Archive for the 'Política(s)' Category

Todo dia é dia de índio

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Entrevista de Karla Maria
Fotos de Thiago Gomes/AG. Pará

Mais de três mil indígenas que participam do 14º Acampamento Terra Livre tomaram as ruas da Esplanada dos Ministérios, em Brasília ontem, dia 24 de abril. Depois de realizar uma grande marcha fúnebre, foram reprimidos por policiais que usavam gás lacrimogênio e spray de pimenta contra os manifestantes e dentre eles mulheres, crianças e idosos.

O mês de abril, guarda um dia em especial no calendário brasileiro para “falar” sobre o índio. Nessa data, urge em meio à sociedade brasileira um novo olhar sobre os povos tradicionais que tiveram parte de suas terras e tradições dizimadas pela invasão do homem branco.

Mas para outros, como Conselho Indigenista Missionário (Cimi), todos os dias são dias de índio, de lutar pelos direitos desses brasileiros e na entrevista a seguir, o presidente da entidade, dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO), faz uma avaliação crítica da situação dos povos tradicionais e denuncia o desmonte de direitos já garantidos na Constituição Federal.

Trechos dessa entrevista foram publicados na edição de abril de 2017 da Revista Família Cristã.

1- Como o senhor avalia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 – em tramitação na Câmara dos Deputados – que proíbe a ampliação de terras indígenas já demarcadas e transfere ao Congresso a decisão sobre novas demarcações

A PEC está na mesma perspectiva do desmonte dos direitos conquistados na Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã” que deu um passo importante na superação de uma legislação arcaica em relação aos povos originários. Está no bojo das tentativas de retroceder em direitos fundamentais, que para os povos indígenas passam pelo direito aos seus territórios que são base para a preservação de suas culturas, espiritualidades, tradições entre outras dimensões da vida.

Somada a esta iniciativa de mudança na Constituição estão outras ações, fundamentalmente engendradas pela chamada bancada ruralista, esta que vem se manifestando contrária aos direitos dos povos, principalmente os territoriais.

Segundo vários juristas a transferência da responsabilidade pelas demarcações é inconstitucional, pois toca em cláusulas pétreas. Além do que todo o processo para a demarcação estaria submetido aos trâmites do Congresso Nacional, que já se demonstra moroso, ainda mais num contexto em que muitos parlamentares são contra as demarcações.

Infelizmente, apesar da Constituição Federal ter dado o prazo de cinco anos para que as terras indígenas fossem demarcadas, após quase 30 anos muitas terras seguem sem mesmo terem seus estudos realizados.

2- O fato de termos no Congresso Nacional uma forte representatividade das entidades do agronegócio, de termos a bancada ruralista, pode causar impactos negativos para a demarcação de terras caso a PEC 215 seja aprovada?

A bancada ruralista é a principal promotora da PEC 215, sendo que a Comissão Especial que aprovou o texto da PEC em 2015 foi composta majoritariamente por parlamentares da Frente Parlamentar Agropecuária. Sem dúvida se criaria muitos impasses e dificilmente os povos indígenas seriam respeitados, pois vivemos em um país preconceituoso em relação aos modos de vida e a especificidade dos povos.  Muitos querem que os povos entrem na mesma dinâmica do consumo e que suas terras possam ser exploradas. O que a PEC 215 objetiva é a disponibilização das terras indígenas para o mercado de terras, ou seja, que empreendimentos do agronegócio ou outros estejam livres para explorar as riquezas presentes nestas terras, em muitos casos preservadas pelos indígenas.

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3- O então ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, publicou recentemente no Diário Oficial uma portaria que cria um grupo de trabalho no ministério com o poder de reavaliar os processos de demarcação em andamento. Como o senhor e o Cimi avaliam isso? Essa atitude não fragiliza o trabalho da Fundação Nacional do Índio (Funai)?

A Portaria ao criar um GT no âmbito do Ministério da Justiça na prática burocratiza ainda mais os processos para a demarcação das terras indígenas, que hoje são regulamentados pelo Decreto 1.775 de 1996. Este Decreto já estabelece todo o “rito” para a demarcação de uma terra. O GT criado responde a demandas dos ruralistas. Por isso, a nossa preocupação é de que ele seja usado como instrumento para construção de falsos argumentos e que estes sejam usados pelo Ministro da Justiça para desaprovar os laudos antropológicos de identificação e delimitação de terras indígenas.

