Archive for the 'Mulher' Category

Todo dia é dia de índio

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Entrevista de Karla Maria
Fotos de Thiago Gomes/AG. Pará

Mais de três mil indígenas que participam do 14º Acampamento Terra Livre tomaram as ruas da Esplanada dos Ministérios, em Brasília ontem, dia 24 de abril. Depois de realizar uma grande marcha fúnebre, foram reprimidos por policiais que usavam gás lacrimogênio e spray de pimenta contra os manifestantes e dentre eles mulheres, crianças e idosos.

O mês de abril, guarda um dia em especial no calendário brasileiro para “falar” sobre o índio. Nessa data, urge em meio à sociedade brasileira um novo olhar sobre os povos tradicionais que tiveram parte de suas terras e tradições dizimadas pela invasão do homem branco.

Mas para outros, como Conselho Indigenista Missionário (Cimi), todos os dias são dias de índio, de lutar pelos direitos desses brasileiros e na entrevista a seguir, o presidente da entidade, dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO), faz uma avaliação crítica da situação dos povos tradicionais e denuncia o desmonte de direitos já garantidos na Constituição Federal.

Trechos dessa entrevista foram publicados na edição de abril de 2017 da Revista Família Cristã.

1- Como o senhor avalia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 – em tramitação na Câmara dos Deputados – que proíbe a ampliação de terras indígenas já demarcadas e transfere ao Congresso a decisão sobre novas demarcações

A PEC está na mesma perspectiva do desmonte dos direitos conquistados na Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã” que deu um passo importante na superação de uma legislação arcaica em relação aos povos originários. Está no bojo das tentativas de retroceder em direitos fundamentais, que para os povos indígenas passam pelo direito aos seus territórios que são base para a preservação de suas culturas, espiritualidades, tradições entre outras dimensões da vida.

Somada a esta iniciativa de mudança na Constituição estão outras ações, fundamentalmente engendradas pela chamada bancada ruralista, esta que vem se manifestando contrária aos direitos dos povos, principalmente os territoriais.

Segundo vários juristas a transferência da responsabilidade pelas demarcações é inconstitucional, pois toca em cláusulas pétreas. Além do que todo o processo para a demarcação estaria submetido aos trâmites do Congresso Nacional, que já se demonstra moroso, ainda mais num contexto em que muitos parlamentares são contra as demarcações.

Infelizmente, apesar da Constituição Federal ter dado o prazo de cinco anos para que as terras indígenas fossem demarcadas, após quase 30 anos muitas terras seguem sem mesmo terem seus estudos realizados.

2- O fato de termos no Congresso Nacional uma forte representatividade das entidades do agronegócio, de termos a bancada ruralista, pode causar impactos negativos para a demarcação de terras caso a PEC 215 seja aprovada?

A bancada ruralista é a principal promotora da PEC 215, sendo que a Comissão Especial que aprovou o texto da PEC em 2015 foi composta majoritariamente por parlamentares da Frente Parlamentar Agropecuária. Sem dúvida se criaria muitos impasses e dificilmente os povos indígenas seriam respeitados, pois vivemos em um país preconceituoso em relação aos modos de vida e a especificidade dos povos.  Muitos querem que os povos entrem na mesma dinâmica do consumo e que suas terras possam ser exploradas. O que a PEC 215 objetiva é a disponibilização das terras indígenas para o mercado de terras, ou seja, que empreendimentos do agronegócio ou outros estejam livres para explorar as riquezas presentes nestas terras, em muitos casos preservadas pelos indígenas.

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3- O então ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, publicou recentemente no Diário Oficial uma portaria que cria um grupo de trabalho no ministério com o poder de reavaliar os processos de demarcação em andamento. Como o senhor e o Cimi avaliam isso? Essa atitude não fragiliza o trabalho da Fundação Nacional do Índio (Funai)?

