à frente do seu tempo

Santa Dulce era uma mulher muito à frente de seu tempo. Nestes dias em que concedo muitas entrevistas sobre ela, em decorrência de sua Festa litúrgica no dia 13 de agosto, tenho refletido e reafirmado isso. O episódio a seguir demonstra que ela, imbuída por sua missão, não se deixa levar pelas avaliações inapropriadas da autoridade, do bispo, a quem também devia obediência. Quem duvida? Confira aqui.

Quer ler meu livro “Irmã Dulce, a santa brasileira que fez dos Pobres sua vida”? Acesse o site da minha casa editorial, a Paulus.

Você não vai se arrepender.

A vida no convento…

Seguimos compartilhando detalhes da vida da santa Dulce em leitura conjunta de meu livro Irmã Dulce, a santa brasileira que fez dos Pobres sua vida”, (Paulus Editora). Hoje trago a vocês os tempos de convento de Maria Rita que passou pouco mais de um ano no Convento em São Cristóvão (SE).

Lá recebeu o nome de Dulce, em homenagem à mãe, foi separada de sua boneca Celica e escreveu cartas sobre aqueles tempos e suas “tardes de domingo”…

Venha saber mais. Leia comigo mais um trecho de meu livro.

Você encontra meus livros nas livrarias e site www.paulus.com.br.

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Hora do livro com Santa Dulce

A partir de hoje, segunda-feira, até sexta-feira, 13 de agosto, vamos ler juntos trechos de meu livro “Irmã Dulce, a santa brasileira que fez dos Pobres sua vida” (Paulus Editora). Dia 13 celebramos a Festa Litúrgica de Santa Dulce.

Serão trechinhos curtos para você conhecer mais a vida desta santa baiana e quem sabe começar a seguir seus gestos. Não precisa ser católica/ católico para admirar essa mulher não… vem conferir e quem sabe, ler comigo.

Você compra este livro nas livrarias e site da Paulus Editora.

133 anos da abolição da escravatura e CPI da Covid-19

Está no ar o segundo episódio do Ká entre Nós, agora em podcast

A semana passou que nem vimos. Rápido demais pra um tempo que parece não ter fim. Continuamos contabilizando mortes em decorrência da Covid-19. Até aqui são mais de 430 mil mortes. Imaginem… E nossas armas contra esse vírus continuam fragilizadas e ameaçadas. Os cuidados pessoais como uso de máscaras e distanciamento social são diariamente banalizados pelo líder da nação que já está em campanha para sua reeleição.

Uma campanha de morte, uma estratégia para desviar a atenção da sociedade sobre os encaminhamentos e depoimentos recolhidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19. É sobre isso que falo em meu segundo episódio Ká entre Nós agora em podcast, mas não só. Chamo a atenção para os 133 da abolição da escravatura em nosso país e sobre os impactos culturais que a escravidão, um sistema econômico adotado pela Estado brasileiro, causaram e provocaram em nossa sociedade tão, tão racista culturalmente.

As heranças da escravidão continuam flagelando so corpos pretos. Basta abrir os olhos para enxergar. Falo mais sobre isso no podcast.

Racismo, até quando?

Eu não sei você, mas por aqui o peito segue apertado, angustiado. Hoje, uma sexta-feira fria em Guarulhos, depois de uma reunião e um copo quentinho de café, estou aqui sentada – que privilégio – ouvindo o relato de Mirtes. Ouvindo e chorando. Admito. Não é mimimi, como dizem uns, é o sentimento de humanidade comum a todos nós, ou a quase todos.

Mirtes Renata Santana de Souza, essa mulher forte, corajosa, ex-empregada doméstica do prefeito de Tamandaré, uma cidade do Pernambuco, fala da morte de seu pequeno Miguel. Ela fala com tanta dor e saudade. Ele era sua vida, seu orgulho, sua motivação diária

O pequeno Miguel Otávio foi muito cedo e de uma maneira que escancara a classificação que a elite deste país faz dos brasileiros. Miguel tinha apenas cinco aninhos de idade. Um sorriso sapeca, de criança verdadeiramente feliz. Morreu à procura da mãe. Foi abandonado – criminosamente – dentro de um elevador pela patroa da mãe, enquanto sua mãe passeava com a cachorra da família branca, rica.

