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Dom Zumbi para não ser esquecido

Dom José Maria Pires _ Foto de Felipe Rabello

Dom José Maria Pires _ Foto de Felipe Rabello

Havia injustiça e situações que você não aguenta. Tem que falar, tem que gritar. Então, realmente o que levou a gente a tomar posição foi a situação do povo. Ou você toma posição ou você está traindo o seu ministério.”

Encontramos-nos no jardim da casa de repouso dos jesuítas em Belo Horizonte, Minas Gerais. Era um dia quente, mas providenciamos uma sombrinha fresca para conversar. Ficamos por ali, entre pássaros e o vento, por cerca de duas horas tratando dos 95 anos de dom José Maria Pires.

A conversa só foi interrompida por umas boas risadas e por uns goles d’água desta repórter, já que o entrevistado não parecia cansar ou perder o fôlego de recuperar sua história.

Dom José é conhecido popularmente por dom Pelé, em homenagem ao atleta santista que se destacou na década de 1960, já que ele mesmo se destacava como o único bispo negro do País; hoje ainda são apenas 13. Também é conhecido por dom Zumbi, por motivação de dom Pedro Casaldáliga, que o “rebatizou” na celebração do centenário da Abolição da Escravatura, em 1988, na Serra da Barriga, que fica a cerca de nove quilômetros do município de União dos Palmares, em Alagoas.

E foi com dom Zumbi que conversamos naquela tarde. Seus poucos cabelos brancos estavam alinhados. A visão esquerda periférica, comprometida por um acidente vascular cerebral anos atrás. Suas mãos carregavam o anel de bispo, que era simples, e um lenço branco que saía do bolso, de tempos em tempos, para socorrer ‘o nariz de negro’ de uma gripe que parecia iniciar. A voz forte contava assim, com o jeito mineiro de ser, a história de uma vida toda, que ia da infância lá em Córregos, no interior de Minas Gerais, até sua estada na capital mineira, entre os jesuítas.

Filho de Eleutério e dona Pedralina, José nasceu em 15 de março de 1919. Seus primeiros anos de vida passou ali mesmo na pequena Córregos, junto de seus irmãos: Geraldo, João, Maria da Cruz e Florinda. Foi assim até a morte da mãe em 1927, quando os filhos foram separados.

José soube da morte da mãe apenas quatro meses depois. “Eu estava em Diamantina com a madrinha e fui saber da morte da mamãe meses depois. Naquele tempo não tinha telefone. Papai escreveu uma carta que chegou pelo correio e foi assim que fiquei sabendo”, contou dom José. O pai era carpinteiro e sozinho não tinha como criar os filhos, então Geraldo ficou com o pai; João, o terceiro, ficou com monsenhor Domingos [Januário Santana]. A quarta, Maria da Cruz, ficou com os padrinhos dela e a última, que era Florinda, pequenina aos quatro meses, ficou com duas tias em Córregos mesmo.

José ficou com a madrinha Maria D’áfrica Machado, em Diamantina. E foi por ali que aos 12 anos entrou para o seminário, iniciando os estudos para o sacerdócio. Mas a decisão acontecera bem antes, aos oito anos, ainda em Córregos, como conta. “Em um domingo, depois da missa, no meio de todos, eu disse que queria ser padre. Todos riram, foi uma decepção só”. A madrinha puxou o menino pelo braço e o levou para conversarem sobre a novidade. “José, o que você disse é algo muito sério, reze para São José que é o padroeiro das vocações e veremos o que ele arruma”. E foi a partir da conversa com a madrinha que José passou a ir à igreja todos os dias antes da aula. Parava diante da imagem de São José, se ajoelhava e dizia: “São José, eu quero ser padre”. Fazia o sinal da cruz, girava os calcanhares e seguia rumo à escola.

O menino gostava de rezar, aprendera com o pai ainda pequeno a desfiar o rosário, todas as noites, antes de se deitar. Aos domingos ia à missa religiosamente. “O vigário era muito compreensivo com o povo, até com os que tomavam cachaça”, contou divertindo-se.