Sobre a Funai, esta vem sendo desestruturada tendo cortes profundos em seu orçamento, praticamente inviabilizando suas ações.

4- Como o Cimi avalia a nomeação e atuação do novo presidente da Funai, Antonio Fernandes Toninho Costa?

Pessoalmente não temos nada contra o Sr. Antônio, contudo a indicação dele pelo PSC é o exemplo de um governo que ‘loteia’ cargos para cumprir acordos no pacto feito para o impeachment da Presidente Dilma.

5- A indicação de Ubiratan de Souza Maia para a coordenação-geral de Licenciamento Ambiental da Funai tem gerado desconforto entre os funcionários da autarquia. Ele é acusado pelo Ministério Público de arrendar terras indígenas ilegalmente. Na denúncia, o MPF pede o ressarcimento de R$ 240 mil à comunidade Terra de Chapecó. Como o Cimi enxerga essa indicação?

 Eu particularmente não conheço o Sr. Ubiratan, contudo não seria bom para qualquer autarquia pública ter em seu quadro um servidor que responde a acusações judiciais justamente por desrespeitar a Constituição Federal e os direitos que deve defender. Creio também que é um direito dos funcionários de carreira do órgão se manifestar sobre qualquer nomeação.

6- Os conflitos de terra ainda fazem vítimas pelo País e os indígenas estão entre eles. Como sair desse cenário? Quais as saídas que o Cimi aponta?

Todos os anos o Cimi publica o Relatório Violência contra os Povos Indígenas, onde estão relacionados muitos dos casos de violências e violações contra os povos. Destacamos as violações contra o patrimônio, contra pessoa indígena e os casos de omissão quanto aos direitos à saúde, educação e terra.

Muitas das violências e violações estão vinculadas à negação ao direito territorial destes povos, seja pela não demarcação ou pela invasão de territórios demarcados. Parte da solução para estes casos passa, então, pela efetiva demarcação das terras indígenas e pela proteção destes territórios pelo Estado brasileiro. Também é fato que a impunidade frente aos crimes cometidos contra estes povos reforça as violências, pois os agressores sentem que não sendo punidos podem seguir violando a lei.

Em março de 2016 o Brasil recebeu a visita da Relatora Especial da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpus. Ela esteve em visitas aos indígenas Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, povos que vem sendo há anos vitimados por ataques de paramilitares e pela negação de seu direito à terra.

Em seu Relatório, apresentado em setembro do mesmo ano, Victória fez duras críticas ao governo brasileiro e ao descaso deste para com os povos indígenas.

7- Quais as maiores demandas que o Cimi apresenta ao estado brasileiro no que diz respeito às políticas públicas que garantam os direitos das populações indígenas?

Como apontado antes, entre estas demandas está a efetiva demarcação e proteção das terras. Os povos demandam ainda a efetivação de uma Educação Escolar Indígena diferenciada, com respeito às suas culturas e formas de organização; também o atendimento à saúde, embora a criação da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena, segue com grandes deficiências.

O Brasil é signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho que, entre outras dimensões, reafirma a autodeterminação dos povos. Neste aspecto, os povos vêm cobrando que o direito à consulta previa, livre e informada seja respeitado quando da realização de qualquer ação que os afetem.

8- Percebe-se uma onda de criminalização dos movimentos sociais por parte de alguns partidos políticos. O senhor acredita que isso esteja acontecendo agora com entidades que defendem os direitos indígenas, como o próprio Cimi, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA)? Como o senhor avalia esse cenário e qual a resposta do Cimi sobre o pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal na CPI da Funai?

Os primeiros criminalizados são os próprios povos e lideranças indígenas, pois seus direitos elementares são negados. Em segundo lugar vemos uma onda de criminalização de todos os que se opõe ao projeto hegemônico do capital, que tem em sua base a exploração dos bens da natureza.

Há 30 anos o Cimi enfrentou uma primeira CPI, com acusações infundadas que tentavam desmoralizar e criminalizar o Cimi. Em 2015 a Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul também instalou uma CPI para supostamente investigar as ações do Cimi; outra CPI, para investigar a Funai e o Incra, instaladas na Câmara dos Deputados também buscam investigar o Cimi e as organizações citadas, além do Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Tanto em 1987 quanto agora, a presidência da CNBB assumiu a defesa do Cimi e de seus missionários e missionárias.