A Portaria ao criar um GT no âmbito do Ministério da Justiça na prática burocratiza ainda mais os processos para a demarcação das terras indígenas, que hoje são regulamentados pelo Decreto 1.775 de 1996. Este Decreto já estabelece todo o “rito” para a demarcação de uma terra. O GT criado responde a demandas dos ruralistas. Por isso, a nossa preocupação é de que ele seja usado como instrumento para construção de falsos argumentos e que estes sejam usados pelo Ministro da Justiça para desaprovar os laudos antropológicos de identificação e delimitação de terras indígenas.

Sobre a Funai, esta vem sendo desestruturada tendo cortes profundos em seu orçamento, praticamente inviabilizando suas ações.

4- Como o Cimi avalia a nomeação e atuação do novo presidente da Funai, Antonio Fernandes Toninho Costa?

Pessoalmente não temos nada contra o Sr. Antônio, contudo a indicação dele pelo PSC é o exemplo de um governo que ‘loteia’ cargos para cumprir acordos no pacto feito para o impeachment da Presidente Dilma.

5- A indicação de Ubiratan de Souza Maia para a coordenação-geral de Licenciamento Ambiental da Funai tem gerado desconforto entre os funcionários da autarquia. Ele é acusado pelo Ministério Público de arrendar terras indígenas ilegalmente. Na denúncia, o MPF pede o ressarcimento de R$ 240 mil à comunidade Terra de Chapecó. Como o Cimi enxerga essa indicação?

 Eu particularmente não conheço o Sr. Ubiratan, contudo não seria bom para qualquer autarquia pública ter em seu quadro um servidor que responde a acusações judiciais justamente por desrespeitar a Constituição Federal e os direitos que deve defender. Creio também que é um direito dos funcionários de carreira do órgão se manifestar sobre qualquer nomeação.

6- Os conflitos de terra ainda fazem vítimas pelo País e os indígenas estão entre eles. Como sair desse cenário? Quais as saídas que o Cimi aponta?

Todos os anos o Cimi publica o Relatório Violência contra os Povos Indígenas, onde estão relacionados muitos dos casos de violências e violações contra os povos. Destacamos as violações contra o patrimônio, contra pessoa indígena e os casos de omissão quanto aos direitos à saúde, educação e terra.

Muitas das violências e violações estão vinculadas à negação ao direito territorial destes povos, seja pela não demarcação ou pela invasão de territórios demarcados. Parte da solução para estes casos passa, então, pela efetiva demarcação das terras indígenas e pela proteção destes territórios pelo Estado brasileiro. Também é fato que a impunidade frente aos crimes cometidos contra estes povos reforça as violências, pois os agressores sentem que não sendo punidos podem seguir violando a lei.

Em março de 2016 o Brasil recebeu a visita da Relatora Especial da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpus. Ela esteve em visitas aos indígenas Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, povos que vem sendo há anos vitimados por ataques de paramilitares e pela negação de seu direito à terra.

Em seu Relatório, apresentado em setembro do mesmo ano, Victória fez duras críticas ao governo brasileiro e ao descaso deste para com os povos indígenas.

7- Quais as maiores demandas que o Cimi apresenta ao estado brasileiro no que diz respeito às políticas públicas que garantam os direitos das populações indígenas?

Como apontado antes, entre estas demandas está a efetiva demarcação e proteção das terras. Os povos demandam ainda a efetivação de uma Educação Escolar Indígena diferenciada, com respeito às suas culturas e formas de organização; também o atendimento à saúde, embora a criação da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena, segue com grandes deficiências.

O Brasil é signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho que, entre outras dimensões, reafirma a autodeterminação dos povos. Neste aspecto, os povos vêm cobrando que o direito à consulta previa, livre e informada seja respeitado quando da realização de qualquer ação que os afetem.

8- Percebe-se uma onda de criminalização dos movimentos sociais por parte de alguns partidos políticos. O senhor acredita que isso esteja acontecendo agora com entidades que defendem os direitos indígenas, como o próprio Cimi, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA)? Como o senhor avalia esse cenário e qual a resposta do Cimi sobre o pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal na CPI da Funai?