A oração de José a seu padroeiro homônimo rendeu frutos. No dia 25 de janeiro de 1931 entrou para o seminário em Diamantina. Não fora fácil. A madrinha teve de fazer uma vaquinha para providenciar o enxoval. “A gente andava de batinas. Precisavam de duas, de um cobertor, até bacia tínhamos que levar, porque naquele tempo o seminário não fornecia nada. Então a madrinha e as amigas fizeram uma cotização, como se costuma dizer”, contou o bispo.

Na véspera, José com seus 12 anos mal conseguia dormir. “Quando acordei disse: ‘graças a Deus que eu vou para o seminário’”. E foi. Entre os muros do Seminário Sagrado Coração de Jesus, inaugurado em 1867, por dom João Antônio dos Santos, o menino iniciou seus estudos no seminário menor. Eram seis aulas por dia, quatro de manhã e duas à tarde. Lições de português e latim, francês e ciências. Aos sábados à tarde tinha o futebol. “A gente não podia tirar a batina, então suspendia e prendia com um cinturão pra deixar as pernas livres”, contou com riso.

Já no seminário maior levantava às 5 horas da manhã, lavava o rosto e ia para a sala de oração: uma hora antes de iniciar a missa e depois dela tomava o café e começava os estudos de filosofia, história da Igreja, grego, hebraico. Tudo em silêncio, em oração, em fila. “Era um ritmo puxado, só de estudos, completamente diferente do que é hoje. Hoje é impossível pensar em uma organização desta maneira. Não digo que era melhor ou pior, era o que a gente podia ter naquela época”, explicou dom Zumbi.

Aos 22 anos terminou os estudos, realizou os exames finais e fez seus votos. Nunca pensou em desistir. Foi ordenado em 20 de dezembro de 1941.

Já padre – Permaneceu o ano de 1942 no seminário. No final daquele ano foi mandado para Travessão de Guanhães, um distrito mineiro do município de São Miguel de Guanhães, onde os protestantes juntavam seus fiéis. “Lá eu comecei a ter um contato com os protestantes. Tinha um que entendia bem de arrumar relógio e eu precisava arrumar o da paróquia. Ele ia e nem entrava na igreja”, lembra dom José, sorrindo do “causo”.

Padre José se dividia entre os cuidados das paróquias em Açucena e Naque, uma cidade no interior de Minas Gerais. A distância era de seis horas a cavalo mais trem. Usava um facão para ir abrindo os caminhos da mata fechada. “A gente era jovem e até gostava. Eu ia cortando os galhos. Tinha era medo de descer do animal. Chegava de manhãzinha lá em Açucena e ia direto para a igreja. Chegava e tocava o sino, o pessoal sabia que o padre chegou. Depois ia para casa e tomava banho, nem água podia tomar porque já ia celebrar”, recorda dom José de suas aventuras de padre moço por Minas Gerais.

O jejum era obrigatório antes das missas. Jejum natural – da meia-noite até a hora da comunhão. O sacrifício maior era quando as pessoas queriam se confessar antes da missa e assim o padre passava horas sem comer atendendo o povo, mesmo depois de uma longa e cansativa viagem a cavalo pelo mato. “Este era o maior sacrifício, porque você tem sede e não sei como não morri de sede”, desabafou.

Ficou neste vai e vem por alguns anos, não se lembra ao certo quantos. Até que o arcebispo o mandou trabalhar na assistência aos “padres velhos”. Foi nomeado missionário arquidiocesano da irmandade da providência. “Eu fazia batizado, assistia casamento, fazia tudo com o objetivo de conseguir recursos para a chácara para os idosos. Sabendo que era para os padres velhos entrou uma chuva de dinheiro. Atendia confissão, ajudava os vigários, visitava as famílias. Foi um trabalho muito interessante e o povo colaborou que você não queira saber. Às vezes não recebia dinheiro, mas recebia bezerro, galinha, ovos”, recorda dom José, que ficou na Irmandade por seis anos.