Estranhamente as CPIs de 1897 e a do MS não encontraram nada que de fato possa incriminar o Cimi e a CPI da Câmara que investiga órgãos públicos, quer investigar-nos mesmo sabendo que não acessamos qualquer recurso público.

De fato estas CPIs visam criminalizar os povos indígenas e seus aliados.

9- O Projeto Cruviana, um sistema de geração de energia eólica e solar para abastecer comunidades tradicionais da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, feito em parceria entre o Conselho Indigenista de Roraima, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), pode ser visto como um exemplo de sucesso de terra indígena demarcada que preserva o ambiente e gera energia? Por que esse projeto não é tão conhecido?

Este projeto é uma demonstração concreta de que o Brasil tem uma potencialidade para gerar de forma alternativa energia, sem obrigatoriamente determinar a construção de grandes hidrelétricas, como são os planos dos diferentes governos.

A mídia corporativa e empresarial, por interesse econômico das corporações que financiam suas programações, prioriza a veiculação de informações que se contraponham às demarcações das terras indígenas e esconde as iniciativas positivas dos povos.

10- Estudos revelam que o desmatamento é significativamente menor dentro de reservas indígenas bem estabelecidas (uns 40% no Brasil, por exemplo) do que em áreas não demarcadas, o que revela que a presença indígena protege as florestas e traz uma série de outros benefícios com impactos econômicos positivos diretos ou indiretos: estabiliza o clima regional, garante o suprimento de água para a agricultura e o consumo humano (já que matas atuam como imensos filtros naturais) e abriga polinizadores, sem os quais muitas lavouras não vingam. Do ponto de vista humano, como os indígenas podem nos servir de exemplo no dia a dia, por exemplo no que diz respeito ao viver em família e ao bem viver e preservar toda a criação?

Os povos indígenas sempre buscam manter uma vida harmoniosa com a natureza, respeitando seus ciclos e utilizando de forma que esta possa continuar se mantendo e mantendo a vida de suas comunidades.

Esta maneira de viver dos povos foi lembrada pelo Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Sí e também no encontro realizado com representantes dos Povos Indígenas, onde o Papa afirmou que os povos é quem devem ter a palavra final sobre suas terras. Sabemos que, como lembrou Francisco, há projetos que ameaçam esta harmonia, pois em vista de um desenvolvimento que não os inclui, impactam a natureza e, consequentemente, os povos. Assim vemos as grandes hidrelétricas, estradas e outros empreendimentos.

O Bem Viver que significa a vivência harmônica com a natureza e entre os seres humanos, como preconizam os povos andinos é uma grande lição que nós precisamos aprender, pois ao invés de cuidar da criação estamos destruindo.

11- Sobre a evangelização, como se dá a missão junto aos indígenas tendo em vista a identidade cultural de cada povo?

O Cimi tem como ponto de partida o diálogo, o respeito pela diferença e, como nos afirma o Documento de Aparecida, pelas “sementes do Verbo” presentes nos povos indígenas. Como popularmente se diz: “Deus estava presente no meio dos povos indígenas antes dos Europeus chegarem aqui”. Assim, a Evangelização não pode ser uma imposição, mas fruto da vivência e do Evangelho Gritado pela Vida, como nos ensinou Carlos de Foucauld; nunca uma demonização das tradições, costumes e espiritualidades dos povos. Respeitamos a identidade de cada povo e alteridade de cada povo que também passa por suas expressões religiosas. Entre povos que já possuem experiências antigas de catequese e cristianismo, o Cimi busca responder de forma respeitosa, de maneira encarnada.

12- Há projetos dos regionais da CNBB que enviam missionários do sul para a Amazônia? Faltam missionários juntos aos indígenas? Qual o trabalho que ainda precisa ser desenvolvido?

Mais que trabalhos pré estabelecidos, necessitamos de presença de missionários e missionárias que desejem assumir um processo de encarnação junto aos povos indígenas. Pessoas que sejam capazes de construir com as comunidades. Homens e mulheres que nos ajudem a construir pontes, que tenham a coragem de descalçar as sandálias e sejam pessoas apaixonadas pelo Reino de Deus.