Será que a patroa Sari Gaspar Corte Real, a primeira dama de Tamandaré, deixaria um sobrinho, um filho dentro do elevador sozinho? Será que ela apertaria o botão do elevador levando o menino para um andar mais alto, afim de que Miguel ficasse “passeando” sozinho dentro do prédio? Você deixaria uma criança sozinha no elevador?

Caímos aqui em algumas reflexões necessárias, indignações, diria. Fosse Miguel uma criança branca seria ele tratado desta maneira? Aquilo que há de mais sagrado, a vida de uma criança, foi banalizada, colocada em risco, para que a patroa, dama da elite pernambucana pudesse continuar fazendo as unhas em casa com sua manicure, em meio a uma pandemia de Covid-19, que até o momento em que escrevo este texto matou mais de 34 mil pessoas no Brasil.

Absurdo a manicure e Mirtes terem de ir até o condomínio rico, em meio à pandemia. Outro absurdo, dentre tantos, foi a demora em conseguir localizar o nome da patroa de Mirtes, porque a polícia preferiu não divulgar. E se fosse o contrário? Se Mirtes fosse a empregada preta que tivesse negligenciado a segurança da filha da patroa? Alguém duvida que ela teria sido levada no camburão e estaria presa provisoriamente, aguardando um julgamento como 43% da população prisional brasileira aguarda. Alguém duvida?

A patroa, a primeira dama, foi indiciada por homicídio culposo, pagou 20 mil de fiança e responde em casa, em liberdade. Na mesma casa em que fazia as unhas, enquanto o pequeno Miguel procurava a mãe e caia de 35 metros de altura.

O fato de a primeira-dama, branca, ter contado com privilégios mesmo sendo a criminosa, corresponde ao cenário existente dentro dos presídios que visitei, onde a esmagadora maioria dos presos são pretos. Observe que são maioria nas cadeias, não porque são os que mais cometem crimes, diferentemente do que racistas têm propagado pela blogosfera, e sim, porque todo o sistema judiciário possui mecanismos racistas que privilegiam os criminosos que são brancos e nãos os prendem. Simples assim.

Vejas as abordagens policiais pelas ruas, pelos aeroportos, pelos elevadores… Há seleção de quem deve ser preso, e morto. Das ruas até os juris. Seleção baseada em preconceitos, estigmas entre as autoridades policiais e jurídicas. E a cor da pele é elemento de decisão. Pergunte aos homens e mulheres pretas com quem você convive e se não convive… escute-os, leia-os. Fuja da ignorância, da alienação.

Enfim, este texto é um desabafo, uma maneira de arrancar do peito tanta indignação diante à banalidade do mal. Miguel, Mirtes, Ágatha, Marcos Vinícius, João Pedro, Amarildo, Marielle, George Floyd e tantas e tantas pessoas morreram e morrem diariamente vítimas de racismo, de um sentimento de superioridade branca, e que coloca os cidadãos que têm mais melanina em um lugar de não-cidadania, de não-vida.

Até quando? Até quando?

#vidasnegrasimportam

A literatura esquecida de Carolina

Divulgação
Maria Carolina

Karla Maria

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 na pequena cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais. Como escritora, foi descoberta tardiamente, aos 43 anos, em 1958, na extinta favela do Canindé, em São Paulo (SP), onde hoje fica o Estádio do Canindé, da Associação Portuguesa de Desportos. Seu descobridor foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do diário Folha da Noite, de maneira acidental. Ambos se conheceram quando ele trabalhava em uma reportagem sobre a favela. Negra, mãe solteira de três crianças, catadora de papel e semianalfabeta, essa improvável escritora havia estudado apenas até a 2a série do curso primário no Colégio Allan Kardec, do Grupo Espírita Esperança e Caridade, na sua cidade natal. Era então uma mulher que descrevia em cadernos encontrados no lixo, meio sebosos, seu percurso desde que deixou Sacramento, aos 17 anos, até chegar à capital paulista em 1947.

Os cadernos acumulados guardavam memória de 15 anos e eram preenchidos em uma tentativa imaginária de escapar das dificuldades diárias e do nervosismo que a tomava quando a fome era intensa. “Enquanto escrevo, vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim, e eu contemplo as flores de todas as qualidades”, revela um trecho extraído deles. “Seria mais uma das milhares de mulheres que existem pelo País não fosse o fato de dar voz àquilo que vivia e via na favela. Seus montes de caderno foram entregues ao jornalista, e ele, com a sensação do furo e a pecha do ‘novo jornalismo’, selecionou as histórias, editou os textos e criou volumes como Quarto de despejo: Diário de uma favelada, em 1960”, escreveu o professor da Universidade de São Paulo (USP), José Carlos Sebe Bom Meihy, coautor do estudo Cinderela negra: A saga de Carolina Maria de Jesus.

