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Decisão sem volta

universo-jatoba-chadeleao1O suicídio é um grave problema de saúde pública presente em 75% dos países de baixa e média renda, inclusive o Brasil

Às 6h50 de um domingo de maio, um homem se jogou no ar. “Os bombeiros tentaram salvá-lo. Chegaram a conversar com ele, mas meu irmão disse que não queria viver. A gente desconfiava um pouco porque ele era muito calado. Trabalhava na mesma empresa há 17 anos e nunca foi de faltar nem de chegar atrasado”, disse a irmã Elisângela dos Santos. Assim, Rafael dos Santos suicidou-se. Foi um entre os 25 casos que, em média, ocorrem diariamente no Brasil – a estatística é da Organização Mundial da Saúde (OMS). Rafael tinha 39 anos e era pai de quatro filhos, mas acabou com a vida atirando-se da ponte estaiada Octávio Frias de Oliveira, no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo (SP), antes do término de seu casamento.

Por ano, no mundo, cerca de 800 mil pessoas optam pelo mesmo fim – uma morte a cada 40 segundos. Segundo a Universidade de Oxford, na Inglaterra, o número supera os óbitos causados por guerras, homicídios e desastres naturais em igual período – 669 mil. Globalmente, os suicídios respondem por 50% das mortes violentas entre homens e 71% entre as mulheres. Em 2020, projetam-se 1,5 milhão de casos, 2,4% das mortes mundiais. As taxas aumentam entre pessoas de 70 anos ou mais. “Jovens e idosos constituem os grupos etários mais sujeitos”, confirma Maria Cecília Minayo, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp). Entre os jovens, as causas mais comuns estão na dificuldade de emancipação da família e de entrada no mercado de trabalho, alta exigência acadêmica, não aceitação entre pares, dificuldades de assumir a orientação sexual, excessiva competitividade no trabalho e na família, e violência doméstica e comunitária, além da desestruturação familiar.

Sentido da vida – No Brasil, os suicídios cresceram 30% entre jovens de 15 e 29 anos, tornando-se a terceira causa de morte de pessoas em idade produtiva. No geral houve crescimento de 10,40% – mulheres, 17,80%; homens, 8,20%. Segundo o Ministério da Saúde, a taxa média de 5,8 suicídios por 100 mil habitantes é a metade da mundial, 11,4 por 100 mil, e está abaixo de outros países da América do Sul, como Argentina (10,3), Bolívia (12,2), Equador (9,2), Uruguai (12,1) e Chile (12,2).

No País, a distribuição do suicídio é desigual. Pesquisa realizada pela Ensp revela que a região Norte apresenta as menores taxas enquanto no Sul estão as maiores. Nele estão 45 dos 50 municípios com índices mais elevados de mortes autoprovocadas, entre pessoas acima de 60 anos. Por quê? “Em seu interior, de tradição europeia, a cultura do trabalho e familiar envolve todos os aspectos. Quando a pessoa se aposenta, não pode mais trabalhar ou já criou os filhos pode perder o sentido da vida”, responde Cecília, que também constatou: os idosos morrem principalmente em suas residências (51%) e o fator de maior frequência tanto para homens (32,1%) como para mulheres (31,7%) é o isolamento social.

Distimia – De modo geral é difícil generalizar as causas do suicídio, normalmente difusas. “Estudos evidenciam como fatores predisponentes doenças graves e degenerativas, dependência física, distúrbios e sofrimentos mentais e reações depressivas ou depressão severa”, enumera a pesquisadora, excetuando a depressão como um fator comum relevante. De fato, pesquisa recente realizada com 1.464 pessoas pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) apontou que 3% dos entrevistados que tentaram o suicídio atribuíram o fato à depressão, principalmente à distimia – uma variação mais leve do transtorno que se caracteriza por um crônico sentimento de negatividade – associada ao abuso do álcool. “Por ter duração longa e responder menos ao tratamento, a distimia impacta a vida das pessoas”, descreve o psiquiatra responsável pelo estudo, Bruno Mendonça Coelho. “Cerca de 90% dos suicídios relacionam-se com doenças psiquiátricas”, completa.

A OMS classifica o suicídio como um grave problema de saúde pública presente em 75% dos países de baixa e média renda. “Por isso trazemos a público a necessidade de alguma intervenção como a oferta de uma rede de saúde qualificada que ouça o indivíduo, o atenda a tempo e faça intervenções com a família e os sobreviventes. Estes fatores de proteção precisam estar disponíveis”, afirma o médico e coordenador da Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio do Ministério da Saúde, Carlos Felipe Almeida D’Oliveira.

