Jornalismo é…

GabrielGarciaMarquez“Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la.

Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são.

Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.”

De Gabriel Garcia Marquez para todos meus colegas, neste 7 de abril, Dia do Jornalista.

Karla Maria, uma jornalista

Meus dias de conclave

jornalistaLonge das minhas habituais pautas, os últimos dias foram para mim um conclave, e explico. Morando em um país de minoria católica, acompanhei os passos dos 115 cardeais pelos sites e tvs de diferentes países. Esta foi, sem dúvida, uma experiência importante, um exercício de observação do comportamento da mídia e do impacto que este homem, agora líder de 1,2 bilhão de pessoas já provoca na sociedade.

O primeiro impacto, simplicidade e despojamento. Francisco, o papa, chega pedindo a benção do povo,  se curva a ele, em um gesto de serviço e amor. Seu nome revela o cuidado necessário e urgente com os pobres. Um segundo impacto, as notícias que emergem sobre a ligação do então arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, com a última ditadura militar na Argentina (1976-1983).

Para refutar o segundo impacto, o ativista argentino de direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1980, em entrevista a BBC Mundo afirmou: “Questionam Bergoglio porque dizem que ele não fez o necessário para tirar dois sacerdotes da prisão, sendo ele o superior da congregação de jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos presos e sacerdotes e não eram atendidos”.

O caro leitor deste Ká entre Nós, que muito me honra com a sua presença virtual pode também apontar “a Karla Maria, claro, vai defender o papa porque ela é jornalista católica”… Tenho ouvido isso nesses dias e me sinto na obrigação de esclarecer que sim sou católica apostólica romana, isso faz parte da minha cultura, da minha opção de vida.

Obviamente que os valores que aprendi na Igreja Católica se aplicam diariamente no meu jornalismo, porque valores, ora, são valores, e posso falar sobre eles: amor e respeito ao próximo de toda cor, origem, raça, gênero, credo, compromisso de serviço à sociedade, solidariedade, busca por justiça e dignidade.

Somado a esses valores estão o faro e a alma da jornalista que sempre procura a verdade dos fatos e dos dados à serviço do bem comum, e de acordo com meu compromisso profissional jamais me refutarei a escrever a verdade apurada, ainda que atinja meus “amores, credos ou ideais pessoais”. O que não posso e não farei é entrar na onda dos achismos infundados, do jornalismo preguiçoso e republicar informações sem dados ou provas concretas.

Ser católica não limita ou restringe meu compromisso com a pluralidade e a verdade dos fatos, só reitera meu dever de trabalhar pelo bem comum, sempre, pela verdade, sempre.

Folha de S. Paulo e a entrevista de Leonardo Boff não publicada

lboffLeonardo Boff, concedeu uma entrevista à jornalista Patricia Britto, da Folha de S. Paulo. O trabalho foi publicado dia 15 de fevereiro, às 05h30 e está disponível neste link com o título Igreja precisa de pontífice ‘mais pastor que professor’, diz Leonardo Boff.

Hoje, às 16h16, horário de Brasília, recebi uma longa entrevista do teólogo à disposição em meu e-mail. No início do documento consta a seguinte mensagem do próprio teólogo. “Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então publico a entrevista inteira aqui no blog para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas: Lboff”.

Aos interessados em ler a entrevista, ela está disponível no blog no teólogo. Aos leitores, vale lembrar que independentemente do teor da entrevista (e aqui não estou julgando o jornal, a réporter ou o entrevistado) é muito comum não serem publicadas entrevistas na íntegra, e os motivos são diversos e não se excluem (falta de vontade, interesse, espaço, tempo…).

Por ser Leonardo Boff e um tema que muito me interessa e penso que também aos leitores do Ká entre Nós, reforço o convite à leitura aqui.

Fim de um capítulo bom

Nos últimos 2 anos e alguns meses registrei muitas e muitas histórias. Voltando às reportagens encontro alguns excessos, uma literatura meio rasa, observo em uns a falta de dados, em outros um anseio ingênuo por justiça. Letras que esperavam a maturidade desta Karla, no texto e na alma.

Visitando os inseparáveis bloquinhos de anotações – e só Deus sabe como consigo entendê-los – vejo também muitas vozes, de gente de toda sorte, cor, formação. Gente letrada, gente do povo, gente com teto, sem terra, preso, prostituta, mãe, padre, desembargador, índio, nigeriano, refugiado, gente com esperança, gente sem amanhã….

