Escravidão ainda é realidade em Guarullhos

Mais uma oficina de costura que opera com mão de obra 'escrava' / Foto da Fiscalização do MTE
Mais uma oficina de costura que opera com mão de obra ‘escrava’ / Foto da Fiscalização do MTE

A empresa têxtil Mar Quente Confecções Ltda. de Guarulhos foi incluída, na última terça-feira, no Cadastro dos Empregadores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – a chamada lista suja’- por ter sido flagrada em ação fiscal da pasta o ano passado por submeter seus trabalhadores a condições análogas ao trabalho escravo.

Localizada no Jardim São João (Região São João), a oficina de costura contratada pela empresa contava com três trabalhadores bolivianos que foram libertados da situação degradante em que se encontravam. Ontem, a Folha Metropolitana esteve no local e verificou que ainda há uma família boliviana residindo no espaço que era uma oficina.

“A oficina foi lacrada, o pessoal que trabalhava aqui para mim voltou [para a Bolívia]. Não sei de mais nada, fiquei aqui abandonado”, disse o boliviano que tomava conta da oficina que não quis se identificar à reportagem, afirmando que não há mais trabalho com confecções e que ali apenas reside de aluguel com sua esposa e seu filho.

Na atualização semestral da “lista suja” foram incluídos os nomes de 91 novos empregadores e excluídos 48, em decorrência do cumprimento dos requisitos administrativos. Atualmente o cadastro possui 609 nomes de empregadores flagrados na prática de submeter trabalhadores a condições análogas às de escravo, sejam pessoas físicas ou jurídicas.

Publicada na Folha Metropolitana, edição de 4 de julho.

“A GCM já me bateu várias vezes”

Natasha
Foto: Lucas Dantas

Ex-moradora de rua, Natasha conta sua trajetória e recomeço após aceitar ajuda do Consultório de Rua, uma iniciativa do SUS de reduzir danos e ampliar possibilidades de vida dos que vivem pelas ruas

Publicado na Folha Metropolitana, em 11 de janeiro de 2014

João Ferreira Aguiar, 51, é um dos cerca de 80 milhões de brasileiros que têm algum tipo de dependência química, no caso, álcool. Nesta reportagem será tratado por Natasha, a única exigência feita para revelar sua história marcada pelo preconceito, que só tomou outros rumos há cerca de um ano, quando aceitou a ajuda do Consultório de Rua, por meio da equipe multiprofissional “Acolher” do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Eu bebia pinga pura, tinha vezes que a assistente social vinha falar comigo e eu fugia, para ela não me ver porque eu estava dopada”, revela Natasha. O trabalho da equipe em Guarulhos é composto por um clínico geral, uma assistente social, psicólogo e enfermeiras. Consiste em construir laços de confiança com o morador em situação de rua para convencê-lo a aceitar o tratamento médico.
“Levamos praticamente um ano para convencê-la a se tratar”, conta a assistente social Helena Luisa de Sá Almeida. Para a coordenadora e enfermeira da equipe Valdenice Cristine Severino “ver Natasha bem é uma motivação para continuar o trabalho e ajudar outras pessoas”. Natasha passou por cirurgias, já está mais saudável. Mora com a prima no Jardim São Domingos. Começou recentemente em seu novo emprego como costureira, arrematando peças de roupa, só não consegue arrematar ainda a dependência ao álcool. “Me controlo, mas ainda bebo”, conclui.

A vida nos albergues
Antes de encontrar a ajuda do consultório, Natasha passou por diversos albergues, tentativas e recaídas no álcool. “O primeiro albergue que eu morei foi o São Francisco, no Glicério [em São Paulo]. Fiquei um bom tempo lá. Arrumei emprego e fui morar em um prédio social por quase um ano”, diz.
Mas a vida no albergue exigia regras, e Natasha já estava desacostumada com elas. “Passei em muitos albergues, de Cruzeiro (RJ) até chegar em Arujá (SP). Passava nas casas de convivência, nos albergues, mas não ficava lá. Quando eu bebia, eu ficava alegre e eu gostava de ficar na rua”, conta.