Logo após foi nomeado pároco de Corvello, onde ficou por pouco tempo, até ser ordenado bispo em 22 de setembro de 1957. Tornava-se o terceiro bispo da diocese de Araçuaí.

Bispo – Dom José participou das quatro sessões do Concílio Vaticano 2º e para ele foi um momento que mudou “completamente” o estilo de Igreja. “São João 23 quando completou o Concílio dizia que não era para proclamar novos dogmas não, era para a gente realizar a Igreja unida. Os concílios antigos excomungavam, o Vaticano 2º era para dizer ‘a paz esteja com você’”, disse.  E continuou descrevendo as reações dos que protagonizaram aquele momento.

“A gente sai da primeira sessão do Concílio e começa a refletir e ver que esse povão é que frequenta a Igreja. Então se a Igreja é povo e o povo que nós temos é simples e humilde, então é com este povo que a gente tem de trabalhar. Você não exclui os outros, mas a função tem de ser na comunidade eclesial de base”. Desta conclusão dos bispos é que vai surgir um pacto interessante. “O Pacto das Catacumbas reuniu um grupo de bispos que fizeram um compromisso de pobreza. Pobreza não é miséria não, mas é isso, você ter o necessário. Não era necessário ter uma cruz de outro, então substituíamos por uma de madeira. Depois, meu Deus, será que a gente pode, trabalhando com os pobres, morar em um palácio?”, disse dom José, lembrando-se da radicalidade de dom Hélder Câmara, que deixou o Palácio dos Manguinhos, o palácio episcopal de Recife, para morar na sacristia de uma igreja.

Uma prosa boa_Foto de Osnilda Lima

Uma prosa boa_Foto de Osnilda Lima

Dom José também assumiu o pacto. Suas visitas pastorais eram simples. Lembra-se – e com diversão – de quando foi à cidade de Pilar, já na Paraíba, e foi hospedado por uma professora que morava com o pai. Tinha lá um quarto “arrumadinho”, conta. Foi tomar seu banho e quando voltou encontrou duas camas. “O quarto era grande. Parece que era um viajante, porque se levantou muito cedo. Dividimos o espaço e isso se chama opção preferencial pelos pobres. Não só porque você vai dar atenção aos pobres, mas porque também você vai adotar um estilo de vida que seja realmente bem próximo dos pobres”, explicou o bispo.

Depois do Concílio Vaticano 2º, dom José foi nomeado arcebispo da Paraíba, tomando posse em 2 de dezembro de 1965. Eram tempos de ditadura. O presidente João Goulart acabara de ser deposto pelos militares, depois de ter governado o País de 1961 a 1964. No começo, dom José, como a maioria do prelado brasileiro, defendia a “revolução”. “No começo a gente acreditava na revolução. Não houve nada de mais, nada de prisões. Nesta ocasião eu já era arcebispo da Paraíba e o marechal foi a Recife visitar uma unidade militar lá. Nós bispos fomos todos convidados a jantar com o marechal Castelo Branco”. O expediente dos militares parecia convencer os bispos.

O jantar dos militares servido aos bispos tinha carne de sol com macaxeira. A sobremesa foi doce de jaca, que para o paladar do arcebispo só é boa quando dura. A água mineral oferecida era das fontes da Paraíba. O presidente Castelo Branco ia de mesa em mesa. E assim os militares convenceram a Igreja, de modo doce, até que o amargo começou a surgir da boca dos presos e torturados.

“Acontece que logo depois começaram as prisões e aí ameaçavam de prisão um padre na Paraíba porque ele fez um sermão do qual não gostaram. Eu peguei meu jipe e viajei 500 e tantos quilômetros até Belo Horizonte para conversar com o general, era o Mourão”. O general mineiro Olympio Mourão Filho foi o mesmo que em 31 de março de 1964 ordenou que as tropas da 4ª Divisão de Infantaria, que comandava em Juiz de Fora, seguissem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, fato que precipitou o golpe militar de 1964.

“Eu não vou admitir que prendam padres na minha diocese sem antes vocês conversarem comigo, eu disse, e ele dizia que estávamos caminhando para dentro do comunismo”, contou-nos dom José.