Missionário que seja capaz de construir com as comunidades indígenas, processos que fortaleçam a autonomia no diálogo intercultural, ecumênico e inter-religioso.

“A borracha cega, mas não cala”

Sérgio Silva, atingido pela PM, enquanto cobria manifestações em 13 de junho

Sérgio Silva, atingido pela PM, enquanto cobria manifestações em SP

13 de junho de 2013 – As ruas de São Paulo estavam ocupadas. Ocupadas de manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público, ocupadas de indignação e de imprensa.

Sérgio Silva, 31 anos, também ocupava as ruas fotografando, estava trabalhando, cobrindo as manifestações daquele 13 de junho. Foi atingido pela Polícia Militar, uma bala de borracha feriu seu olho esquerdo, o que diminui sua acuidade visual e poderá levá-lo à cegueira do olho esquerdo.

“Muitos outros companheiros da imprensa também foram atingidos enquanto estavam trabalhando, cumprindo o importante papel da imprensa para o aprofundamento da democracia. Sou testemunha de que cidadãos que protestavam pacificamente, ou simplesmente transeuntes voltando do trabalho, e que se depararam com a manifestação, também foram vítimas”, disse Sérgio que lidera um abaixo assiando na internet para proibir o uso de bala de borracha e gás de efeito moral contra manifestantes.

“Eu sei a dor que eu passei naquele dia, naquela noite, e é uma dor que eu não desejo nem para o policial que me acertou. Que ele não sinta nunca. Era vontade de querer morrer ali para não sentir mais a dor”. O desabafo de Sérgio foi registrado em vídeo pelo Sindicato dos Quimicos Unificados.

O abaixo assinado pode ser acessado, assinado e compartilhado aqui. A petição será entregue a Fernando Grella, Secretário de Segurança Pública; Geraldo Alckmin, governador de São Paulo; Edson Aparecido, Secretário da Casa Civil e Benedito Roberto Meira, Comandante Geral da Polícia Militar de São Paulo.

E você, já sofreu algum tipo de violência por parte da Polícia Militar enquanto se manifestava em sua cidade? Vote na enquete e compartilhe a situação aqu nos comentários, por uma Polícia Miltar mais preparada e uma sociedade mais democrática.

Protestos: para Haddad, vitória das ruas é política e não econômica

Sindicato dos Bancários

Foto: Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, concedeu ontem, dia 5, uma longa entrevista ao programa Contratempo. Nele, respondeu aos jornalistas e blogueiros Eduardo Guimarães, Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha e Altamiro Borges, sobre as consequências da diminuição da tarifa do transporte público e outros temas sociais.

Questionado por Paulo Amorim sobre a caixa Preta dos Transportes, o prefeito disse que irá abrir às últimas consequências e ainda que irá acabar com a taxa de inspeção veicular e criar o bilhete único mensal, ambas foram promessas de campanha. Sobre o Movimento Passe Livre, o prefeito garantiu que a vitória foi mais política do que econômica para os trabalhadores.

Haddad também respondeu quanto à sua aparição apática junto ao governador Geraldo Alckmin, dia 19 de junho, no Palácio dos Bandeirantes, para o anúncio da redução dos preços das tarifas de ônibus, metrô e trens metropolitanos. “O que estava em jogo num plano mais elevado na minha opinião é o interesse da cidade. Eu não vou ser desleal do ponto de vista político, quando eu sei que o governador atendeu um pedido federal, tanto quanto eu”.

Haddad também falou sobre a situação da população que reside aos arredores do estádio do Corinthians, na zona leste, sobre reassentamentos, democratização da comunicação, a construção do aeroporto de Parelheiros, entrega de uniformes aos estudantes em escolas municipais entre outros temas.

O programa Contratempo é uma iniciativa do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região em parceria com blogueiros, foi ao ar pela primeira vez nessa segunda-feira com a mediação da presidenta do Sindicato, Juvandia Moreira.

Jovens buscam um novo jeito de fazer política

2013-06-17 18.52.01Na esteira das manifestações sociais e religiosas que ocuparam as ruas do Brasil nos últimos meses, apresento uma breve entrevista que fiz, em 2011, com Fernando Altemeyer Júnior, doutor em ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A avaliação de Altemeyer é pertinente para o momento em que vive o país.