Foto: Lucas Dantas
Foto: Lucas Dantas

Denúncia de maus tratos da GCM
Nos anos que morou na rua, Natasha sofreu agressões. “A GCM [Guarda Civil Metropolitana] já me bateu várias vezes, porque eu cozinhava, eu lavava a roupa dos meninos na rua”, conta Natasha que dormia também na Praça Oito, onde conheceu um famoso jogador de futebol do Palmeiras, na mesma condição que a sua.
“Depois que aconteceu o Consultório de Rua, nós ficamos livre dessa humilhação. Nós tivemos médico na rua, enfermeiros, toda aquela coletividade de pessoas que estão em situação de querer ajudar. O Consultório de Rua é sim a solução para tirar as pessoas do vício, porque nos respeita”, afirma.

Brasil tem 14 Consultórios de Rua
O Consultório de Rua de Guarulhos é um dos 14 instalados no Brasil. Iniciou suas atividades em novembro de 2011 e recebeu aporte de R$ 100 mil para sua implantação. É itinerante, mas possui base fixa no Centro de Atenção Psicossocial (Caps AD), Álcool e Droga (rua Luiz Faccini, 518, no centro). Com atendimento de segunda a sexta-feira, das 13 às 22 horas.
As equipes também realizam intervenções educativas e psicossociais, e contam com insumos para tratamento de situações clínicas comuns, além de preservativos, cartilhas, material para curativos, e medicamentos de uso mais frequente.

“Era muita cachaça, mas me acostumei a ser sozinho”

Foto: Felipe Larozza / Senhor João Plácido
Foto: Felipe Larozza / Senhor João Plácido

É na rua Carlos Mariguela, em Guarulhos, que João Plácido Vieira tenta recuperar parte de sua história e família perdidas pelo tempo. Natural do Piauí, João deixou sua terra há cerca de 50 anos, e desde então não tem notícias da família.

Chegou ao Lar Batuíra, em 2009, aos 73 anos, depois de ter sido abandonado em Itaquaquecetuba, no mesmo ano, pelo proprietário da Casa de Repouso para Idosos Aprisco. “Ele foi encontrado na porta de um bar, abandonado por uma entidade. Estava sem documentos, não temos nenhuma informação sobre ele, além daquilo que ele conta”, afirma Palmira Santos Rocha Cabral, assistente social do Lar Batuíra.

Como João Plácido chegou à Casa de Repouso em Itaquaquecetuba ninguém sabe. O piauiense de Picos não fala muito, mas sorri. Solta frases de um passado distante e difícil de ser montado e compreendido histórica e geograficamente. “Foram cinco dias de viagem de ônibus. Ela era pequena, o nome dela é Maria de Jesus. Eu devia ter uns 22 anos quando as deixei”, diz lembrando também da esposa Raimunda Maria da Vieira e dos pais Plácido José Vieira e Maria José da Conceição.

Foto: Felipe Larozza / Senhor João Plácido
Foto: Felipe Larozza / Sorriso, sempre

João Plácido não recebe visitas, é hipertenso, caminha com dificuldades, sempre escorado em uma cadeira. Lê a Bíblia, acredita em Deus, e mais, que nunca mais verá sua família. Não esquece do tempo que morou nas ruas. “Fiquei sozinho, jogado. Era muita cachaça, mas me acostumei a ser sozinho”, diz senhor João, com um olhar de quem se cansou desse modo de ser.

Casa de Repouso abandonou outros idosos

João Plácido não foi a única vítima da Casa de Repouso para Idosos Aprisco, de Itaquaquecetuba. Em maio de 2012, o juiz Fernando de Oliveira Domingues Ladeira, juiz de Direito da 2ª Vara Criminal de Itaquaquecetuba citou Genival Beserra da Silvaco, proprietário da casa de repouso, a responder sobre a acusação de abandono dos idosos:  Deuzira Maria Madalena, 81 anos;  Nelson Cosito, 69 anos e o próprio João Plácido Vieira, na época com 73 anos.

Publicada na Folha Metropolitana, dia 26 de novembro de 2013