anti-escravocata, e não como um abolicionista. A ideia dele era limitar a escravidão aos estados sulistas e impedir seu avanço para os estados do Norte. Ávila lembra ainda que o ex-presidente americano era contrário à expansão dos direitos civis aos negros, pois como a maioria dos homens brancos que viveram em sua época, não acreditava na igualdade entre as três raças.

Como imaginar que 140 anos depois, este país, que questionava a emancipação dos negros, o fim da escravidão e o voto feminino, conta hoje com Barack Obama à Presidência da República e reeleito e ainda, que Hilary Clinton, ex-secretária de Estado já apareça nas pesquisas como nome forte para 2016.

Vale a pena assistir o filme pela bela fotografia e iluminação reveladora. Pela história contada, conquistada e superada, pela emoção e sobretudo pela atuação de Daniel Day-Lewis.

Valeu a pena cada milha caminhada e refletida.