Ká entre Nós:  Poderíamos afirmar que as manifetações juvenis hoje, são mais de cunho pessoal, do que coletivo? por quê?
Fernando Altemeyer: É um padrão que não resiste à crítica dizer que os jovens de hoje são menos articulados e utopicos que os de ontem. O que há é uma imensa mutação de quadros simbólicos e de aprojeção cultural. Os jovens não são mais nem menos “coletivos” que os de maio de 1968 ou os “caras-pintadas” da década de 1990. São coletivamente diferentes.
Há manifestações juvenis eclodindo em todos os níveis: pessoais, afetivos, coletivos, articuladas, individualizadas, virtuais, libertadoras e miméticas ou ainda até alienadas e fundamentalistas. A capacidade polivalente dos jovens em dizer suas palavras, seus medos e suas esperanças se exprime de formas variadas (mauitas alegres e outras patéticas e plenas de sofrimento). A grande questão é se há interprétes para compreender esta “música” que por eles é produzida e difundida pelos quatro cantos do planeta. E sabendo ouvir, saber também dialogar. Ser ou não ser: eis a questão!

Ká entre Nós: Por quê o jovem, na grande maioria, não se filia mais a partidos políticos?
Fernando Altemeyer: Me arrisco a comentar sua afirmação assumindo que a participação juvenil em instituições formais tem diminuido. Penso que seja verdadeira esta desfiliação ou não-filiação, pois isto indicaria que os jovens preferem participar ativamente da sociedade civil, mais que da organização partidária, pois ela está viciada pelo poder e por mecanismos de manutenção de privilégios.
Muitos partidos não tem ajudado a forjar a democracia de forma clara e transparente. O que vemos é gente boa metida em máquinas velhas com resultados pífios. Alguns conseguem algo, mas outros são engolidos e manipulados. E ainda há as velhas raposas que querem manter a injustiça e a segregação de classe e raça em nosso país. É a velha e recorrente oligarquia que muda de partido mas não muda de prática corrupta e oportunista. Serve-se do Estado e dos bens públicos e não se fez servidor e funcionário do povo.
Talvez seja isso aquilo que afaste. Esta falta de ética e de visão utópica. Os jovens percebem que não há exemplos claros de valores. Fala-se muito e faz-se pouco ou nada. Jovem quer testemunho, beleza e festa. Haverá esta matéria prima onde? Nos partidos, com certeza, há grave carência. Penso que muitos jovens tem buscado alternativas para construir relações novas em favor de um outro mundo possível.  É esta sede que devemos alimentar e fomentar.