Em minhas pautas vi  desespero, fogo e morte, mas não nego: presenciei verdadeiros milagres, nascimentos, vida, Vitória! Segurei Vitória no colo e na verdade, ela permanece comigo, embora tenha virado uma estrela. Essa, talvez seja a maior graça de ser jornalista: trabalhar com a vida, que para mim é sim obra de Deus.

Ela, a vida, foi sem dúvida alguma criada para a experimentação. Assim como um texto que  surge, ambos precisam de objetivos, concatenação de ideias e também de certas divagações, de rascunhos e muita, muita borracha. No meu caso há necessidade de inspiração, transpiração e um bom par de óculos – exigência que me acompanha desde os 5 anos.

A minha vida de repórter no O SÃO PAULO foi assim de muita descoberta e muita borracha nos textos, nas perguntas e nas posturas. Aprendi ali, cercada por dois prêmios Vladmir Herzog, respirando a história recente desse país, respirando o Evangelho de Jesus Cristo, que acreditem os colegas ateus, é aula de cidadania, de humanidade.

Por isso, por tanto aprendizado, por tanto questionamento interno e alimentada pelas relações que nasceram ao longo desses anos com fontes e colegas de redação, que encerro esse capítulo feliz. Sou a mesma, talvez com mais perguntas, mas certa sim, de que muitas laudas me esperam para ouvir tantos e tantas outras pessoas, para tantas outras denúncias e boas histórias.

Aos colegas Daniel Gomes, Dudu Cruz, Edcarlos Bispo, Ellen, Elvira Freitas, Fernando Geronazzo, Izilda, Jovenal, Jucelene Rocha, Luciney Martins, Nayá Fernandes e Rafael Alberto o meu muito obrigada pelo convívio, pela troca, pelo carinho. Ao padre Antonio Aparecido Pereira e a Maria das Graças (Cassia) o meu mais profundo agradecimennto pelo voto de confiança, por apostarem em alguém que chegou com muito mais vontade do que prática jornalística.  A você que já me concedeu entrevistas e informações, que me confiou sua história, sua dor e indignação, o meu muito, muito obrigada.

Encerro esse tchau, lembrando que agora e ainda mais, nos veremos por aqui, no Ká entre Nós! É isso, frio na barriga, sonhos na cabeça e no coração, bloquinho na mão, é vida que segue.

Karla Maria

Dom Orani fala sobre presidência do Conselho de Comunicação

Karla Maria

Dom Orani João Tempesta, arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro tomou posse dia 8, da presidência do Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão auxiliar ao Congresso Nacional. Entre suas funções, o Conselho auxilia o Senado em temas como a liberdade de expressão, regulamentação da propaganda de agrotóxicos, bebidas alcoólicas, tabaco, medicamentos e terapias, diversões e espetáculos públicos, concessões públicas e programação das TVs e rádios brasileiras. Confira entrevista exclusiva de dom Orani, que permanece no cargo por dois anos.

O SÃO PAULO – O que que representa para a Igreja Ca- tólica, a escolha do senhor a presidente do Conselho de Comunicação Social? E para o senhor?
Dom Orani Tempesta – Recebi surpreso a nomeação e mais surpreso ainda a eleição por aclamação para a presidência. Como já tinha pertencido ao Conselho durante a minha missão nessa área na CNBB creio que, ao reativar o CCS do Congresso pensaram em meu nome. Porém a escolha pelo Congresso Nacional representa um reconhecimento da necessidade da maior parte da população ser representada no CCS, e acredito, também de todos os que crêem e sabem da importância da mídia na formação do povo Brasileiro. Para mim é uma grande responsabilidade para tentar corresponder a uma coordenação e aconselhamento de tantas situações conflitantes e disputadas que ocorrem nesse meio.

O SÃO PAULO- O que representa ao Estado brasileiro ter um bispo católico presidindo o Conselho de Comunicação Social? O se- nhor foi nomeado por unanimidade… há uma sede ou necessidade de mais valores evangélicos nos meios de comunicação?
Dom Orani- É o reconhecimento do estado brasileiro da importância do povo que tem fé, e nesse ponto não vejo apenas o bispo católico, mas uma pessoa que sabe da sensibilidade de todos os que acreditam em Deus nesse país, seja qual for a sua religião. A realidade da presença religiosa na mídia se faz notar e sabemos também da necessidade que todos os cidadãos desse país tenham sua voz e vez para utilizar o meio de comunicação.