Os primeiros criminalizados são os próprios povos e lideranças indígenas, pois seus direitos elementares são negados. Em segundo lugar vemos uma onda de criminalização de todos os que se opõe ao projeto hegemônico do capital, que tem em sua base a exploração dos bens da natureza.

Há 30 anos o Cimi enfrentou uma primeira CPI, com acusações infundadas que tentavam desmoralizar e criminalizar o Cimi. Em 2015 a Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul também instalou uma CPI para supostamente investigar as ações do Cimi; outra CPI, para investigar a Funai e o Incra, instaladas na Câmara dos Deputados também buscam investigar o Cimi e as organizações citadas, além do Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Tanto em 1987 quanto agora, a presidência da CNBB assumiu a defesa do Cimi e de seus missionários e missionárias.

Estranhamente as CPIs de 1897 e a do MS não encontraram nada que de fato possa incriminar o Cimi e a CPI da Câmara que investiga órgãos públicos, quer investigar-nos mesmo sabendo que não acessamos qualquer recurso público.

De fato estas CPIs visam criminalizar os povos indígenas e seus aliados.

9- O Projeto Cruviana, um sistema de geração de energia eólica e solar para abastecer comunidades tradicionais da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, feito em parceria entre o Conselho Indigenista de Roraima, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), pode ser visto como um exemplo de sucesso de terra indígena demarcada que preserva o ambiente e gera energia? Por que esse projeto não é tão conhecido?

Este projeto é uma demonstração concreta de que o Brasil tem uma potencialidade para gerar de forma alternativa energia, sem obrigatoriamente determinar a construção de grandes hidrelétricas, como são os planos dos diferentes governos.

A mídia corporativa e empresarial, por interesse econômico das corporações que financiam suas programações, prioriza a veiculação de informações que se contraponham às demarcações das terras indígenas e esconde as iniciativas positivas dos povos.

10- Estudos revelam que o desmatamento é significativamente menor dentro de reservas indígenas bem estabelecidas (uns 40% no Brasil, por exemplo) do que em áreas não demarcadas, o que revela que a presença indígena protege as florestas e traz uma série de outros benefícios com impactos econômicos positivos diretos ou indiretos: estabiliza o clima regional, garante o suprimento de água para a agricultura e o consumo humano (já que matas atuam como imensos filtros naturais) e abriga polinizadores, sem os quais muitas lavouras não vingam. Do ponto de vista humano, como os indígenas podem nos servir de exemplo no dia a dia, por exemplo no que diz respeito ao viver em família e ao bem viver e preservar toda a criação?

Os povos indígenas sempre buscam manter uma vida harmoniosa com a natureza, respeitando seus ciclos e utilizando de forma que esta possa continuar se mantendo e mantendo a vida de suas comunidades.

Esta maneira de viver dos povos foi lembrada pelo Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Sí e também no encontro realizado com representantes dos Povos Indígenas, onde o Papa afirmou que os povos é quem devem ter a palavra final sobre suas terras. Sabemos que, como lembrou Francisco, há projetos que ameaçam esta harmonia, pois em vista de um desenvolvimento que não os inclui, impactam a natureza e, consequentemente, os povos. Assim vemos as grandes hidrelétricas, estradas e outros empreendimentos.

O Bem Viver que significa a vivência harmônica com a natureza e entre os seres humanos, como preconizam os povos andinos é uma grande lição que nós precisamos aprender, pois ao invés de cuidar da criação estamos destruindo.

11- Sobre a evangelização, como se dá a missão junto aos indígenas tendo em vista a identidade cultural de cada povo?

