Irmã das crianças e dos mais pobres

Do sudoeste do Paraná à periferia de São Paulo, irmã Clara contou partes de sua missão em levar educação e cultura às crianças e aos mais pobres

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A entrevista com a irmã Clara Amadio aconteceu em maio de 2017. Ela estava com 86 anos. Ontem, 25 de abril de 2018, soubemos de sua morte. Ela partiu, mas é certo que deixa em muitos de nós, inclusive em mim, sua energia, vitalidade e paixão em tudo amar e servir. Esteja em paz, irmã Clara. Seu sorriso e seu exemplo não serão esquecidos.

Segue a matéria que fiz sobre ela, nos morros da nossa Brasilândia… A entrevista aconteceu na primeira sala de catequese que sua congregação instalou no Elisa Maria, um bairro da periferia de São Paulo. Era 1993 e o bairro figurava entre as regiões mais violentas do estado de São Paulo quando as missionárias armaram sua “tenda” por lá.

Pequena, a sala tinha um sofá duro que apontava: ali não havia descanso. Para poder nos receber, a religiosa tinha acordado às 5h30. Já tinha atendido uma família, que segundo ela estava bem desestruturada, passou peças de roupa, secou o cabelo e deu um jeito nas unhas, embora tenha dito que não cultiva muita vaidade.

A conversa foi longa e nos levou ao começo de tudo: Capivari, cidade no interior de São Paulo onde a religiosa nasceu e foi batizada pelos pais Maria Luiza e Jiácomo como Etelvina Amadio, que em italiano significa Ama Deus. “Eu tive uma infância muito simples e muito bonita”, confessou a religiosa.

Caçula da família de sete irmãos, a menina tornou-se irmã Clara anos depois, quando completou 21 anos e entrou para a Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora. Em 1956, professou os votos religiosos. Ela conta que sua família não queria e que a impediu desde os 18 anos de idade de entrar para o convento.

Na ocasião, além da lista de enxoval, a jovem precisava apresentar um atestado de saúde à congregação para que iniciasse a vida religiosa, mas em consulta médica descobriu que ao longo de três meses seus irmãos estavam intervindo com o médico. “Era o médico da família, mas o meu irmão Fausto tinha passado antes de mim lá e ajeitado tudo com ele”, contou lembrando-se das artimanhas do irmão.

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Pressionou o médico e enfim conseguiu o atestado. No dia em que saí de casa para Jaú, local do convento, a família entrou em choque. “Naquele dia ninguém foi trabalhar. Parecia que alguém tinha morrido de tanto choro. A minha mãe levantou às 4 horas da manhã pra chorar mais e já fazia três dias que ela chorava. Meus irmãos homens, barbados, todos chorando”, contou a irmã com sorriso sincero, achando graça de seu passado.

Não foi só a partida que fora difícil. Quando chegou ao convento, achou o hábito, a roupa de freira, um tanto estranha, mas pensou: “não vou deixar de ser freira por causa disso”. Às vésperas do Concílio Vaticano II (1962-1965), irmã Clara liderava uma certa rebeldia junto às demais jovens e viveu os novos ares deste novo tempo na Igreja. “Ele (o Concílio) abriu o caminho. O que era essência e o que não era essência. Ele mostrou o que era principal, importante tanto para as freiras quanto para a Igreja toda. Ela queria era ajudar os mais pobres, servi-los, mas não entendia determinadas regras.

“Eu não aceitava tudo. Eu tinha dificuldade para ser obediente. Eu era liberta e briguenta, porque eu dialogava demais e isso lá (no convento) era meio raro. Eu batia na porta da superiora e falava irmã, eu não gostei da sua atitude naquele momento, a senhora errou. Ela via que eu uma menina boa e que tinha dom, por isso perdoava”, desabafou a irmã.

O caminho – Com suas sandálias andou pelo País levando a presença e o carinho de Deus, a Palavra transformadora. Destaca, contudo, uma experiência em especial, a que viveu no Paraná com famílias de agricultores analfabetos em Jaracatiá, hoje conhecida por Enéias Marques, no sudoeste do estado.

Era 1965 e lembra-se da simplicidade do povo, do frio que era grande e desafiava ainda mais a vida naquele cotidiano. Sem luz, a religiosa conta que as aulas duravam o tempo que as velas levavam pra queimar. “Quando acabava a vela, acabava a aula. Mas as velas daquele tempo eram melhores que as de hoje. Duravam mais tempo”, disse a irmã, divertindo-se.

Lembra-se que muitos adultos e crianças atravessavam quilômetros a pé e descalços a roça queimada pela geada para estudar com irmã Clara. Chegavam com os pés congelados, e lá a irmã os acolhia com duas bacias e uma toalha. Lavava os pés de cada um que chegava. Primeiro na água fria, para tirar o gelo, e depois na quentinha, a fim de aquecê-los e prepará-los para a aula.

Secava os pés de cada um e deixava-os prontos para o chão de madeira da escola improvisada, que tão bem os acolhia. Ali, o ensino ia além de qualquer conteúdo programático, e a ceia do lava-pés acontecia todo dia. “Ali, éramos três professoras e eu era a diretora também. Tínhamos uma relação de muito carinho com todos os alunos”, confidenciou a religiosa.

Anos mais tarde, em 2013, irmã Clara voltou à escola para matar a saudade daquele povo e para sua surpresa e lágrimas reviveu os gestos que praticara décadas antes. Seus olhos, socorridos por um par de óculos, acompanharam dois homens adultos se aproximarem com bacias e toalhas. Lavaram e secaram-lhe os pés.

“E eles lavaram meus pés lembrando quantas vezes eu lavei os pés deles. Carregaram-me no colo, você acredita? Há muitas marcas, muitas”, diz a irmã, emocionada. “Foi um gesto muito bonito”, conta a irmã com os olhos fechados bem apertados, sorriso de gratidão e mãos juntas postas sobre o peito, como se revivesse aquela cena.

São Paulo – Há 21 anos irmã Clara vive no Jardim Elisa Maria e faz desse espaço sua casa, onde doa e recebe atenção. Caminha pela periferia de muito buraco, lixo e esperança, sendo chamada pelo nome carinhosamente. “A presença das irmãs aqui no bairro foi muito importante e decisiva na vida de muito jovens, como eu. Elas nos deram educação e possibilidades de crescer e fazer o bem longe do mundo do crime”, disse Kelly Suzana de Araújo Silva, 37 anos, o braço-direito de irmã Clara.

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Irmã Clara Amadio e Kelly Suzana de Araújo

Kelly é graduada em administração e teologia. Caminha agora para sua segunda pós-graduação na área de pedagogia. É testemunha viva do bem que irmã Clara e sua congregação fizeram para o bairro. Hoje, ela é diretora da Associação Sociocultural Madre Teresa de Jesus, iniciada na comunidade quando irmã Clara era provincial de sua congregação. E o capítulo para a conquista do terreno de ampliação para a associação conta com boas doses daquela “santa” rebeldia de sua juventude.