O SÃO PAULO – Há os que criticam o proselitismo religioso nas rádios e tvs brasileiras, o senhor concorda? não? Qual sua avaliação sobre o uso das concessões públicas pelas diversas religiões?
Dom Orani –
Creio que existe de tudo nas rádios e tvs brasileiras. Não só proselitismo religioso, mas também do ateísmo, e tantas outras situações que necessitam de discernimento sobre o alcance de cada responsabilidade. Dentro da legislação brasileira todos os cidadãos tem seus direitos, não importando sua etnia, religião, posição social, posição política. De outra forma corremos o risco de excluir cidadãos dos plenos direitos civis.

O SÃO PAULO – Como telespectador, o senhor está satisfeito com a qualidade da programação das rádios e tvs brasileiras? Onde há necessidade de algum tipo de regulação?
Dom Orani – Todos sabemos que a tv aberta vive dos patrocinadores e com isso, muitas vezes fica refém da audiência. E nesse sentido sentimos a necessidade de uma melhoria da cultura e educação atuais para que influa nas opções de tv aberta e também que a mesma tenha coragem de dar opções inteligentes aos seus ouvintes e telespectadores para fazer aumentar o nível cultural. Situações que vão contra a constituição brasileira ou exageros de apelação inútil precisariam encontrar caminhos para que esses meios sejam expressão de um povo que sabe de sua responsabili- dade na sociedade mundial.

O SÃO PAULO – Os trabalhos do Conselho começam em setembro, o senhor já obteve a pauta? O marco regulatório é a grande preocupação do Conselho neste momento?
Dom Orani – Estamos elaborando a pauta. No primeiro momento iremos tomar conhecimento dos vários projetos sobre comunicação em tramitação no congresso nacional. No regulamento do CCS é colocado que muitas pautas provêm do Congres- so Nacional que consulta o CCS. Sem dúvida que o marco regulatório é uma grande preocupação, mas também muitos outros aspectos do CCS. Esperamos deixar um legado para o próximo CCS em sua realização e composição.

O SÃO PAULO – O senhor acredita, que de alguma maneira, o trabalho junto à Pastoral da Comunicação agregou-lhe conhecimento sobre o tema, e poderá servir de bagagem para o trabalho no Conselho? Como?
Dom Orani –
Sem dúvida que meu trabalho com os meios de comunicação desde a diocese de origem e depois pelas outras que passei e pelos trabalhos nessa área nos regionais, até chegar a ser eleito por dois mandatos nessa comissão na CNBB juntamente com o contato com os que trabalham na comunicação foi decisivo para que eu possa cumprir bem esse mandato enquanto assim puder e o congresso nacional o desejar.

Publicada na ediçåo 2915 de O SÅO PAULO.

Cidade ganha conselho municipal indígena

Entidade buscará efetivação de políticas pela dignidade dos povos

O município de São Paulo cona com três aldeias indígenas: Tenonde Porã e Krukutu (cerca de mil pessoas), em Parelheiros e Comunidade Jaraguá, na zona norte (cerca de 300 pessoas). As centenas de famílias indígenas passaram a contar, desde o dia 30 de janeiro, com o Conselho Municipal dos Povos Indígenas, que tem como objetivo e função propor diretrizes, procedimentos e ações relativas à adoção, implementação, coordenação e avaliação de políticas e medidas que promovam a melhoria da qualidade de vida dos povos indígenas no município de São Paulo, buscando assegurar o direito desse segmento a uma existência digna e à preservação de sua cultura.

O conselho está composto por 18 pessoas, nove do poder público municipal e nove indígenas representantes dos povos: dois da etnia Guarani e um de cada uma das seguintes: Terena, Krenak, Kaingang, Pankararu, Fulni-ô, Xucuru e Xucuru-Cariri e Pankararé.  Maria dos Santos Arapoty, presidente do  conselho, falou à agência “Nós da Leste”, sobre as principais reivindicações dos índios que moram na cidade de São Paulo. “Somos um povo muito sofrido, não temos nossas terras, não temos o espaço de antigamente, não temos nossa dignidade. Está nascendo uma criança e a gente vai fazer valer os nossos direitos. Espero que minha participação no conselho melhore a vida de todos na comunidade.

O conselho terá autonomia de sugerir medidas que visem o aprimoramento das políticas de saúde e educação voltadas à população indígena e à promoção de programas, projetos e ações nas áreas de cultura, habitação, segurança alimentar, meio ambiente, terras, proteção ao patrimônio material, dentre outras. Para a vereadora Juliana Cardoso (PT), que presidiu a cerimônia de posse, o conselho deve “trabalhar na efetivação de políticas públicas nas mais diversas áreas sociais como saúde, moradia e educação destinadas à população indígena”, disse, destacando a necessidade de respeitar a tradição, cultura e organização social dos indígenas.