O Cimi tem como ponto de partida o diálogo, o respeito pela diferença e, como nos afirma o Documento de Aparecida, pelas “sementes do Verbo” presentes nos povos indígenas. Como popularmente se diz: “Deus estava presente no meio dos povos indígenas antes dos Europeus chegarem aqui”. Assim, a Evangelização não pode ser uma imposição, mas fruto da vivência e do Evangelho Gritado pela Vida, como nos ensinou Carlos de Foucauld; nunca uma demonização das tradições, costumes e espiritualidades dos povos. Respeitamos a identidade de cada povo e alteridade de cada povo que também passa por suas expressões religiosas. Entre povos que já possuem experiências antigas de catequese e cristianismo, o Cimi busca responder de forma respeitosa, de maneira encarnada.

12- Há projetos dos regionais da CNBB que enviam missionários do sul para a Amazônia? Faltam missionários juntos aos indígenas? Qual o trabalho que ainda precisa ser desenvolvido?

Mais que trabalhos pré estabelecidos, necessitamos de presença de missionários e missionárias que desejem assumir um processo de encarnação junto aos povos indígenas. Pessoas que sejam capazes de construir com as comunidades. Homens e mulheres que nos ajudem a construir pontes, que tenham a coragem de descalçar as sandálias e sejam pessoas apaixonadas pelo Reino de Deus.

Missionário que seja capaz de construir com as comunidades indígenas, processos que fortaleçam a autonomia no diálogo intercultural, ecumênico e inter-religioso.

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A literatura esquecida de Carolina

Divulgação

Maria Carolina

Karla Maria

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914 na pequena cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais. Como escritora, foi descoberta tardiamente, aos 43 anos, em 1958, na extinta favela do Canindé, em São Paulo (SP), onde hoje fica o Estádio do Canindé, da Associação Portuguesa de Desportos. Seu descobridor foi o jornalista Audálio Dantas, então repórter do diário Folha da Noite, de maneira acidental. Ambos se conheceram quando ele trabalhava em uma reportagem sobre a favela. Negra, mãe solteira de três crianças, catadora de papel e semianalfabeta, essa improvável escritora havia estudado apenas até a 2a série do curso primário no Colégio Allan Kardec, do Grupo Espírita Esperança e Caridade, na sua cidade natal. Era então uma mulher que descrevia em cadernos encontrados no lixo, meio sebosos, seu percurso desde que deixou Sacramento, aos 17 anos, até chegar à capital paulista em 1947.

Os cadernos acumulados guardavam memória de 15 anos e eram preenchidos em uma tentativa imaginária de escapar das dificuldades diárias e do nervosismo que a tomava quando a fome era intensa. “Enquanto escrevo, vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim, e eu contemplo as flores de todas as qualidades”, revela um trecho extraído deles. “Seria mais uma das milhares de mulheres que existem pelo País não fosse o fato de dar voz àquilo que vivia e via na favela. Seus montes de caderno foram entregues ao jornalista, e ele, com a sensação do furo e a pecha do ‘novo jornalismo’, selecionou as histórias, editou os textos e criou volumes como Quarto de despejo: Diário de uma favelada, em 1960”, escreveu o professor da Universidade de São Paulo (USP), José Carlos Sebe Bom Meihy, coautor do estudo Cinderela negra: A saga de Carolina Maria de Jesus.

Bitita – Quarto de despejo, o livro de estreia, foi lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960 e, devido a seu estrondoso sucesso, teve oito reimpressões no mesmo ano. Em menos de 12 meses, mais de 70 mil exemplares foram vendidos – uma tiragem bem-sucedida, na época, era de aproximadamente 4 mil exemplares. Nenhum autor no Brasil chegara perto desse fenômeno de venda, nem mesmo o campeoníssimo Jorge Amado. Revistas internacionais do porte de Life, Paris Match e Time fizeram reportagens sobre Carolina e o seu livro. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo foi traduzido para 14 idiomas em mais de 40 países, como Dinamarca, Holanda, Argentina, França, Alemanha, Suécia, Itália, passando pela República Tcheca, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e chegando à Rússia, Japão, Polônia, Hungria e Cuba.