Na ocasião, por volta de 1995, irmã Clara escreveu cartas e mais cartas ao então arcebispo de São Paulo, cardeal dom Claudio Hummes, apresentando a realidade do bairro e pedindo dinheiro para a compra de um terreno no Jardim Elisa Maria que ampliasse a oferta de projetos para a comunidade. Contou com a ajuda do então bispo auxiliar da Região Episcopal Brasilândia, o falecido dom José Benedito Simão, para ganhar o coração do cardeal.

Com o dinheiro compraram o terreno e, de lá para cá, a associação oferece diariamente educação e atividades de cultura e lazer. Com 12 funcionários, recebem diariamente 220 crianças e adolescentes, divididos em duas salas com idades de seis e sete anos, duas de nove e dez anos, uma sala de oito e nove e duas de 11 a 15 anos.

“Sempre o Senhor me inspirou a amar muito as crianças e aos pobres. Não vale a pena viver e só rezar. A oração e a ação têm que estar perfeitamente unidas e desde criança sempre fui muito levada a querer o bem dos outros e sempre lutei por isso”, conta a irmã, que tem diabetes e três pontes de safena no coração.

Segundo os médicos precisa aprender a pisar no freio nas atividades pelos morros do Jardim Elisa Maria, o que parece ser a tarefa mais difícil de ser cumprida, já que aos 86 anos a irmã continua não medindo esforços para chegar às crianças e aos mais pobres, levando educação e plenitude na vida.

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(in memoriam)

Todo dia é dia de índio

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Entrevista de Karla Maria
Fotos de Thiago Gomes/AG. Pará

Mais de três mil indígenas que participam do 14º Acampamento Terra Livre tomaram as ruas da Esplanada dos Ministérios, em Brasília ontem, dia 24 de abril. Depois de realizar uma grande marcha fúnebre, foram reprimidos por policiais que usavam gás lacrimogênio e spray de pimenta contra os manifestantes e dentre eles mulheres, crianças e idosos.

O mês de abril, guarda um dia em especial no calendário brasileiro para “falar” sobre o índio. Nessa data, urge em meio à sociedade brasileira um novo olhar sobre os povos tradicionais que tiveram parte de suas terras e tradições dizimadas pela invasão do homem branco.

Mas para outros, como Conselho Indigenista Missionário (Cimi), todos os dias são dias de índio, de lutar pelos direitos desses brasileiros e na entrevista a seguir, o presidente da entidade, dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO), faz uma avaliação crítica da situação dos povos tradicionais e denuncia o desmonte de direitos já garantidos na Constituição Federal.

Trechos dessa entrevista foram publicados na edição de abril de 2017 da Revista Família Cristã.

1- Como o senhor avalia a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 – em tramitação na Câmara dos Deputados – que proíbe a ampliação de terras indígenas já demarcadas e transfere ao Congresso a decisão sobre novas demarcações

A PEC está na mesma perspectiva do desmonte dos direitos conquistados na Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã” que deu um passo importante na superação de uma legislação arcaica em relação aos povos originários. Está no bojo das tentativas de retroceder em direitos fundamentais, que para os povos indígenas passam pelo direito aos seus territórios que são base para a preservação de suas culturas, espiritualidades, tradições entre outras dimensões da vida.

Somada a esta iniciativa de mudança na Constituição estão outras ações, fundamentalmente engendradas pela chamada bancada ruralista, esta que vem se manifestando contrária aos direitos dos povos, principalmente os territoriais.

Segundo vários juristas a transferência da responsabilidade pelas demarcações é inconstitucional, pois toca em cláusulas pétreas. Além do que todo o processo para a demarcação estaria submetido aos trâmites do Congresso Nacional, que já se demonstra moroso, ainda mais num contexto em que muitos parlamentares são contra as demarcações.

Infelizmente, apesar da Constituição Federal ter dado o prazo de cinco anos para que as terras indígenas fossem demarcadas, após quase 30 anos muitas terras seguem sem mesmo terem seus estudos realizados.

2- O fato de termos no Congresso Nacional uma forte representatividade das entidades do agronegócio, de termos a bancada ruralista, pode causar impactos negativos para a demarcação de terras caso a PEC 215 seja aprovada?

A bancada ruralista é a principal promotora da PEC 215, sendo que a Comissão Especial que aprovou o texto da PEC em 2015 foi composta majoritariamente por parlamentares da Frente Parlamentar Agropecuária. Sem dúvida se criaria muitos impasses e dificilmente os povos indígenas seriam respeitados, pois vivemos em um país preconceituoso em relação aos modos de vida e a especificidade dos povos.  Muitos querem que os povos entrem na mesma dinâmica do consumo e que suas terras possam ser exploradas. O que a PEC 215 objetiva é a disponibilização das terras indígenas para o mercado de terras, ou seja, que empreendimentos do agronegócio ou outros estejam livres para explorar as riquezas presentes nestas terras, em muitos casos preservadas pelos indígenas.

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3- O então ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, publicou recentemente no Diário Oficial uma portaria que cria um grupo de trabalho no ministério com o poder de reavaliar os processos de demarcação em andamento. Como o senhor e o Cimi avaliam isso? Essa atitude não fragiliza o trabalho da Fundação Nacional do Índio (Funai)?

A Portaria ao criar um GT no âmbito do Ministério da Justiça na prática burocratiza ainda mais os processos para a demarcação das terras indígenas, que hoje são regulamentados pelo Decreto 1.775 de 1996. Este Decreto já estabelece todo o “rito” para a demarcação de uma terra. O GT criado responde a demandas dos ruralistas. Por isso, a nossa preocupação é de que ele seja usado como instrumento para construção de falsos argumentos e que estes sejam usados pelo Ministro da Justiça para desaprovar os laudos antropológicos de identificação e delimitação de terras indígenas.

Sobre a Funai, esta vem sendo desestruturada tendo cortes profundos em seu orçamento, praticamente inviabilizando suas ações.

4- Como o Cimi avalia a nomeação e atuação do novo presidente da Funai, Antonio Fernandes Toninho Costa?

Pessoalmente não temos nada contra o Sr. Antônio, contudo a indicação dele pelo PSC é o exemplo de um governo que ‘loteia’ cargos para cumprir acordos no pacto feito para o impeachment da Presidente Dilma.

5- A indicação de Ubiratan de Souza Maia para a coordenação-geral de Licenciamento Ambiental da Funai tem gerado desconforto entre os funcionários da autarquia. Ele é acusado pelo Ministério Público de arrendar terras indígenas ilegalmente. Na denúncia, o MPF pede o ressarcimento de R$ 240 mil à comunidade Terra de Chapecó. Como o Cimi enxerga essa indicação?