Bitita – Quarto de despejo, o livro de estreia, foi lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960 e, devido a seu estrondoso sucesso, teve oito reimpressões no mesmo ano. Em menos de 12 meses, mais de 70 mil exemplares foram vendidos – uma tiragem bem-sucedida, na época, era de aproximadamente 4 mil exemplares. Nenhum autor no Brasil chegara perto desse fenômeno de venda, nem mesmo o campeoníssimo Jorge Amado. Revistas internacionais do porte de Life, Paris Match e Time fizeram reportagens sobre Carolina e o seu livro. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo foi traduzido para 14 idiomas em mais de 40 países, como Dinamarca, Holanda, Argentina, França, Alemanha, Suécia, Itália, passando pela República Tcheca, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e chegando à Rússia, Japão, Polônia, Hungria e Cuba.

A catadora de papel Carolina Maria virava celebridade. E mais: sua literatura chegava ao público em momento que as letras eram um espaço reservado a homens brancos, letrados e, com raras exceções, ricos e em posição social elevada. “Se eu tivesse diploma superior, seria respeitada, mas tenho só dois anos de grupo. Sou semianalfabeta”, desabafou Carolina. O mesmo sucesso, porém, não foi alcançado pelos seus livros seguintes Casa de alvenaria: Diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da fome (1963) e Provérbios (1963). Neste mesmo ano, comprou um pedaço de terra em Parelheiros, bairro periférico da zona sul de São Paulo, e iniciou a construção de uma casa. Plantava ali sua horta e criava galinhas, mas ainda passando por inúmeras dificuldades. Sem nunca deixar de escrever. Em 1975, entregou os manuscritos sobre sua infância e adolescência para duas jornalistas francesas que culminaram no livro Journal de Bitita ou Diário de Bitita.

Permanência – “Passados cem anos de seu nascimento e 37 anos de sua morte, Carolina resiste, sobretudo, nos Estados Unidos, onde todos os seus livros estão disponíveis”, afirma o escritor e professor de Literatura Hispano-Americana, na Universidade Federal de São Carlos (Ufiscar), Wilson Alves Bezerra. Para ele, Carolina, no Brasil, ainda é tratada como objeto de estudo.

Por ocasião do centenário de nascimento da escritora, celebrado este ano, o jornalista Audálio Dantas recontou os passos da descoberta, do perfil de Carolina e de como sua literatura foi aceita no cenário brasileiro. “A maioria ‘consumiu’ Carolina como uma novidade, uma fruta estranha. Carolina, como objeto de consumo, passou, mas a importância de seus livros, um documento sobre os marginalizados, permanece”, sentencia. A crítica literária concorda. “Carolina é uma escritora fundamental para entender a literatura brasileira feita, em sua grande maioria, de autores brancos de classe média que dominavam a língua formal. Ela mostra a outra face dessa história, que passa a ser vista do ponto de vista dela, de baixo”, explica a professora da Universidade de Brasília (UnB) Germana Henriques Pereira, autora de O estranho diário de uma escritora vira-lata.

Carolina Maria não conseguiu escapar de seu destino. Cinco anos após o sucesso de Quarto de despejo, ela voltou a catar lixo. “Estou no inferno, não saiu nada do jeito que desejei e eu não gosto de ser teleguiada. Eles é que administram o que arrecado”, escreveu na época. Morreu pobre em 13 de fevereiro de 1977, antes dos cem anos que desejara viver para ler todos os livros do mundo.

Publicado originalmente na Revista Família Cristã, edição de dezembro de 2014.

Indígenas se mobilizam pela garantia de direitos

indigenasNesta semana pela Mobilização Nacional Indígena, estão confirmados atos em pelo menos quatro capitais (Brasília, São Paulo, Belém e Rio Branco), além de cidades no interior .

“O objetivo é protestar contra o ataque generalizado aos direitos territoriais dessas populações que parte do governo, da bancada ruralista no Congresso e do lobby de grandes empresas de mineração e energia”, aponta a mobilização.