Reciclando vidas

As jornalistas Renata Moraes e Yara Almeida decidiram em trabalho de conclusão do curso de graduação na FIAM FAAM, em São Paulo, tratar do tema Reciclagem. A ideia inicial era apontar a falta de políticas públicas em torno dos resíduos sólidos e suas consequências, como os lixões e aterros sanitários, que hoje, segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE, são o destino de 27%  dos resíduos sólidos das cidades brasileiras.O tema, no entanto, percorreu outro caminho. “Em uma conversa com o nosso professor  Cláudio Tognolli, ele nos contou sobre o trabalho da OAF, com a reinserção social  por meio das cooperativas de reciclagem. Desde então, nos apaixonamos pelo tema, e pelas histórias das pessoas que conhecemos em todas as cooperativas”, disse Renata Moraes, e então, da reciclagem da matéria, dos resíduos sólidos, as jornalistas passaram para a reciclagem de vidas.Na entrevista, a seguir, a jornalista fala da importância do trabalho de instituições não govenamentais no acolhimento das pessoas em situação de vulnerabilidade social e da situação das políticas públicas em torno da reciclagem dos resíduos e também da vida das pessoas. O resultado do trabalho, você confere no vídeo publicado nesta página.Ká entre Nós: Por que decidiram trabalhar com esse tema?
Renata Moraes: Inicialmente quando decidimos nos juntar para fazer o nosso TCC, queríamos algum tema que fosse de comum interesse, de preferência algo como temas sociais, que sempre foram minha paixão durante a faculdade.
Escolhemos o tema da Reciclagem  e íamos  trabalhar com lixões e aterros sanitários. Mas em uma conversa com o nosso professor  Cláudio Tognolli, eles nos contou sobre o trabalho da OAF, com a reinserção social  por meio das cooperativas de reciclagem. Desde então nos apaixonamos pelo tema, e pelas histórias das pessoas que conhecemos em todas as cooperativas.
Ká entre Nós: Qual a avaliação que vocês fazem, a partir deste trabalho, das políticas públicas em SP voltadas para:
A- Acolhimento e reinserção das pessoas moradoras em situação de rua?
Renata Moraes: Baseada em nossa pesquisa de campo, para realizar a gravação do nosso vídeo documentário, foi possível perceber que há pelo menos dez anos em que as pessoas em situação de rua ou em risco social encontraram na reciclagem uma forma de serem reinseridas na sociedade. Uma forma de resgatarem sua dignidade, pois a maioria das pessoas que vivem em situação de rua chegou nesta situação devido o vício em drogas e álcool.A reciclagem chega como uma opção para aquelas pessoas que muitas vezes não possuem uma profissão. Principalmente no centro de São Paulo, que há uma grande quantidade de materiais que podem ser reciclados e a facilidade em encontrar esses materiais contribui bastante para que estas pessoas comecem a trabalhar com reciclagem.
B – O papel de entidades, como a OAF, no trabalho com os mais pobres, em situação de rua?
Renata Moraes: Entidades como OAF [OrganizaÇão de Auxílio Fraterno], Minha Rua Minha Casa, Coopamare, Recifran possuem um importante papel no trabalho com pessoas em situação de rua. Primeiramente que eles não oferecem apenas trabalho, emprego, mas oferecem a estas pessoas uma nova chance de recomeçar. Oferecem a eles a chance de reciclar suas vidas. Foi até este o título que escolhemos para o nosso TCC: Reciclando Vidas.As pessoas chegam nessas cooperativas um pouco que dilaceradas, cansadas, desacreditadas, semelhantes a pedacinhos de azulejos, e as cooperativas vêm como o rejunte, aquilo que vai juntar os cacos, os pedaços, como a reciclagem mesmo. O que é triste de se perceber, que a maioria destas entidades não possui o apoio financeiro da Prefeitura e do Estado. Das quatro cooperativas visitadas, nenhuma delas recebe este apoio. Apenas doações de empresas, associações e pessoas voluntárias. Tudo que é arrecado com a venda dos produtos reciclados é dividido entre os cooperados. Além de oferecer trabalho, estas cooperativas mostram a estas pessoas a importância social do trabalho de coleta seletiva, permitindo a valorização dos catadores. Eles são considerados agentes de transformação ambiental, contribuindo com o problema do lixo nas grandes cidades.

 

C – E sobre a reciclagem em SP? Qual a situação do município em relação à reciclagem?
Renata Moraes: Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a cidade gera, em média, 18 mil toneladas de lixo diariamente (lixo residencial, de saúde, restos de feiras, podas de árvores, entulho etc.). Só de resíduos domiciliares são coletados quase 10 mil toneladas por dia. Porém deste total apenas 1,2% é recolhido para reaproveitamento por prefeituras e concessionárias Ecourbis e Loga.Segundo informações do site do Instituto Ressoar, estima-se que a quantidade de lixo produzida semanalmente por um ser humano é de aproximadamente 5 kg. O Brasil produz 240 mil toneladas de lixo por dia, sendo que 88% deste lixo vai parar nos aterros sanitários. As cooperativas de reciclagem vêm crescendo rápido e podem ser encontradas nas grandes capitais e interior. Segundo dados do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), no final de 2006, em todo o país foram registrados 450 cooperativas formalizadas e aproximadamente 35 mil catadores cadastrados.Ká entre Nós: O que fica deste trabalho para a jornalista, Renata Moraes?

Renata Moraes: O mais gratificante de todo o trabalho foi ver e ouvir as histórias de pessoas que tiveram suas vidas resgatadas por meio do trabalho com a reciclagem do lixo. Vivenciei a alegria de ouvir delas que antes não tinham onde morar, o que comer, e que depois que conheceram o trabalho com a reciclagem, começaram a sonhar com uma vida nova.Tantos depoimentos daqueles que agora têm um teto, mesmo que seja em uma pensão, em um albergue, ou até mesmo uma oficina emprestada para morar. Que agora têm um salário, que podem comprar suas próprias roupas, seu alimento.