 Eu particularmente não conheço o Sr. Ubiratan, contudo não seria bom para qualquer autarquia pública ter em seu quadro um servidor que responde a acusações judiciais justamente por desrespeitar a Constituição Federal e os direitos que deve defender. Creio também que é um direito dos funcionários de carreira do órgão se manifestar sobre qualquer nomeação.

6- Os conflitos de terra ainda fazem vítimas pelo País e os indígenas estão entre eles. Como sair desse cenário? Quais as saídas que o Cimi aponta?

Todos os anos o Cimi publica o Relatório Violência contra os Povos Indígenas, onde estão relacionados muitos dos casos de violências e violações contra os povos. Destacamos as violações contra o patrimônio, contra pessoa indígena e os casos de omissão quanto aos direitos à saúde, educação e terra.

Muitas das violências e violações estão vinculadas à negação ao direito territorial destes povos, seja pela não demarcação ou pela invasão de territórios demarcados. Parte da solução para estes casos passa, então, pela efetiva demarcação das terras indígenas e pela proteção destes territórios pelo Estado brasileiro. Também é fato que a impunidade frente aos crimes cometidos contra estes povos reforça as violências, pois os agressores sentem que não sendo punidos podem seguir violando a lei.

Em março de 2016 o Brasil recebeu a visita da Relatora Especial da ONU para os Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpus. Ela esteve em visitas aos indígenas Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, povos que vem sendo há anos vitimados por ataques de paramilitares e pela negação de seu direito à terra.

Em seu Relatório, apresentado em setembro do mesmo ano, Victória fez duras críticas ao governo brasileiro e ao descaso deste para com os povos indígenas.

7- Quais as maiores demandas que o Cimi apresenta ao estado brasileiro no que diz respeito às políticas públicas que garantam os direitos das populações indígenas?

Como apontado antes, entre estas demandas está a efetiva demarcação e proteção das terras. Os povos demandam ainda a efetivação de uma Educação Escolar Indígena diferenciada, com respeito às suas culturas e formas de organização; também o atendimento à saúde, embora a criação da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena, segue com grandes deficiências.

O Brasil é signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho que, entre outras dimensões, reafirma a autodeterminação dos povos. Neste aspecto, os povos vêm cobrando que o direito à consulta previa, livre e informada seja respeitado quando da realização de qualquer ação que os afetem.

8- Percebe-se uma onda de criminalização dos movimentos sociais por parte de alguns partidos políticos. O senhor acredita que isso esteja acontecendo agora com entidades que defendem os direitos indígenas, como o próprio Cimi, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Brasileira de Antropologia (ABA)? Como o senhor avalia esse cenário e qual a resposta do Cimi sobre o pedido de quebra de sigilo bancário e fiscal na CPI da Funai?

Os primeiros criminalizados são os próprios povos e lideranças indígenas, pois seus direitos elementares são negados. Em segundo lugar vemos uma onda de criminalização de todos os que se opõe ao projeto hegemônico do capital, que tem em sua base a exploração dos bens da natureza.

Há 30 anos o Cimi enfrentou uma primeira CPI, com acusações infundadas que tentavam desmoralizar e criminalizar o Cimi. Em 2015 a Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul também instalou uma CPI para supostamente investigar as ações do Cimi; outra CPI, para investigar a Funai e o Incra, instaladas na Câmara dos Deputados também buscam investigar o Cimi e as organizações citadas, além do Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Tanto em 1987 quanto agora, a presidência da CNBB assumiu a defesa do Cimi e de seus missionários e missionárias.

Estranhamente as CPIs de 1897 e a do MS não encontraram nada que de fato possa incriminar o Cimi e a CPI da Câmara que investiga órgãos públicos, quer investigar-nos mesmo sabendo que não acessamos qualquer recurso público.

De fato estas CPIs visam criminalizar os povos indígenas e seus aliados.

9- O Projeto Cruviana, um sistema de geração de energia eólica e solar para abastecer comunidades tradicionais da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, feito em parceria entre o Conselho Indigenista de Roraima, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), pode ser visto como um exemplo de sucesso de terra indígena demarcada que preserva o ambiente e gera energia? Por que esse projeto não é tão conhecido?

Este projeto é uma demonstração concreta de que o Brasil tem uma potencialidade para gerar de forma alternativa energia, sem obrigatoriamente determinar a construção de grandes hidrelétricas, como são os planos dos diferentes governos.

A mídia corporativa e empresarial, por interesse econômico das corporações que financiam suas programações, prioriza a veiculação de informações que se contraponham às demarcações das terras indígenas e esconde as iniciativas positivas dos povos.

10- Estudos revelam que o desmatamento é significativamente menor dentro de reservas indígenas bem estabelecidas (uns 40% no Brasil, por exemplo) do que em áreas não demarcadas, o que revela que a presença indígena protege as florestas e traz uma série de outros benefícios com impactos econômicos positivos diretos ou indiretos: estabiliza o clima regional, garante o suprimento de água para a agricultura e o consumo humano (já que matas atuam como imensos filtros naturais) e abriga polinizadores, sem os quais muitas lavouras não vingam. Do ponto de vista humano, como os indígenas podem nos servir de exemplo no dia a dia, por exemplo no que diz respeito ao viver em família e ao bem viver e preservar toda a criação?

Os povos indígenas sempre buscam manter uma vida harmoniosa com a natureza, respeitando seus ciclos e utilizando de forma que esta possa continuar se mantendo e mantendo a vida de suas comunidades.

Esta maneira de viver dos povos foi lembrada pelo Papa Francisco em sua Encíclica Laudato Sí e também no encontro realizado com representantes dos Povos Indígenas, onde o Papa afirmou que os povos é quem devem ter a palavra final sobre suas terras. Sabemos que, como lembrou Francisco, há projetos que ameaçam esta harmonia, pois em vista de um desenvolvimento que não os inclui, impactam a natureza e, consequentemente, os povos. Assim vemos as grandes hidrelétricas, estradas e outros empreendimentos.

O Bem Viver que significa a vivência harmônica com a natureza e entre os seres humanos, como preconizam os povos andinos é uma grande lição que nós precisamos aprender, pois ao invés de cuidar da criação estamos destruindo.

11- Sobre a evangelização, como se dá a missão junto aos indígenas tendo em vista a identidade cultural de cada povo?

O Cimi tem como ponto de partida o diálogo, o respeito pela diferença e, como nos afirma o Documento de Aparecida, pelas “sementes do Verbo” presentes nos povos indígenas. Como popularmente se diz: “Deus estava presente no meio dos povos indígenas antes dos Europeus chegarem aqui”. Assim, a Evangelização não pode ser uma imposição, mas fruto da vivência e do Evangelho Gritado pela Vida, como nos ensinou Carlos de Foucauld; nunca uma demonização das tradições, costumes e espiritualidades dos povos. Respeitamos a identidade de cada povo e alteridade de cada povo que também passa por suas expressões religiosas. Entre povos que já possuem experiências antigas de catequese e cristianismo, o Cimi busca responder de forma respeitosa, de maneira encarnada.