A catadora de papel Carolina Maria virava celebridade. E mais: sua literatura chegava ao público em momento que as letras eram um espaço reservado a homens brancos, letrados e, com raras exceções, ricos e em posição social elevada. “Se eu tivesse diploma superior, seria respeitada, mas tenho só dois anos de grupo. Sou semianalfabeta”, desabafou Carolina. O mesmo sucesso, porém, não foi alcançado pelos seus livros seguintes Casa de alvenaria: Diário de uma ex-favelada (1961), Pedaços da fome (1963) e Provérbios (1963). Neste mesmo ano, comprou um pedaço de terra em Parelheiros, bairro periférico da zona sul de São Paulo, e iniciou a construção de uma casa. Plantava ali sua horta e criava galinhas, mas ainda passando por inúmeras dificuldades. Sem nunca deixar de escrever. Em 1975, entregou os manuscritos sobre sua infância e adolescência para duas jornalistas francesas que culminaram no livro Journal de Bitita ou Diário de Bitita.

Permanência – “Passados cem anos de seu nascimento e 37 anos de sua morte, Carolina resiste, sobretudo, nos Estados Unidos, onde todos os seus livros estão disponíveis”, afirma o escritor e professor de Literatura Hispano-Americana, na Universidade Federal de São Carlos (Ufiscar), Wilson Alves Bezerra. Para ele, Carolina, no Brasil, ainda é tratada como objeto de estudo.

Por ocasião do centenário de nascimento da escritora, celebrado este ano, o jornalista Audálio Dantas recontou os passos da descoberta, do perfil de Carolina e de como sua literatura foi aceita no cenário brasileiro. “A maioria ‘consumiu’ Carolina como uma novidade, uma fruta estranha. Carolina, como objeto de consumo, passou, mas a importância de seus livros, um documento sobre os marginalizados, permanece”, sentencia. A crítica literária concorda. “Carolina é uma escritora fundamental para entender a literatura brasileira feita, em sua grande maioria, de autores brancos de classe média que dominavam a língua formal. Ela mostra a outra face dessa história, que passa a ser vista do ponto de vista dela, de baixo”, explica a professora da Universidade de Brasília (UnB) Germana Henriques Pereira, autora de O estranho diário de uma escritora vira-lata.

Carolina Maria não conseguiu escapar de seu destino. Cinco anos após o sucesso de Quarto de despejo, ela voltou a catar lixo. “Estou no inferno, não saiu nada do jeito que desejei e eu não gosto de ser teleguiada. Eles é que administram o que arrecado”, escreveu na época. Morreu pobre em 13 de fevereiro de 1977, antes dos cem anos que desejara viver para ler todos os livros do mundo.

Publicado originalmente na Revista Família Cristã, edição de dezembro de 2014.

às margens da estrada e da história

indio

Foto Karla Maria I BR 290 – Acampamento Arroio Divisa

Em maio, estive cortando as estradas do Rio Grande do Sul para realizar reportagens que mexem com a história daquela povo, com a história que construiu e garantiu o jeito peculiar de ser do gaúcho.

Uma reportagem especial, que acaba de ser publicada na edição impressa da Revista Família Cristã, traz a situação de três acampamentos indígenas dos Guarani M’bya, às margens das rodovias RS 040, BR 116 e BR 290. Um contexto de extrema pobreza e abandono dos poderes públicos.

Convido os leitores a desvirem o olhar a estes povos, cerca de 36 mil brasileiros e brasileiras que vivem no estado gaúcho.

Foto de Guilherme Klein I dona Joventina e a repórter

Foto de Guilherme Klein I dona Joventina e a repórter

Também para a Revista Família Crista, desta vez para sua página eletrônica, estive em Espumoso, cidade à 5 horas de ônibus de Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul.

Ali, conheci dona Joventina, uma senhora centenária, que traz em seu olhar, parte da história do Brasil e das consequências insuperáveis causadas pela escravidão.

Fica o convite para as leituras do texto, das fotos e do vídeo, que irão dizer mais do que minhas perseverantes palavras.