Prenderam padres, estudantes, agricultores, gente de pastoral. “O Exército começa a assumir a coisa e vai prendendo adoidadamente. Os padres e agentes de pastoral você tem que fazer algo, você sabe que são incapazes de fazer aquilo de que estão sendo acusados, então tem que realmente ir atrás”, conta. E iam. Na Paraíba, além de contar com o grupo dos notáveis, três monsenhores velhos que andavam de batina e com o chapéu de sol atrás dos presos, surgiu o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Paraíba, o primeiro do Brasil, fundado por dom José.

“Tinha que defender aquele pessoal e só com advogado para ficar exclusivamente com aqueles casos, então eu fui a São Paulo e conversei com dom Paulo Evaristo Arns, ele achou que o negócio ia dar certo”. E deu. Dom Paulo foi à Paraíba para inaugurar o centro de defesa que tinha o objetivo de ajudar os presos políticos e suas famílias.

“Havia injustiça e situações que você não aguenta. Tem que falar, tem que gritar. Então, realmente o que levou a gente a tomar posição foi a situação do povo. Ou você toma posição ou você está traindo o seu ministério. Que bispo é este? Que padre é este que está a serviço do povo e na hora que o povo é massacrado você então não fala nada? Então a gente denunciava. Eu  tenho algumas cartas pastorais, são todas de denúncias”, revelou.

Mas a tomada de postura contra o regime não foi fácil e sofreu retaliações dentro da Igreja. “Dentro da Igreja no começo nós não éramos aceitos. Muitas vezes os bispos do Sul não entendiam a coisa e achavam que era exagero nosso. Em um destes nossos encontros dom Hélder saiu chorando, porque foi colocar a situação de alguns que estavam sendo torturados e aí os bispos do Sul questionaram: ‘o senhor tem provas disso?’. Mas, meu Deus, prova de tortura?! A gente sabe pelas visitas que fazia, não tinha nada escrito, nada de provas não”, contou dom José, que junto a dom Paulo Evaristo Arns e dom Tomás Balduíno coordenou a publicação do documento “Eu ouvi os clamores deste povo”, que denunciava as questões da ditadura.

“Mas como é que a gente ia publicar aquilo? Eles foram de diocese em diocese mostrar o documento. No fim saiu um documento forte denunciando a ditadura e condenando a maneira através da qual os militares estavam conduzindo. Em todas as missas, em todas as dioceses do Nordeste o documento foi lido”, revela.

Preconceito – O menino José sentira preconceito no seminário. Muito antes de ter autoridade para enfrentar militares, foi vítima de uma tortura institucionalizada, aceita socialmente: o preconceito de raça. Em um dia normal de seminário, pisou no cordão de um colega. Branco, filho de família nobre, foi motivo o bastante para descobrir qual era seu lugar. “Ele me mostrou um canivete e disse: ‘lá fora você me paga’. Na hora do recreio eu fui pra cima dele e nós rolamos”, conta hoje, se divertindo. “Aí veio o regente, nos separou e nos colocou de castigo”.
Os dois ficaram de castigo até o regente justificá-lo para o diretor. “‘Este menino aqui é de boa família, este [nego] aqui é que não presta’. Durante a minha vida no seminário várias vezes eu senti isso. Como padre várias vezes a gente sentiu na paróquia esta discriminação e como bispo, a coisa ainda veio”, revelou aos 95 anos, e completou: “Eu me honro de ser negro. Sou negro no corpo e na alma. Olha meu cabelo, meu nariz, meu coração só podia ser de negro”.

Aos 74 anos dom José apresentou sua renúncia à Santa Sé, que chegou em 1976. Hoje é bispo emérito. Pregador de retiros. Contador de histórias e certamente a sua é da melhores. Encerramos a entrevista. Ele tomou, enfim, um gole d’água. Despediu-se atencioso e seguiu com passos lentos para seu descanso, deixando antes seu abraço e sorriso negro, de gente simples, que verdadeiramente se importa com quem lhe atravessa o caminho. A porta se fechou e voltamos para São Paulo.


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