12- Há projetos dos regionais da CNBB que enviam missionários do sul para a Amazônia? Faltam missionários juntos aos indígenas? Qual o trabalho que ainda precisa ser desenvolvido?

Mais que trabalhos pré estabelecidos, necessitamos de presença de missionários e missionárias que desejem assumir um processo de encarnação junto aos povos indígenas. Pessoas que sejam capazes de construir com as comunidades. Homens e mulheres que nos ajudem a construir pontes, que tenham a coragem de descalçar as sandálias e sejam pessoas apaixonadas pelo Reino de Deus.

Missionário que seja capaz de construir com as comunidades indígenas, processos que fortaleçam a autonomia no diálogo intercultural, ecumênico e inter-religioso.

Gente simples, fazendo coisas pequenas na construção da paz

Foto de Paulo Flores / CEBs fazem memória de seus mártires
Foto: Paulo Flores / Momento das Dores e Alegrias de Maria

CEBs a caminho de Crato para seu 13. Intereclesial

O 13º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) já começou, ao menos para os 400 delegados do Estado de São Paulo, que participaram neste fim de semana, dias 21 e 22, em Pirajuí, Diocese de Lins, de um encontro preparatório e de envio para o encontro nacional das CEBs, que acontecerá de 7 a 11 de janeiro, de 2014, em Juazeiro do Norte (CE), na “Terra de Padim Cícero”.

A Arquidiocese de Sao Paulo foi representada por cerca de 90 pessoas, entre delegados (79) e convidados (11). As regiões episcopais Brasilândia e Belém contam com o maior número de delegados, 38 cada. Assessorados pelos padres Benedito Ferraro e Nelito Dornelas Justiça, os delegados refletiram sobre a identidade das CEBs e a Profecida a serviço da Vida. “Quando falamos de CEBs falamos de fé e vida. O nosso compromisso social é a luta pela justiça”, aponta carta final do Encontro.

O tema trabalhado ao longo dos dias, é o mesmo que norteará  a dinâmica no Ceará, em janeiro de 2014: Justiça e Profecida a Serviço da Vida, CEBs Romeiras do Reino no Campo e na cidade. É tradição, as CEBs de todo o Brasil partilharem suas experiências de comunidade de fé, após a análise de conjuntura da realidade que se vive eclesial e políticamente. E, é diante dessas realidades, e em memória dos Mártires da Igreja, que estas lideranças assumem compromissos para a Construção do Reino, com o pé fincado na realidade, em geral do mais empobrecido.

Para Jefferson Rodrigues, 21 anos, membro da Pastoral da Juventude e um dos delegados da Arquidiocese, o encontro deixou uma mensagem. “Que todos nós cristãos possamos estar sempre a serviço da vida. Que saiamos do nosso comodismo, e debaixo dos telhados das igrejas, para ir ao encontro da verdadeira Igreja, que está nas ruas, no campo e na cidade”.

Jefferson também esteve no Rio de Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude, para se encontrar com o papa Francisco, que vem reforçando a cada dia, seu desejo de ver uma Igreja mais próxima dos pobres. Os delegados de todo o Estado foram acolhidos pelo bispo de Lins,  dom Irineu Danelon e acompanhados pelo bispo referencial das CEBs, dom José Luiz Bertanha.

Karla Maria, publicada no Jornal O SÃO PAULO.

Reciclando vidas

As jornalistas Renata Moraes e Yara Almeida decidiram em trabalho de conclusão do curso de graduação na FIAM FAAM, em São Paulo, tratar do tema Reciclagem. A ideia inicial era apontar a falta de políticas públicas em torno dos resíduos sólidos e suas consequências, como os lixões e aterros sanitários, que hoje, segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE, são o destino de 27%  dos resíduos sólidos das cidades brasileiras.O tema, no entanto, percorreu outro caminho. “Em uma conversa com o nosso professor  Cláudio Tognolli, ele nos contou sobre o trabalho da OAF, com a reinserção social  por meio das cooperativas de reciclagem. Desde então, nos apaixonamos pelo tema, e pelas histórias das pessoas que conhecemos em todas as cooperativas”, disse Renata Moraes, e então, da reciclagem da matéria, dos resíduos sólidos, as jornalistas passaram para a reciclagem de vidas.Na entrevista, a seguir, a jornalista fala da importância do trabalho de instituições não govenamentais no acolhimento das pessoas em situação de vulnerabilidade social e da situação das políticas públicas em torno da reciclagem dos resíduos e também da vida das pessoas. O resultado do trabalho, você confere no vídeo publicado nesta página.Ká entre Nós: Por que decidiram trabalhar com esse tema?
Renata Moraes: Inicialmente quando decidimos nos juntar para fazer o nosso TCC, queríamos algum tema que fosse de comum interesse, de preferência algo como temas sociais, que sempre foram minha paixão durante a faculdade.
Escolhemos o tema da Reciclagem  e íamos  trabalhar com lixões e aterros sanitários. Mas em uma conversa com o nosso professor  Cláudio Tognolli, eles nos contou sobre o trabalho da OAF, com a reinserção social  por meio das cooperativas de reciclagem. Desde então nos apaixonamos pelo tema, e pelas histórias das pessoas que conhecemos em todas as cooperativas.
Ká entre Nós: Qual a avaliação que vocês fazem, a partir deste trabalho, das políticas públicas em SP voltadas para:
A- Acolhimento e reinserção das pessoas moradoras em situação de rua?
Renata Moraes: Baseada em nossa pesquisa de campo, para realizar a gravação do nosso vídeo documentário, foi possível perceber que há pelo menos dez anos em que as pessoas em situação de rua ou em risco social encontraram na reciclagem uma forma de serem reinseridas na sociedade. Uma forma de resgatarem sua dignidade, pois a maioria das pessoas que vivem em situação de rua chegou nesta situação devido o vício em drogas e álcool.A reciclagem chega como uma opção para aquelas pessoas que muitas vezes não possuem uma profissão. Principalmente no centro de São Paulo, que há uma grande quantidade de materiais que podem ser reciclados e a facilidade em encontrar esses materiais contribui bastante para que estas pessoas comecem a trabalhar com reciclagem.
B – O papel de entidades, como a OAF, no trabalho com os mais pobres, em situação de rua?
Renata Moraes: Entidades como OAF [OrganizaÇão de Auxílio Fraterno], Minha Rua Minha Casa, Coopamare, Recifran possuem um importante papel no trabalho com pessoas em situação de rua. Primeiramente que eles não oferecem apenas trabalho, emprego, mas oferecem a estas pessoas uma nova chance de recomeçar. Oferecem a eles a chance de reciclar suas vidas. Foi até este o título que escolhemos para o nosso TCC: Reciclando Vidas.As pessoas chegam nessas cooperativas um pouco que dilaceradas, cansadas, desacreditadas, semelhantes a pedacinhos de azulejos, e as cooperativas vêm como o rejunte, aquilo que vai juntar os cacos, os pedaços, como a reciclagem mesmo. O que é triste de se perceber, que a maioria destas entidades não possui o apoio financeiro da Prefeitura e do Estado. Das quatro cooperativas visitadas, nenhuma delas recebe este apoio. Apenas doações de empresas, associações e pessoas voluntárias. Tudo que é arrecado com a venda dos produtos reciclados é dividido entre os cooperados. Além de oferecer trabalho, estas cooperativas mostram a estas pessoas a importância social do trabalho de coleta seletiva, permitindo a valorização dos catadores. Eles são considerados agentes de transformação ambiental, contribuindo com o problema do lixo nas grandes cidades.