Guadalupe na porta, malas por fechar e pesar

Picture 348Último dia no Arizona. Estou sentada num banquinho, debaixo de uma árvore, esperando o ônibus, enquanto os carros passam. É domigo, Dia das Mães, dia de almoço, abraço e beijo…
Não sou mãe, ainda, e espero ser de um jeito ou de outro em um amanhã. Mas não me faltaram abraços, não me faltaram carinhos neste dia.
Mensagens no telefone dizem “I am going miss you, you are special, be happy”, letras que marcam a despedida, encerram esse capítulo que foi bem confuso, difícil e surpreendente também.
Pequenos momentos me marcaram: o primeiro dia de aula, naquela sala cheia de história e cultura; conhecer e brincar na neve como criança; andar nas ruas de Tucson com minha família americana, celebrar a Paixão e Páscoa com eles; sentir o cheirinho do Oriente em uma cozinha palestina.
Nestes tempos de intercâmbio, fui além do inglês, acho que além de mim. Conheci o meu limite e gostei. Vi que o mundo é pequenininho, cabe numa conversa, assim debaixo da árvore, num café aguado, agora no ônibus com o motorista, que elogia o inglês desta estrangeira. Sim, o ônibus chegou.
Neste período falei do Brasil, quase todos os dias por aqui, foi outro ponto interessante… o Pelé? sim, mas ia além, porque nós somos mais.
Aqui também vi a guerra de perto, no olho dos amigos vindos da Síria, da Palestina, da Somália, do Iraque…; vi o sonho trazido pelo deserto com os mexicanos e a pobreza estabelecida aqui com os americanos.
Tanta coisa, tanta gente, tanta história, tanta, tanta, tanta…  Chegando em casa, sol forte, Guadalupe na porta, malas por fechar e pesar.
Ela, a mala volta mais pesada sim, a cabeça mais aberta, os olhos mais atentos e o coração, a esse  coração volta na mão…

Meus dias de conclave

jornalistaLonge das minhas habituais pautas, os últimos dias foram para mim um conclave, e explico. Morando em um país de minoria católica, acompanhei os passos dos 115 cardeais pelos sites e tvs de diferentes países. Esta foi, sem dúvida, uma experiência importante, um exercício de observação do comportamento da mídia e do impacto que este homem, agora líder de 1,2 bilhão de pessoas já provoca na sociedade.

O primeiro impacto, simplicidade e despojamento. Francisco, o papa, chega pedindo a benção do povo,  se curva a ele, em um gesto de serviço e amor. Seu nome revela o cuidado necessário e urgente com os pobres. Um segundo impacto, as notícias que emergem sobre a ligação do então arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, com a última ditadura militar na Argentina (1976-1983).

Para refutar o segundo impacto, o ativista argentino de direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1980, em entrevista a BBC Mundo afirmou: “Questionam Bergoglio porque dizem que ele não fez o necessário para tirar dois sacerdotes da prisão, sendo ele o superior da congregação de jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos presos e sacerdotes e não eram atendidos”.

O caro leitor deste Ká entre Nós, que muito me honra com a sua presença virtual pode também apontar “a Karla Maria, claro, vai defender o papa porque ela é jornalista católica”… Tenho ouvido isso nesses dias e me sinto na obrigação de esclarecer que sim sou católica apostólica romana, isso faz parte da minha cultura, da minha opção de vida.

Obviamente que os valores que aprendi na Igreja Católica se aplicam diariamente no meu jornalismo, porque valores, ora, são valores, e posso falar sobre eles: amor e respeito ao próximo de toda cor, origem, raça, gênero, credo, compromisso de serviço à sociedade, solidariedade, busca por justiça e dignidade.

Somado a esses valores estão o faro e a alma da jornalista que sempre procura a verdade dos fatos e dos dados à serviço do bem comum, e de acordo com meu compromisso profissional jamais me refutarei a escrever a verdade apurada, ainda que atinja meus “amores, credos ou ideais pessoais”. O que não posso e não farei é entrar na onda dos achismos infundados, do jornalismo preguiçoso e republicar informações sem dados ou provas concretas.