A vereadora foi a autora do Projeto de Lei nº 382/09, que deu origem ao conselho, que também poderá estudar e diagnosticar os problemas das comunidades/aldeias indígenas, podendo receber e encaminhar denúncias de violação de direitos dos povos indígenas aos órgãos competentes. Para a antropóloga Soraia Alexandra Zanzini, dos Centros de  Educação e Cultura Indígenas (CECI) e Centros de Educação Infantil Indígena (CEII) do município de São Paulo, o conselho municipal “vem fortalecer as lutas indígenas nos ambitos das diversas secretarias, como a de transportes, educação, assistência e saúde, para qualificar a vida dessas pessoas”.

Indígenas de diversos estados estiveram presentes na posse do conselho municipal. “Queremos unificar os povos originários da natureza. A nossa ideia é unificar os povos indígenas do Brasil, para juntos conquistarmos nossa terra, nossos direitos”, disse Sandi Calapalo, que veio do alto Xingu. Por telefone, Benedito Prezia, coordenador da Pastoral Indígena da Arquidiocese de São Paulo, destacou a importância dessa conquista, vendo como fruto da mobilização dos próprios indígenas.

Povos Indígenas no Brasil

Hoje, no Brasil, vivem cerca de 818 mil indígenas, cerca de 0,4% da população brasileira, segundo dados do Censo 2010. Estão distribuídos entre 688 terras indígenas e algumas áreas urbanas. Há também 82 referências de grupos indígenas não-contatados, das quais 32 foram confirmadas. Das 688 terras, 145 estão em estudo, 24 delimitadas, 51 declaradas, 19 homologadas, 34 encaminhadas como terra indígena adquirida, em processo de aquisição e 415 regularizadas.

No Estado de São Paulo, segundo dados da Comissão Pró Índio-(SP), existem 31 terras indígenas, a maior parte delas (28), habitada exclusivamente pelos Guaranis. Os Kaingang, Krenak e Terena encontram-se em três terras indígenas do estado, entre as quais se inclui a TI Araribá ocupada pelos Terena, Kaingang e Guarani. Como no restante do país, no Estado de São Paulo, a principal demanda das comunidades indígenas é a regularização fundiária de seus territórios.

Matéria publicada no O SÃO PAULO, edição 2889

Jogo de Ideias – Série Grandes Repórteres

O Itaú Cultural promove nos dias 1 e 2 de dezembro, o programa de TV Jogo de Ideias. Ele  vai mostrar o trabalho de grandes profissionais da reportagem brasileira, com experiências diversificadas e de diversas gerações, como Audálio Dantas (homenageado da série) José Hamilton Ribeiro, Eliane Brum, Ricardo Kotcho, Leonardo Sakamoto, Natália Viana, Rosângela Ramos estarão presentes nas mesas de debate das gravações do programa. Perguntas abertas ao público.
O encontro desses jornalistas vai permitir refletir sobre este momento em que o jornalismo muda, mas a reportagem não. A reportagem, ofício nascido do espanto, como a filosofia, mas que vai escarafunchar as periferias da terra e do homem para buscar sua matéria-prima, segue exigindo o mesmo de quem a ela ousa se entregar: olhar e escuta. Presença. As novas mídias mudaram as relações de poder entre o Estado, a sociedade e a imprensa, e ampliaram o número e a diversidade dos narradores da vida cotidiana. Nesse mundo novidadeiro e mutante, ao contrário do que dizem os apocalípticos, a reportagem se fortalece. A curadoria é da jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum e a apresentação do programa: jornalista Claudiney Ferreira.

Programação
Dia 1 dezembro quinta 18h – Natália Viana e José Hamilton Ribeiro
20h – Audálio Dantas é entrevistado por José Hamilton Ribeiro, Ricardo Kotscho, Claudiney Ferreira e Eliane Brum

Dia 2 dezembro sexta 18h – Leonardo Sakamoto e Ricardo Kotscho 20h – Audálio Dantas, Claudiney Ferreira e Eliane Brum entrevistam Rosângela Ramos Serviços
LOCAL: Itaú Cultural – Av. Paulista, 149 [metrô Brigadeiro] – São Paulo | SP. Entrada franca.
INGRESSOS: começam a ser distribuídos 30 minutos antes da primeira sessão (um ingresso dá direito a assistir às duas gravações do dia).
COMO SE INSCREVER: envie e-mail para itaucultural@comunicacaodirigida.com.br e apenas mencione o seu nome completo e atividade que exerce. Você receberá uma confirmação de presença e seu nome entrará na lista da Recepção do evento.
Vagas limitadas: 247 lugares
CERTIFICADO: carga horária de 6 horas.