 

C – E sobre a reciclagem em SP? Qual a situação do município em relação à reciclagem?
Renata Moraes: Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a cidade gera, em média, 18 mil toneladas de lixo diariamente (lixo residencial, de saúde, restos de feiras, podas de árvores, entulho etc.). Só de resíduos domiciliares são coletados quase 10 mil toneladas por dia. Porém deste total apenas 1,2% é recolhido para reaproveitamento por prefeituras e concessionárias Ecourbis e Loga.Segundo informações do site do Instituto Ressoar, estima-se que a quantidade de lixo produzida semanalmente por um ser humano é de aproximadamente 5 kg. O Brasil produz 240 mil toneladas de lixo por dia, sendo que 88% deste lixo vai parar nos aterros sanitários. As cooperativas de reciclagem vêm crescendo rápido e podem ser encontradas nas grandes capitais e interior. Segundo dados do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), no final de 2006, em todo o país foram registrados 450 cooperativas formalizadas e aproximadamente 35 mil catadores cadastrados.Ká entre Nós: O que fica deste trabalho para a jornalista, Renata Moraes?

Renata Moraes: O mais gratificante de todo o trabalho foi ver e ouvir as histórias de pessoas que tiveram suas vidas resgatadas por meio do trabalho com a reciclagem do lixo. Vivenciei a alegria de ouvir delas que antes não tinham onde morar, o que comer, e que depois que conheceram o trabalho com a reciclagem, começaram a sonhar com uma vida nova.Tantos depoimentos daqueles que agora têm um teto, mesmo que seja em uma pensão, em um albergue, ou até mesmo uma oficina emprestada para morar. Que agora têm um salário, que podem comprar suas próprias roupas, seu alimento.

Também fica o questionamento do quanto, nós como população podemos contribuir com o problema da destinação correta do lixo em nossas cidades. Nos falta, muitas vezes, à educação ambiental, ensinar as pessoas a reciclar, não apenas pela contribuição ambiental, mas também por saber que o lixo que eu reciclo pode ajudar pessoas a sair da situação de rua a terem um futuro diferente, a voltar a ter a dignidade da pessoa humana.

Meus dias de conclave

jornalistaLonge das minhas habituais pautas, os últimos dias foram para mim um conclave, e explico. Morando em um país de minoria católica, acompanhei os passos dos 115 cardeais pelos sites e tvs de diferentes países. Esta foi, sem dúvida, uma experiência importante, um exercício de observação do comportamento da mídia e do impacto que este homem, agora líder de 1,2 bilhão de pessoas já provoca na sociedade.

O primeiro impacto, simplicidade e despojamento. Francisco, o papa, chega pedindo a benção do povo,  se curva a ele, em um gesto de serviço e amor. Seu nome revela o cuidado necessário e urgente com os pobres. Um segundo impacto, as notícias que emergem sobre a ligação do então arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, com a última ditadura militar na Argentina (1976-1983).

Para refutar o segundo impacto, o ativista argentino de direitos humanos Adolfo Pérez Esquivel, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1980, em entrevista a BBC Mundo afirmou: “Questionam Bergoglio porque dizem que ele não fez o necessário para tirar dois sacerdotes da prisão, sendo ele o superior da congregação de jesuítas. Mas eu sei pessoalmente que muitos bispos pediam à junta militar a liberação dos presos e sacerdotes e não eram atendidos”.

O caro leitor deste Ká entre Nós, que muito me honra com a sua presença virtual pode também apontar “a Karla Maria, claro, vai defender o papa porque ela é jornalista católica”… Tenho ouvido isso nesses dias e me sinto na obrigação de esclarecer que sim sou católica apostólica romana, isso faz parte da minha cultura, da minha opção de vida.

Obviamente que os valores que aprendi na Igreja Católica se aplicam diariamente no meu jornalismo, porque valores, ora, são valores, e posso falar sobre eles: amor e respeito ao próximo de toda cor, origem, raça, gênero, credo, compromisso de serviço à sociedade, solidariedade, busca por justiça e dignidade.

Somado a esses valores estão o faro e a alma da jornalista que sempre procura a verdade dos fatos e dos dados à serviço do bem comum, e de acordo com meu compromisso profissional jamais me refutarei a escrever a verdade apurada, ainda que atinja meus “amores, credos ou ideais pessoais”. O que não posso e não farei é entrar na onda dos achismos infundados, do jornalismo preguiçoso e republicar informações sem dados ou provas concretas.

Ser católica não limita ou restringe meu compromisso com a pluralidade e a verdade dos fatos, só reitera meu dever de trabalhar pelo bem comum, sempre, pela verdade, sempre.

Folha de S. Paulo e a entrevista de Leonardo Boff não publicada

lboffLeonardo Boff, concedeu uma entrevista à jornalista Patricia Britto, da Folha de S. Paulo. O trabalho foi publicado dia 15 de fevereiro, às 05h30 e está disponível neste link com o título Igreja precisa de pontífice ‘mais pastor que professor’, diz Leonardo Boff.

Hoje, às 16h16, horário de Brasília, recebi uma longa entrevista do teólogo à disposição em meu e-mail. No início do documento consta a seguinte mensagem do próprio teólogo. “Dei generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então publico a entrevista inteira aqui no blog para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja Católica. As perguntas foram reordenadas: Lboff”.

Aos interessados em ler a entrevista, ela está disponível no blog no teólogo. Aos leitores, vale lembrar que independentemente do teor da entrevista (e aqui não estou julgando o jornal, a réporter ou o entrevistado) é muito comum não serem publicadas entrevistas na íntegra, e os motivos são diversos e não se excluem (falta de vontade, interesse, espaço, tempo…).

Por ser Leonardo Boff e um tema que muito me interessa e penso que também aos leitores do Ká entre Nós, reforço o convite à leitura aqui.