Ser católica não limita ou restringe meu compromisso com a pluralidade e a verdade dos fatos, só reitera meu dever de trabalhar pelo bem comum, sempre, pela verdade, sempre.

Um colo… uma rede?

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Tráfico humano vitima 2,8 mil no país

Segundo o Ministério da Justiça, a cada ano, cerca de 60 mil brasileiros são levados à força do país, vítimas de ameaça ou enganados com promessas de oportunidades de trabalho. O destino: Espanha, Itália, Portugal, Reino Unido, Holanda, Suíça, França, Alemanha, Estados Unidos e  Japão, e ultimamente para o Suriname, Guiana Francesa, Guiana e Venezuela.

Para discutir a realidade, que se estende por toda a América Latina, foi realizado de 19 a 21, no memorial da América Latina, na zona oeste, o 7º Encontro Internacional sobre Migração e Tráfico de Pessoas na América Latina, com a participação de acadêmicos, religiosos, leigos e operadores da justiça que tratam do tráfico de pessoas.
O cardeal dom Odilo Scherer, arcebipo metropolitano, participou da abertura do encontro e destacou que a Igreja Católica está unida às entidades e poderes públicos no combate a esse que já é o terceiro comércio ilegal mais lucrativo, atrás do tráfico de drogas e armas.  “A Igreja Católica está empenhada nesta questão com muitos dos seus serviços voltados para acolher, socorrer, assistir as vítimas do tráfico de pessoas e acompanhar os migrantes”, disse dom Odilo.

Para Débora Aranha, presidente do Movimento Contra o Tráfico de Pessoas, o fato de o Brasil ainda não possuir uma política pública de combate ao tráfico de pessoas atrapalha o auxilio às vítimas. “Não temos serviços efetivamente estruturados e institucionalizados, com parâmetros de atuação que permaneçam com quadro de funcionários ao longo do tempo, então esse é um grande problema”. Neste momento, o país aguarda a implantação do 2º Plano Nacional de Combate ao Tráfico de Pessoas, que passou pela validação de 17 ministérios e está em fase final de análise e validação na Casa Civil.

O Brasil não conta com dados oficiais sobre o tráfico de pessoas, mas segundo relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos,  em 2011, foram registradas nove condenações por tráfico humano no país, enquanto mais de 2.800 potenciais vítimas de tráfico foram identificadas no mesmo período, por constantes operações de fiscalização móvel para identificar o trabalho escravo e por delegacias de combate ao tráfico em 14 estados.

O relatório aponta ainda que abrigos e serviços governamentais especializados para vítimas de todas as formas de tráfico continuam insuficientes, que autoridades continuam a fazer parcerias com organizações internacionais e da sociedade civil para aumentar a conscientização sobre o tráfico sexual e o trabalho escravo, e que apesar da continuidade dos esforços de prevenção contra o turismo sexual infantil e das investigações de exploração sexual comercial, não houve relatos de processos ou condenações de turistas em busca de sexo com crianças.

“Com a vinda da Copa do Mundo e das Olímpiadas, o turismo sexual tende a aumentar”, disse Débora, lembrando também de grandes obras de infraestrutura que reunem populações masculinas. “O fato de grandes obras atrairem populações masculinas sem planejamento e cuidado geram uma série de problemas, como gravidez na adolescência e exploração sexual.

Dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) justificam a preocupação de Débora. Entre janeiro e março de 2011, 72,35% das denúncias de exploração sexual contra crianças e adolescentes feitas através do Disque Direitos Humanos (o Disque 100) foram registradas nas 12 cidades-sedes da Copa, onde já acontecem as obras de infraestrutura. Em relação às grandes obras de desenvolvimento, o índice de exploração sexual de crianças e adolescentes aumentou 18%.

Publicada no O SÃO PAULO.


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