O Homenageado
O grande homenageado da série é Audálio Dantas, jornalista que conta o Brasil – e é contado por ele. É, ao mesmo tempo, protagonista da História, como cidadão, e contador de histórias reais, como jornalista. Para a curadora da série, Eliane Brum. “ o passado contém uma dose de dignidade maior porque ele esteve lá, mas Audálio segue fazendo sua parte para desenhar o futuro. Não fosse o fato de as solas dos seus sapatos se manterem gastas, e as pontas um tanto empoeiradas, seria plausível acreditar que Audálio tem rodinhas nos pés. Entre as muitas qualidades que fizeram dele um dos grandes repórteres do século XX, encontra-se uma bem rara: a de manter a mente livre das teias de aranha e dos suspiros da nostalgia, sempre ansioso por estar de passos dados com o mundo e metendo o nariz onde é – e não é – chamado.”

Os entrevistados
Audálio Dantas é jornalista nascido em Tanque D’ Arca (AL). Iniciou sua carreira no início da década de 50, como repórter da Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), na capital paulista, passando depois pelas redações das revistas O Cruzeiro, onde foi redator e chefe de reportagem; Quatro Rodas, como editor de turismo e redator-chefe; Realidade, como redator e editor; Manchete, como chefe de redação; e Nova como editor. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e também da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ), além de vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Atualmente é diretor da revista Negócios da Comunicação e dedica-se a criação de produção de projetos culturais.

José Hamilton Ribeiro é jornalista há mais de 50 anos, tendo se especializado em cobertura de guerra, que fez para veículos como Realidade, Folha de S.Paulo e Rede Globo. Autor de 15 livros derivados de suas reportagens, atualmente atua na Globo, como repórter e editor do programa Globo Rural.

Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP e ex-professor na USP, trabalhou em diversos veículos de comunicação, cobrindo os problemas sociais brasileiros. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo. Mantém o blog http://blogdosakamoto.uol.com.br/.

Eliane Brum, curadora da série Repórter, é repórter, escritora e documentarista. Tem quatro livros publicados: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém Vê, O Olho da Rua – Uma Repórter em Busca da Literatura da Vida Real e um primeiro romance, Uma Duas. Estreou no cinema de documentário como codiretora e corroteirista de Uma História Severina e em 2010 codirigiu Gretchen Filme Estrada. Atualmente é colunista do site da Revista Época (http://revistaepoca.globo.com/palavrachave/eliane-brum/).

Natália Viana é jornalista há pouco mais de cinco anos e representa a nova geração de repórteres. É uma das fundadoras da Agência Pública ( http://apublica.org/ ), uma das primeiras experiências no Brasil de produção de jornalismo investigativo independente sem fins lucrativos. Parceira da Wikileaks ( http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/about/ ), fez parte da equipe que selecionou, traduziu e divulgou os documentos secretos da diplomacia americana que abalaram o planeta a partir de 2010.
Ricardo Kotscho é jornalista desde a década de 1960, tendo passado por boa parte dos principais veículos de comunicação do Brasil, seja de mídia impressa ou TV. Foi repórter, editor, chefe de reportagem e diretor de redação. Foi correspondente na Europa nos anos 1970 e exerceu o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República no governo Luiz Inácio Lula da Silva, no período 2003-2004. Tem 19 livros publicados, entre os quais Do Golpe ao Planalto- Uma vida de Repórter e A Prática da Reportagem. Atualmente é repórter especial da revista Brasileiros, comentarista do Jornal da Record News e mantém o blog http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/ . Rosângela Ramos é repórter do jornal Boca de Rua, de Porto Alegre, que completou 11 anos de existência e é um dos poucos no mundo em que moradores de rua são ao mesmo tempo jornalistas e jornaleiros: elaboram a pauta, entrevistam, fotografam e depois vendem o jornal ( http://bocaderuanainternet.blogspot.com/ ).

Processos do tempo da ditadura são repatriados

Conselho Mundial das Igrejas entrega ao Ministério Público Federal, documentos sobre o período militar

A nova geração poderá ter acesso a documentos que revelam parte da história da ditadura militar (1964-1985) no país, e isto graças à corajosa iniciativa de dom Paulo Evaristo Arns, que durante o regime de exceção coordenou a cópia  clandestina, de processos judiciais militares. Enviados à Suíça, na década de 80, o material foi repatriado no dia 14, na sede do Ministério Público Federal, na capital paulista e entregue pelo Conselho Mundial das Igrejas (CMI) a Roberto Gurgel, procuradorgeral da República.