Também fica o questionamento do quanto, nós como população podemos contribuir com o problema da destinação correta do lixo em nossas cidades. Nos falta, muitas vezes, à educação ambiental, ensinar as pessoas a reciclar, não apenas pela contribuição ambiental, mas também por saber que o lixo que eu reciclo pode ajudar pessoas a sair da situação de rua a terem um futuro diferente, a voltar a ter a dignidade da pessoa humana.

Imprensa é impedida de cobrir ocupação em Belo Monte

CimiEm Vitória do Xingu (PA), os jornalistas Lunaé Parracho (fotógrafo da Agência Reuters), Ruy Sposati  (Conselho Indigenista Missionário) e François Cardona (correspondente da Radio France Internationale no Brasil) , e o deputado Padre Ton (PT-RO) foram impedidos de permaner no principal canteiro de construção da barragem de Belo Monte, o Sítio Belo Monte e isso porque a juíza Cristina Sandoval Collier da 4a. Vara Cível de Altamira concedeu pedido reintegração de posse contra não-indígenas que estivessem no canteiro.

Desde quinta-feira, 2, cerca de 200 indígenas dos rios Xingu, Tapajós e Teles Pires afetados pela construção de usinas hidrelétricas ocupam o maior canteiro dos quatro abertos para as obras de Belo Monte, no município de Vitória do Xingu (PA), a 50 quilômetros de Altamira. As informações e a foto são do jornalista Ruy Sposati, direto de Altamira (PA).

“Nós somos a gente que vive nos rios em que vocês querem construir barragens. Nós somos Munduruku, Juruna, Kayapó, Xipaya, Kuruaya, Asurini, Parakanã, Arara, pescadores e ribeirinhos. Nós somos da Amazônia e queremos ela em pé. Nós somos brasileiros. O rio é nosso supermercado. Nossos antepassados são mais antigos que Jesus Cristo”, dizem os indígenas em carta apresentada na data da ocupação e disponível aqui.

Na sexta-feira, 3, foi negado pela Justiça Federal o pedido de reintegração de posse da Norte Energia contra os indígenas que lá permanecem e exigem que as obras sejam suspensas até que eles sejam ouvidos pelo governo federal.

Por que jornalistas e um deputado não podem permanecer no canteiro de obras? Há algo para se esconder? No sábado, 4, os indígenas publicaram nova carta, intitulada Deixem os jornalistas aqui.  “A cobertura jornalística ajuda muito. Nós exigimos que a juíza retire o pedido de reintegração de posse, não aplique multas e permita que jornalistas, acadêmicos, voluntários e organizações possam continuar testemunhando o que nós passamos aqui, e ajudar a transmitir nossa voz para o mundo”.

Trabalhadores são escravos do luxo

José_nome fictício, seu rosto deve ser preservadoEm fevereiro, deste ano, publiquei na Revista Família Cristã, uma reportagem sobre a situação de escravidão que trabalhadores imigrantes bolivianos sofriam em oficinas de costura na maior cidade do país, São Paulo. Confira trecho da reportagem:

“De oficina em oficina, José* chegou à de Rolando Poma Mendonça, uma dos 17 pontos clandestinos que costuravam exclusivamente para as Confecções Talita Kume Ltda. e compunham sua rede produtiva. Localizada no Jardim Modelo, zona norte da capital paulista, a oficina foi autuada em junho de 2012 pela fiscalização do Pacto contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo. Na ocasião, foram libertados seis homens (entre os quais, José*), duas mulheres e dois adolescentes (um com 16 e outro com 17 anos), todos trabalhando em situação semelhante à escravidão. “Já perdemos o controle do número dessas oficinas, são muitas. Na zona norte de São Paulo, você verá guetos de bolivianos que moram e trabalham no mesmo imóvel. Só saem aos domingos para descansar”, garante o auditor Luís Alexandre.”

A reportagem na íntegra você pode conferir no site da Revista Família Cristã.
As fotos são do Pacto Contra a Precarização e pelo emprego e trabalho decentes em São Paulo.


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