Prevenção – Pelas estatísticas, 90% dos suicídios podem ser previstos e algumas atitudes práticas, segundo Carlos Felipe, ajudam a minimizar tentativas. “Em locais onde as pessoas se precipitam é necessário colocar redes, assim como barreiras em pontes e vidros nas partes internas do hall de residências e locais de trabalho. No metrô de Nova Iorque, por exemplo, há cartazes em várias línguas orientando as pessoas sobre o comportamento de outras que possam colocar as vidas em risco. Já os seguranças são treinados para observar suicidas em potencial”, alerta o médico. Na prevenção, acrescente-se o diálogo e o cuidado com o próximo. “Pequenos sinais como o abandono de hobbies e o isolamento social podem mostrar que algo está errado e a família deve ficar atenta. Conversar ‘olho no olho’ é fundamental para a pessoa desabafar”, aconselha Antônio Batista, há mais de 15 anos voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que, gratuitamente, oferece apoio emocional 24 horas pelo telefone, chat, e-mail, telefonia VoIP, correspondência ou pessoalmente em postos espalhados pelo País.

De acordo com os voluntários, as ligações telefônicas vêm de pessoas comuns. “É gente que passa por um momento difícil, se sente fragilizada e sem esperança. Solitária, sofreu perdas e não têm com quem dividir a angústia”, afirma Antônio, que lembra de conversas que se estenderam por horas. “O pior caso que atendi foi de um pai que havia abusado da filha e, arrependido, queria se matar”, recorda Terezinha Garcia Torreglosa, voluntária do CVV de São José do Rio Preto (SP) há mais de 20 anos. Segundo ela, os conflitos familiares são comuns. “Há muitos casos de jovens que se sentem cobrados pela família por não terem passado no vestibular”, exemplifica.

Não julgar – Falar de suicídio é um tabu. Porém, abrir espaço para discuti-lo é um dos meios mais eficazes de se prevenir contra o acontecimento de um ato sem volta. “Estruturas familiares muito fechadas, onde as pessoas não se comunicam, são um risco. Quanto maior a capacidade de adaptação maior a possibilidade de diálogo, o que evita o isolamento e os comportamentos de risco”, destaca o médico Carlos Felipe. E quando a morte acontece no seio da família a dor é inevitável e, muitas vezes, acompanhada de culpa. “Pais, mães e avós que enterram seus filhos, contrariando a ordem natural da vida, e os familiares que vivem se perguntando ‘por quê?’ não devem se culpar pelo suicídio, mas podem e devem confiar na infinita bondade e a misericórdia de Deus”, aponta o sacerdote e mestre em Psicologia Brendan Coleman Mc Donald.

O assessor da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) recorda que antigamente a Igreja Católica, sem a ajuda da Psicologia pastoral para a compreensão do que leva ao suicídio, aplicava sanções a essas pessoas, como a negação da sepultura eclesiástica e a celebração da missa pela sua alma. “Hoje, ajudada pela Psicologia e a Psiquiatria, a Igreja vê a questão sob outra forma e tem grande compreensão e misericórdia com quem chega a tal ponto. Há sepultamento em cemitério cristão e orações e missa pela alma do suicida”, esclareceu, em um artigo, o sacerdote, que também dispensa julgamentos. “A Psicologia e a Psiquiatria ensinam que ninguém conscientemente vai tirar sua própria vida. Se o faz, com certeza, não está mais consciente mesmo deixando recados explicando suas razões”, concluiu.

Saudade – Tal piedade, diga-se, ancora-se no Catecismo da Igreja Católica, onde se lê: “Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida” (CIC. 2282/3).

Procurada para falar com a reportagem da revista Família Cristã sobre o suicídio de seu filho, D.O., em 25 de janeiro deste ano, por enforcamento, após o término do namoro, a mãe do rapaz, que pediu para permanecer no anonimato, afirmou ainda não conseguir lidar com a dor. A morte recente machuca a mulher que reza pelo ‘anjo’ que se foi abruptamente aos 28 anos de idade e chora em forma de canção. “Oh, pedaço de mim / Oh, metade amputada de mim, leva o que há de ti / Que a saudade dói latejada / É assim como uma fisgada / No membro que já perdi”, respondeu a mãe em forma de canção Pedaço de mim, de Chico Buarque.

 

Abra o jogo

Entre em contato telefônico com o Centro de Valorização da Vida (CVV) teclando 141 ou acessando o bate-papo no site www.cvv.org.br. Outra opção é pelo skype. No mesmo endereço há o endereço dos postos da entidade em todo o País. Lá você não precisará se identificar, apenas dividir o que está passando. Se for o caso de ajudar alguém, fique atento: um suicida em potencial apresenta sinais de desesperança, sente-se um peso para a família, abandona hobbies, fica isolado, não participa de eventos da família e pode abusar do uso de álcool. Estes sinais sugerem que a pessoa precisa de atenção e o cuidado de profissionais de saúde.

Matéria publicada em novembro de 2014, na Revista Família Cristã e ainda atual, muito atual.


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