São 707 processos, um milhão de cópias de documentos e 543 rolos de microfilmes, referentes aos processos da Justiça Militar, que sob a coordenação de dom Paulo, do pastor presbiteriano Jaime Wright e da advogada Eny Raimundo Moreira, no período de 1979 e 1985 copiavam os processos, nas 24h em que   estavam sob posse dos advogados, e então enviavam de Brasília para São Paulo, onde eram organizados por voluntários e enviados para o exterior sob os cuidados do Conselho Mundial de Igrejas.

Com a repatriação, o Arquivo Público do Estado de São Paulo digitalizará todo o arquivo, e em um ano estará à disposição da sociedade brasileira para consulta pública  no site do Ministério Público Federal. “Mais do que contar um capítulo da história das pessoas que resistiram contra o Estado autoritário, esse acervo apresenta ao povo brasileiro, um triste capítulo de arbítrio na justiça e nos órgãos de segurança pública”, disse Marlon Alberto Weichert, procurador regional do Ministério Público Federal.

Foto: Elvira Alegre | Dom Paulo Evaristo Arns, então Cardeal Arcebispo de São Paulo (centro) e Franco Montoro, líder da oposição ao governo no Senado (à esquerda), compareceram ao velório de Herzog no Hospital Albert Einstein.

Durante o ato, em São Paulo, quatro pessoas ligadas e responsáveis pela iniciativa das cópias foram homenageadas. Dom Paulo Evaristo Arns foi o primeiro. Ausente no ato, enviou mensagem dizendo que não compareceria porque não merecia homenagens, mas mesmo ausente, o arcebispo emérito foi aplaudido de pé, durante alguns minutos, pelos mais de 300 participantes, entre:  desembargadores,  procuradores da república, militantes dos movimentos sociais, ex-torturados, e ex-presos políticos, agentes de pastorais sociais, lideranças de várias denominações cristãs e jornalistas.

 Assim como dom Paulo, o reverendo Jaime Wright, representado na ocasião por sua filha, foi homenageado. O pastor supervisionava a microfilmagem dos  documentos retirados dos arquivos militares e assumia o risco de viajar diversas vezes para a Suíça para depositar os rolos de filme em local seguro. O terceiro homenageado foi o ex-Secretário de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vanucchi, que aproveitou a ocasião para falar da Comissão da Verdade: “o Poder Legislativo não pode perder a chance de aprovar a Comissão da Verdade, pois já temos 22 anos de democracia consolidada no Brasil”, disse Vanucchi.

Para Antonio Funari Filho, presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo “a Comissão da Verdade é fundamental para que a nação tenha conhecimento de si mesma. A realidade está nesses arquivos”, revelou. A  repatriação dos arquivos da ditadura militar desembarca no Brasil, em um    momento em que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com o apoio de Fernando Collor de Melo (PTB-AL) defende a manutenção do sigilo eterno sobre documentos considerados ultrassecretos, ambos integram a base aliada.

“Nossa presidente foi vítima da ditadura, se ela for à favor desse sigilo, estará traindo sua própria história, é evidente que Sarney e Collor estão se defendendo dos crimes que praticaram”, afirmou Waldemar Rossi, membro da Pastoral  Operária Arquidiocesana, que por anos lutou ao lado de dom Paulo contra a ditadura. Eny Raimundo Moreira, advogada idealizadora do Projeto Nunca Mais também recebeu homenagem, e a estendeu a dom Paulo: “Dom Paulo não está falando a verdade, ele merece todas as homenagens. Quero que ele receba este recado: o senhor foi aplaudido de pé duas vezes por este auditório”.

SAIBA MAIS SOBRE
 PROCESSOS
DA DITADURA MILITAR

Livro

Brasil Nunca Mais:
Um Relato para a História
Prefácio do cardeal dom Paulo Evaristo Arns
Editora Vozes

 

Sites

Armazém memória
Ministério Público Federal

Matéria publicada no O SÃO PAULO

Por que os jornalistas estão adoecendo mais

Por Elaine Tavares*

O psicólogo, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem.

O trabalho ouviu dezenas de profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do método de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de rádio, TV, impresso e assessorias de imprensa. E, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina – que aconteceu de 23 a 25 de julho – evidenciando assim que esta é uma situação que se expressa em todo o país.

Segundo Heloani a mídia é um setor que transforma o imaginário popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito à própria visão do que seja o jornalista. Quem vê a televisão, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista é de puro glamour.