Cardeal Scherer avalia colóquio e fala sobre visita de Russomanno

Em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO, o cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo avalia o colóquio, realizado dia 20, entre o clero da capital e os candidatos à prefeitura de São Paulo: Fernando Haddad (PT), Gabriel Chalita (PMDB), José Serra (PSDB) e Soninha Francine (PPS). Celso Russomanno (PRB) não compareceu ao colóquio, mas foi recebeido pelo cardeal, dia 22, na cúria metropolitano. Na entrevista, o arcebispo fala sobre o teor da conversa:

O SÃO PAULO – A forte repercussão do colóquio aponta o importante papel que a Igreja Católica possui na sociedade?
Dom Odilo Pedro Scherer – Avalio que o colóquio com quatro dos cinco candidatos mais bem cotados para as próximas eleições para o cargo de prefeito de São Paulo foi de bom nível, dando a ocasião para que os candidatos apresentassem suas propostas e propósitos de governo aos padres e religiosos da Arquidiocese de São Paulo, que eram o público alvo convidado; e esses puderam apresentar aos candidatos uma série de questões da cidade de São Paulo que são bem conhecidas pelo trabalho da Igreja, como o trabalho social, com pobres, doentes a população excluída, o povo das periferias urbanas; mas também as situações de violência, a segurança, a educação, a saúde, as condições de habitação de grande parte da população… Desta maneira, ficou claro o papel social relevante que a Igreja Católica tem em São Paulo e que não pode ser ignorado ou negligenciado pelo poder público municipal.

O SÃO PAULO – Qual é a avaliação que o senhor faz das propostas apresentadas pelos candidatos? Elas correspondem às demandas da população de São Paulo acompanhada e vivida pela Igreja Católica?
Dom Odilo – Os candidatos estão preocupados em captar o voto e tentam responder da melhor forma às perguntas que lhes são feitas e no tempo disponível para responder. Por isso, nem sempre são plenamente satisfatórias e isso é até compreensível num momento de debate. Mas penso que a cidade de São Paulo precisa de muita atenção e bons projetos para a educação, saúde, transporte, habitação, segurança, saneamento básico… Precisa dar atenção especial à parte da população mais fragilizada e desatendida pelo Poder Público. E precisa de uma política urbanística no seu todo, que assegure qualidade de vida para a população para o presente e o futuro.

O SÃO PAULO – De que modo a ausência do candidato Celso Russomanno, do PRB, prejudicou o colóquio?
Dom Odilo – Ele perdeu uma boa oportunidade para expor suas ideias e apresentar seus propósitos de governo para São Paulo.

O SÃO PAULO – O candidato Russomanno procurou o senhor no sábado passado, dia 22. Qual foi o teor da conversa com ele?
Dom Odilo – Ele quis, junto com o seu candidato a vice-prefeito, dar-se a conhecer melhor. Mas a questão que, de fato, interessava também foi tratada; manifestei-lhe que os motivos de minha manifestação no domingo, dia 16, foram dois: o uso inapropriado da religião para a conquista do poder político e os ataques infamantes feitos à Igreja Católica pelo chefe do partido dele; disse-lhe que era meu dever defender a dignidade da Igreja Católica, colocada em jogo nesse ataque. A minha tomada de posição não diz respeito a partido A ou B, candidato A ou B, religião A ou B; diz respeito a um fato específico, que foi aquela matéria infamante, divulgada em contexto eleitoral e diante da qual eu não podia me omitir. Falar em “desavenças da Igreja Católica com candidatos”, como foi dito mais de uma vez nesses dias, não é correto, pois nos manifestamos sobre questões de princípios e públicas, e não sobre assuntos pessoais contra candidatos.

Entrevista concedida a Daniel Gomes e Karla Maria.

Esplendores do Vaticano estão no Ibirapuera

Foto: Karla Maria | Compasso de Michelangelo

Depois de 1,5 milhão de pessoas apreciarem a exposição “Esplendores do Vaticano: Uma Jornada Através da Fé e da Arte”, nos Estados Unidos, chegou a vez do público brasileiro. Pela primeira vez na América Latina, a exposição traz 200 obras do acervo do Vaticano.

Em coletiva de imprensa, dia 13, na OCA do Ibirapuera,  o curador, monsenhor Roberto Zagnoli, apresentou três das obras que estarão em exposição:  o Compasso de Michelangelo Buonarroti,  instrumento que auxiliou o artista a compor as figuras que estão desenhadas na Capela Sistina. O compasso data do século 17 e é feito de ferro.

“A Veronica de Guercino”, um retrato de Cristo com a coroa de espinhos, de Giovanni Francesco Barbieri e um dos “Dois Anjos”, da oficina de Gian Lorenzo Bernini, do século 17, também foram apresentadas aos jornalistas.

“É importante salientar que apesar de estarem sobre os cuidados do Vaticano, são obras que pertencem à humanidade e não falam de uma beleza estética dos objetos e sim da beleza divina que elas transmitem”, disse o curador, monsenhor  Zagnoli, que já trabalhou por 15 anos como diretor no Departamento de Etnologia dos Museus do Vaticano.

Para o padre italiano, a mostra é interessante do ponto de vista didático porque apresenta a história da Igreja passando desde o túmulo de Pedro até os últimos pontífices. “A exposição é um livro aberto para todos que vierem observá-la e nesse sentido foi toda estudada para que fosse acessível àqueles que não têm conhecimento sobre o tema, por isso, todas as obras poderão ser apreciadas também pelos jovens”, explicou.

Entre as 11 galerias e uma sala com projeção, destaque paras as obras de Michelangelo. Considerado um dos maiores criadores da história da arte Ocidental, o pintor e escultor italiano pode ser visitado na galeria 4. Nela, há uma reprodução da obra original “Pietà”, uma das esculturas mais renomadas da humanidade. Ainda nesta seção, o visitante, poderá experimentar uma imersão na Capela Sistina, passando por uma reprodução dos andaimes utilizados pelo artista para alcançar o teto da capela, com pouco mais de 20 metros.

Foto: Karla Maria | A Verônica de Guercino – Retrato de Cristo com a coroa de espinhos

A devoção ao apóstolo Pedro também ganha destaque. Na galeria 1, o visitante poderá ver uma apresentação do túmulo de São Pedro como foi encontrado, em 160 d.C., com um fragmento original da parede vermelha descoberto em 1941, com a inscrição  “Petros Eni”, do grego: Pedro está aqui. “Estas obras são muito importantes para a evangelização, porque falam da fé da humanidade, transmitem a fé. Essa exposição é de fato uma viagem através da arte”, disse frei Luis M. Cuna Ramos, arquivista do Vaticano e membro da Congregação para a Evangelização dos Povos.