Apoiam o ato o ISA, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), mas também por outros movimentos sociais e organizações da sociedade civil, como o Greenpeace, a Coordenação Nacional de Comunidades Quilombolas (Conaq) e o Movimento Passe Livre (MPL).

Em maio, estive na região metropolitana de Porto Alegre (RS) pela Revista Família Cristã, e lá com o apoio d Cimi flagramos situações de violação aos direitos indígenas, que vivem às margens das rodovias gaúchas.

A reportagem completa sobre os Guarani Mbya está no blog da Revista.

 

 

 

Gente simples, fazendo coisas pequenas na construção da paz

Foto de Paulo Flores / CEBs fazem memória de seus mártires
Foto: Paulo Flores / Momento das Dores e Alegrias de Maria

CEBs a caminho de Crato para seu 13. Intereclesial

O 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) já começou, ao menos para os 400 delegados do Estado de São Paulo, que participaram neste fim de semana, dias 21 e 22, em Pirajuí, Diocese de Lins, de um encontro preparatório e de envio para o encontro nacional das CEBs, que acontecerá de 7 a 11 de janeiro, de 2014, em Juazeiro do Norte (CE), na “Terra de Padim Cícero”.

A Arquidiocese de Sao Paulo foi representada por cerca de 90 pessoas, entre delegados (79) e convidados (11). As regiões episcopais Brasilândia e Belém contam com o maior número de delegados, 38 cada. Assessorados pelos padres Benedito Ferraro e Nelito Dornelas Justiça, os delegados refletiram sobre a identidade das CEBs e a Profecida a serviço da Vida. “Quando falamos de CEBs falamos de fé e vida. O nosso compromisso social é a luta pela justiça”, aponta carta final do Encontro.

O tema trabalhado ao longo dos dias, é o mesmo que norteará  a dinâmica no Ceará, em janeiro de 2014: Justiça e Profecida a Serviço da Vida, CEBs Romeiras do Reino no Campo e na cidade. É tradição, as CEBs de todo o Brasil partilharem suas experiências de comunidade de fé, após a análise de conjuntura da realidade que se vive eclesial e políticamente. E, é diante dessas realidades, e em memória dos Mártires da Igreja, que estas lideranças assumem compromissos para a Construção do Reino, com o pé fincado na realidade, em geral do mais empobrecido.

Para Jefferson Rodrigues, 21 anos, membro da Pastoral da Juventude e um dos delegados da Arquidiocese, o encontro deixou uma mensagem. “Que todos nós cristãos possamos estar sempre a serviço da vida. Que saiamos do nosso comodismo, e debaixo dos telhados das igrejas, para ir ao encontro da verdadeira Igreja, que está nas ruas, no campo e na cidade”.

Jefferson também esteve no Rio de Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude, para se encontrar com o papa Francisco, que vem reforçando a cada dia, seu desejo de ver uma Igreja mais próxima dos pobres. Os delegados de todo o Estado foram acolhidos pelo bispo de Lins,  dom Irineu Danelon e acompanhados pelo bispo referencial das CEBs, dom José Luiz Bertanha.

Karla Maria, publicada no Jornal O SÃO PAULO.

às margens da estrada e da história

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Foto Karla Maria I BR 290 – Acampamento Arroio Divisa

Em maio, estive cortando as estradas do Rio Grande do Sul para realizar reportagens que mexem com a história daquela povo, com a história que construiu e garantiu o jeito peculiar de ser do gaúcho.

Uma reportagem especial, que acaba de ser publicada na edição impressa da Revista Família Cristã, traz a situação de três acampamentos indígenas dos Guarani M’bya, às margens das rodovias RS 040, BR 116 e BR 290. Um contexto de extrema pobreza e abandono dos poderes públicos.

Convido os leitores a desvirem o olhar a estes povos, cerca de 36 mil brasileiros e brasileiras que vivem no estado gaúcho.

Foto de Guilherme Klein I dona Joventina e a repórter
Foto de Guilherme Klein I dona Joventina e a repórter

Também para a Revista Família Crista, desta vez para sua página eletrônica, estive em Espumoso, cidade à 5 horas de ônibus de Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul.

Ali, conheci dona Joventina, uma senhora centenária, que traz em seu olhar, parte da história do Brasil e das consequências insuperáveis causadas pela escravidão.

Fica o convite para as leituras do texto, das fotos e do vídeo, que irão dizer mais do que minhas perseverantes palavras.