A pesquisa de Roberto tira o véu que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria é completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo está em sofrimento pelo que faz, o que na prática quer dizer que, amando o jornalismo eles não se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizarem outra coisa, a qual odeiam. Daí a doença! Um dado interessante da pesquisa é que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo é formada por mulheres e, entre elas, a maioria é solteira, pelo simples fato de que é muito difícil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os horários da profissão.

Nesse caso, a solidão e a frustração acerca de uma relação amorosa bem sucedida também viram foco de doença. Heloani percebeu que as empresas de comunicação atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gerações dentro das empresas. Como os mais velhos não tem mais saúde para acompanhar o ritmo frenético imposto pelo capital, os patrões apostam nos jovens, que ainda tem saúde e são completamente despolitizados.

Porque estão começando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. “Os patrões adoram, porque eles não dão trabalho”. Outro elemento importante desta “jovialização” da profissão é o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas são muito jovens, eles não tem toda uma bagagem de conhecimento e experiência para adentrar por estas veredas.

Isso aparece também no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou Cásper Líbero (no caso de São Paulo) perdem feio para as “uni”, que são as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo país afora. “É uma formação muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado”.

Assim, os jovens vão chegando, criando aversão pelos “velhos”, fazendo mil e uma funções e afundando a profissão. Um exemplo disso é o aumento da multifunção entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a idéia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc… A jornada de trabalho, que pela lei seria de 5 horas, nos dois estados pesquisados não é menos que 12 horas. Há um excesso vertiginoso. Para os mais velhos, além da cobrança diária por “atualização e flexibilidade” há sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego.

Conforme a pesquisa, os jornalistas estão sempre envolvidos com uma espécie de “plano B”, o que pode causa muitos danos a saúde física e mental. Não é sem razão que a maioria dos entrevistados não ultrapasse a barreira dos 20 anos na profissão. “Eles fatalmente adoecem, não agüentam”. O assédio moral que toda essa situação causa não é pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifunção, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas funções, as pessoas reprimem emoções demais, que acabam explodindo no corpo. “Se há uma profissão que abraçou mesmo essa idéia de multifunção foi o jornalismo. E aí, o colega vira adversário. A redação vive uma espécie de terrorismo às avessas”.

Conforme Heloani, esta estratégia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais é do que a proposta bem clara de que todos são absolutamente substituíveis. A partir daí o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. “Por isso os problemas de ordem cardiovascular são muito frequentes. Hoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fenômeno da morte súbita começam a aparecer de forma assustadora, além da sistemática dependência química”. O trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro 93% dos jornalistas já não tem carteira assinada ou contrato. Isso é outra fonte de estresse. Não bastasse a insegurança laboral, o trabalhador ainda é deixado sozinho em situações de risco nas investigações e até na questão judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades os jornalistas não tem tempo para a família, não conseguem ler, não se dedicam ao lazer, não fazem atividades físicas, não ficam com os filhos.

Com este cenário, a doença é conseqüência natural. O jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das relações de poder dos veículos. No mais das vezes estes trabalhadores não tem vida pessoal e toda a sua interação social só se realiza no trabalho. Segundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estão na fase da exaustão, o que significa que de cada quatro jornalistas, um está prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e física causada pelo trabalho.

Doenças como síndrome do pânico, angústia, depressão são recorrentes e há os que até pensam em suicídio para fugir desta tortura, situação mais comum entre os homens. O resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclusão óbvia. As saídas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores já não podem mais ser individuais. Elas não dão conta, são insuficientes.

Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrutíveis, já se pode notar uma mudança de comportamento na medida em que também vão adoecendo por conta das pressões. “As saídas coletivas são as únicas que podem ter alguma eficácia”, diz Roberto. Quanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, não tem dúvidas. “É só amparado pelo sindicato, em ações coletivas, que os jornalistas encontrarão forças para mudar esse quadro”. Rubens conta da emoção vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de várias denúncias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. “Ela chorava e dizia, `não acredito que o sindicato veio´. Pois o sindicato foi e sempre irá, porque só juntos podemos mudar tudo isso”. Rubens ainda lembra dos famosos pescoções, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a pressão, sem dormir. “Isso sem contar as fraudes, como a de alguns jornais catarinenses, que não tem qualquer empregado. Todos são transformados em sócios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou não recebem um tostão”.