Na galeria 9, o visitante se deparará com a linha sucessória de Pedro retratada por mosaicos, afrescos, pinturas, esculturas e por fim, fotografias. A galeria 11 é dedicada ao pontificado do papa João Paulo 2º (1978-2005). Nela há o busto em bronze do Beato e o molde da mão de João Paulo também em bronze, que pode ser tocado pelos visitantes e tem provocado momentos de intensa oração. A exposição segue até 23 de dezembro em São Paulo e parte para o Rio de Janeiro em 2013.

Serviço

“Esplendores do Vaticano: Uma Jornada Através da Fé e da Arte”
Período: de 21 de setembro até 23 de dezembro de 2012
Horários dea exposição: segunda à sexta-feira, das 10h às 20H (acesso até às 19h); sábados, domingos e feriados, das 9h às 19h (acesso até às 18h).
Local: Oca – Parque do Ibirapuera – SP (avenida Pedro Álvares Cabral, s/n, portão 3.
Informações: http://www.esplendoresdovaticano.com.br, 4003-5588.
Preço dos ingressos: R$ 44,00, 1/2 entrada: R$ 22,00.

O bispo do Xingu

Texto: Karla Maria
Publicada Revista Família Cristã de julho/2012

Conhecido como Bispo do Xingu, dom Erwin Kräutler (foto), bispo da Prelazia do Xingu e  presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) denuncia: “Os cidadãos do Pará são tratados como cidadãos de segunda categoria”. À Revista Família Cristã, dom Erwin denuncia o “caos em Altamira”, resultado do início da construção da hidrelétrica de Belo Monte e dos impactos ambientais e sociais que vêm afetando a população ribeirinha e indígena. Destaca também a exploração sexual fomentada pela chegada de milhares de trabalhadores à região, a política indigenista no País e a presença e defesa dos povos indígenas, com respeito à cultura e por meio do diálogo inter-religioso.

FC – A construção de Belo Monte já começou. Qual o cenário?
Dom Erwin –
Altamira é um caos, por isso digo que somos desconsiderados, o governo usa a estratégia do fato consumado, quem grita é contra o progresso, quem se levanta não quer o desenvolvimento. Nem sequer as condicionantes previstas para serem cumpridas antes do início das obras foram cumpridas. As condicionantes de saneamento básico, de hospitais, de escolas, de segurança, de transporte, de habitação, nada disso ou quase nada aconteceu para que as obras começassem.

FC – Essa é a segunda grande migração desordenada de trabalhadores para o Pará (antes houve a exploração da Serra dos Carajás). Como o senhor avalia tal situação?
Dom Erwin –
O cidadão do Pará e do Xingu, de modo especial agora no contexto de Belo Monte, é tratado como cidadão de segunda categoria. Para nós sempre caiu e continua a cair as migalhas, e isso é um absurdo, porque o governo tem obrigação de, primeiro, ouvir a população local e de, segundo, dar o retorno para o que se arranca de lá. Eu pergunto, em que ponto melhorou educação, saúde, habitação, segurança, transportes no Pará, depois da exploração dia e noite da Serra dos Carajás? O que nós realmente recebemos em troca por Belo Monte, pelo que está sendo implantado? Nós recebemos nada mais, nada menos do que o caos.

FC – A Pastoral da Mulher Marginalizada realizou, em 2011, um seminário sobre o impacto de Belo Monte no aumento da prostituição e na exploração sexual em Altamira, o senhor já observa essa realidade?
Dom Erwin –
Altamira é um caos também nesse sentido, porque a prostituição hoje na região é em céu aberto, é terrível, e porque estão chegando milhares e milhares de homens e logicamente essas redes de prostituição, que pegam as meninas e não perguntam a idade que elas têm, as oferecem.

FC – Qual é a posição dos povos indígenas da região de Belo Monte?
Dom Erwin –
O índio não está a favor de Belo Monte, mas logicamente está a favor dos benefícios que vai receber. Para mitigar um pouco e para calar a boca dos índios, estão entupindo-os com dinheiro, benefícios de todo o tipo e jeito. Essa é uma forma de matá-los, é uma punhalada fatal no coração da cultura indígena e de sua própria organização social.

FC – O senhor sempre fez denúncias de conflitos na disputa de terras indígenas e por isso já sofreu ameaças de morte. O senhor continua andando com segurança militar?
Dom Erwin –
Há quase seis anos ando com segurança. Desde 29 de junho de 2006, estou sendo acompanhado por quatro PMs (Policiais Militares), se revezando, e não sei o que vai dar. Tenho impressão que vou levar isso até o final do meu mandato como bispo, porque eu não posso dizer que estou sendo ameaçado de novo, mas a situação agora, nesse contexto todo, é delicada.

FC – O senhor teve tratativas pessoais com o governo do então presidente Lula sobre a construção de Belo Monte? O que resultou delas? Como são as tratativas hoje, com a presidente Dilma Rousseff?
Dom Erwin –
Sim, em 2009, estive duas vezes com Lula, em 19 de março e 22 de julho. Hoje digo que o Lula mentiu para mim, porque ele, segurando-me nos braços, me disse, com todas as letras, “Olhe, nós não vamos empurrar a Belo Monte goela baixo”. E está acontecendo exatamente isso, um rolo compressor sobre nós, diálogo nunca teve. Só monólogo do governo. Até hoje quando falamos com instâncias governamentais, o governo constrói a pauta, se você coloca Belo Monte, eles mandam riscar, não tem conversa. A Dilma não conversa sobre isso, mesmo o Gilberto Carvalho (ministro da Secretaria-geral da Presidência da República), neste ponto nega o diálogo. Não fui mais lá, porque ele próprio disse que Belo Monte sairia de qualquer jeito, então o que vou conversar?

FC – Preocupação do governo…
Dom Erwin –
Não se preocupam conosco, o objetivo é desenvolvimento, simplesmente aumentar a renda, aumentar a exportação. Então, eu sustento o Pará para o resto do Brasil, para o Sul e Sudeste, para a capital federal é a província mineradora, a província madeireira, a província energética, última fronteira agrícola.

FC – Mas o diálogo teve que existir durante as audiências públicas…
Dom Erwin –
As audiências públicas foram só para inglês ver, foram uma mentira, uma encenação, um teatro vergonhoso. O povo realmente atingido não conseguiu se manifestar, e os índios não foram ouvidos, o que é previsto em constituição. Tem lei para isso, oitivas indígenas, tem que ser ouvido. Fez-me uma maquiagem, agora, uma mentira mil vezes repetida, não se torna uma verdade nunca.

FC – Como o senhor e o Conselho Indigenista Missionário avaliam a política indigenista no Brasil?
Dom Erwin –
Nada favorável aos povos indígenas, no fundo se entende o índio como estorvo, como obstáculo ao progresso. E isso não se pode falar abertamente. Nesse sistema neoliberal tudo vira mercadoria, não se tem mais um relacionamento de vida, temos que comprar, explorar e consumir. É a lei do lucro, e o índio não produz nesse sentido, então é considerado contra o progresso.