*Jornalista / JornalJá de Porto Alegre-RS

O SÃO PAULO não se calou na ditadura brasileira

Foto de Filó/Fotossínete | dom Angélico Sândalo, ex-diretor do O SÃO PAULO

Ao completar 55 anos, O SÃO PAULO, comporá um documentário feito e distribuído pelo Instituto Vladmir Herzog, sobre a história recente do Brasil. Trata-se do projeto Resistir é Preciso – A recuperação da história da imprensa alternativa” que fará 50 entrevistas com personalidades da imprensa combativa e com elas 12 DVDs que  serão transmitidos pela TV Brasil e pelas TVs Cultura. De 1968 a 1978, durante o regime militar, O SÃO PAULO foi obrigado a apresentar suas matérias previamente aos censores do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). “Nossa ideia é contar a história recente do Brasil, de 1964 a 1979, através  dos olhos da imprensa que efetivamente combateu a ditadura, a chamada na época, imprensa alternativa”, revelou Ivo Herzog na Cúria Metropolitana, na manhã do dia 18, após ouvir dom Angélico Sândalo Bernadino e Maria Angélica Rittes Garcia, alguns  dos protagonistas da história do semanário da Arquidiocese.

Dom Angélico Sândalo Bernadino, hoje bispo emérito de Blumenau (SC), foi diretor do semanário arquidiocesano, de 1977 a 2000. “Nosso jornal exerceu na ditadura, um papel em defesa da democracia. Na redação do jornal ficavam os censores, que em matéria de doutrina social da Igreja eram ignorantes; tivemos matérias vetadas, outras cortadas em partes. O SÃO PAULO foi um jornal profético”, disse dom Angélico.

Em 1978, Maria Angélica, foi convidada por dom Paulo a ser editora-chefe do jornal. “Em reunião o senador Romeu Tuma [diretor do DOPS] nos orientou na redação jornal ‘nunca saiam sozinhos, saiam em grupo para se protegerem”. Neste tempo, éramos muito procurados pelos jornalistas da grande imprensa que propunham fazer matérias”; entre eles estava Ricardo Carvalho, um dos realizadores do documentário e jornalista da Folha de S. Paulo. “Para nós jornalistas daquela época, O SÃO PAULO era o lugar onde você podia beber de uma fonte segura, tínhamos dom Paulo, que  sempre nos recebia e indicava caminhos. Íamos à redação conversar com dom Angélico e era um oxigênio, era um jeito da gente não descolar da realidade, a partir daí criamos a editoria de Direitos Humanos”.

“O jornal e a Cúria Metropolitana de São Paulo eram uma vanguarda da Igreja católica brasileira e mundial. A Igreja de São Paulo era aquela que elaborava, que tinha a audácia de fazer propostas, era aquela que tinha 100 mil comunidades eclesiais de base. As pessoas se reuniam para discutir e viver o evangelho, se reuniam para ler o jornal que era disputado, queria ser lido”, revelou o senador da República Italiana, José Luiz Del Roio, um dos fundadores do Fórum Social Mundial e responsável pelas pesquisas do documentário.

Antes de ser O SÃO PAULO, o semanário recebeu outros nomes; José Aurélio Chiaradia Pereira, mestre em Mídia e Igreja, retoma a origem do jornal a 1905, quando teve o nome de Gazeta do Povo, até 1930, que por iniciativa de dom Duarte Leopoldo e Silva tornou-se O Legionário, e mais tarde, definitivamente, rebatizado de O SÃO PAULO, por dom Carlos Carmelo Motta. Com o advento do Concílio Vaticano 2º, a Igreja via a necessidade de atuar junto aos meios de comunicação, de modo mais efetivo.

“Ser boa imprensa a serviço do apostolado, da evangelização, anunciando Jesus Cristo com o mesmo vigor e criatividade do Apóstolo de quem o jornal emprestou o nome”, escreveu na primeira edição de O SÃO PAULO, dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, em 25 de janeiro de 1956. Dom Carlos Carmelo governou a Igreja de São Paulo até 1964, quando dom Agnelo Rossi tomou posse da  arquidiocese, ficando à frente dela até 1970. No mesmo ano, dom Paulo assumiu a Arquidiocese, permanecendo nela até 1998, transmitindo o cargo à dom Cláudio Hummes e posteriormente ao cardeal dom Odilo Pedro Scherer, atual arcebispo de São Paulo.

Em 2001, em entrevista cedida ao pesquisador Fábio Lanza, padre Cido Pereira, diretor do jornal desde 2000, disse que a história de O SÃO PAULO foi marcada por mudanças ao longo de sua trajetória editorial, aspecto esse relacionado também às diversas conjunturas, inclusive da política nacional.

Há 55 anos esse semanário registra a história da Igreja de São Paulo, história essa, que se confunde à história da cidade, de seu povo, e à sua própria.

Publicado em O SÃO PAULO.