FC – O Cimi, o qual o senhor preside, completou 40 anos. Como acontece o trabalho nesse Conselho?
Dom Erwin –
O objetivo do Cimi é ser presença solidária. Não estamos com os povos indígenas para civilizar, como antigamente, nós estamos nos aproximando dos povos indígenas num profundo respeito à cultura e suas expressões culturais, de sua vida, com um profundo amor. Somos aliados a todos os povos indígenas, servidores desses povos, para que possam viver e sobreviver, tanto física, quanto culturalmente. A primeira coisa é a presença concreta, no chão da aldeia, e a segunda é a sensibilização da sociedade. Nossa função é conscientizar o povo brasileiro não indígena a respeito dos direitos dos povos indígenas e também a sociedade internacional.

FC – O Cimi respeita a cultura dos povos indígenas, e nisso está inclusa sua religiosidade. Como acontece nesse contexto a evangelização, há também tal objetivo?
Dom Erwin –
O que significa evangelizar? Porque há ideias de evangelização que para mim são reducionismos. Evangelizar de fato é anunciar a Boa Nova, não há dúvidas, anunciar Jesus Cristo, é anunciar aquilo em que acredito, mas não somente o anúncio verbal, mas também o testemunho de minha dedicação e abnegada doação da minha vida em favor dos povos indígenas.

FC – Como o senhor avalia a crítica sofrida por missionários de séculos anteriores, em relação aos métodos de evangelização?
Dom Erwin –
Não vou jogar pedras em missionários de séculos anteriores, era outra cultura, eles eram filhos de seu tempo, subjetivamente foram todos heróis, objetivamente falando desrespeitaram as culturas aborígenes. Isso temos que dizer com todas as letras. Hoje em dia, a Antropologia, a Psicologia, tudo isso evoluiu, estamos vendo a Ciência da Religião mostrar que os índios sempre tiveram religião, por isso precisamos trabalhar nas aldeias o diálogo inter-religioso.

Dom Orani fala sobre presidência do Conselho de Comunicação

Karla Maria

Dom Orani João Tempesta, arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro tomou posse dia 8, da presidência do Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão auxiliar ao Congresso Nacional. Entre suas funções, o Conselho auxilia o Senado em temas como a liberdade de expressão, regulamentação da propaganda de agrotóxicos, bebidas alcoólicas, tabaco, medicamentos e terapias, diversões e espetáculos públicos, concessões públicas e programação das TVs e rádios brasileiras. Confira entrevista exclusiva de dom Orani, que permanece no cargo por dois anos.

O SÃO PAULO – O que que representa para a Igreja Ca- tólica, a escolha do senhor a presidente do Conselho de Comunicação Social? E para o senhor?
Dom Orani Tempesta – Recebi surpreso a nomeação e mais surpreso ainda a eleição por aclamação para a presidência. Como já tinha pertencido ao Conselho durante a minha missão nessa área na CNBB creio que, ao reativar o CCS do Congresso pensaram em meu nome. Porém a escolha pelo Congresso Nacional representa um reconhecimento da necessidade da maior parte da população ser representada no CCS, e acredito, também de todos os que crêem e sabem da importância da mídia na formação do povo Brasileiro. Para mim é uma grande responsabilidade para tentar corresponder a uma coordenação e aconselhamento de tantas situações conflitantes e disputadas que ocorrem nesse meio.

O SÃO PAULO- O que representa ao Estado brasileiro ter um bispo católico presidindo o Conselho de Comunicação Social? O se- nhor foi nomeado por unanimidade… há uma sede ou necessidade de mais valores evangélicos nos meios de comunicação?
Dom Orani- É o reconhecimento do estado brasileiro da importância do povo que tem fé, e nesse ponto não vejo apenas o bispo católico, mas uma pessoa que sabe da sensibilidade de todos os que acreditam em Deus nesse país, seja qual for a sua religião. A realidade da presença religiosa na mídia se faz notar e sabemos também da necessidade que todos os cidadãos desse país tenham sua voz e vez para utilizar o meio de comunicação.

O SÃO PAULO – Há os que criticam o proselitismo religioso nas rádios e tvs brasileiras, o senhor concorda? não? Qual sua avaliação sobre o uso das concessões públicas pelas diversas religiões?
Dom Orani –
Creio que existe de tudo nas rádios e tvs brasileiras. Não só proselitismo religioso, mas também do ateísmo, e tantas outras situações que necessitam de discernimento sobre o alcance de cada responsabilidade. Dentro da legislação brasileira todos os cidadãos tem seus direitos, não importando sua etnia, religião, posição social, posição política. De outra forma corremos o risco de excluir cidadãos dos plenos direitos civis.

O SÃO PAULO – Como telespectador, o senhor está satisfeito com a qualidade da programação das rádios e tvs brasileiras? Onde há necessidade de algum tipo de regulação?
Dom Orani – Todos sabemos que a tv aberta vive dos patrocinadores e com isso, muitas vezes fica refém da audiência. E nesse sentido sentimos a necessidade de uma melhoria da cultura e educação atuais para que influa nas opções de tv aberta e também que a mesma tenha coragem de dar opções inteligentes aos seus ouvintes e telespectadores para fazer aumentar o nível cultural. Situações que vão contra a constituição brasileira ou exageros de apelação inútil precisariam encontrar caminhos para que esses meios sejam expressão de um povo que sabe de sua responsabili- dade na sociedade mundial.

O SÃO PAULO – Os trabalhos do Conselho começam em setembro, o senhor já obteve a pauta? O marco regulatório é a grande preocupação do Conselho neste momento?
Dom Orani – Estamos elaborando a pauta. No primeiro momento iremos tomar conhecimento dos vários projetos sobre comunicação em tramitação no congresso nacional. No regulamento do CCS é colocado que muitas pautas provêm do Congres- so Nacional que consulta o CCS. Sem dúvida que o marco regulatório é uma grande preocupação, mas também muitos outros aspectos do CCS. Esperamos deixar um legado para o próximo CCS em sua realização e composição.

O SÃO PAULO – O senhor acredita, que de alguma maneira, o trabalho junto à Pastoral da Comunicação agregou-lhe conhecimento sobre o tema, e poderá servir de bagagem para o trabalho no Conselho? Como?
Dom Orani –
Sem dúvida que meu trabalho com os meios de comunicação desde a diocese de origem e depois pelas outras que passei e pelos trabalhos nessa área nos regionais, até chegar a ser eleito por dois mandatos nessa comissão na CNBB juntamente com o contato com os que trabalham na comunicação foi decisivo para que eu possa cumprir bem esse mandato enquanto assim puder e o congresso nacional o desejar.

Publicada na ediçåo 2915 de O SÅO PAULO.