Tudo dói neste país ultimamente

Já escrevi uma reportagem sobre aborto que causou muita, muita dor de cabeça e insultos a mim, seja por falta de interpretação do que estava escrito na reportagem ou por falta de capacidade de as pessoas lidarem com assuntos complexos que demandam análises e comportamentos que vão além da simplista dualidade. Está no meu livro, o Mulheres Extraordinárias. Leiam…

Falar da menina que foi estuprada dói demais. Por quatro anos essa pequena foi violada. E é disso que quero falar aqui… de um pênis enfiado à força em um corpinho de seis, sete, oito, nove anos de idade. Uma, duas, três…sei lá quantas vezes ao longo de todos estes anos… imaginem essa violência física somada ao cheiro, à presença deste homem, deste monstro em sua casa, à mesa com sua família, um espaço que deveria ser de amor, acolhida, alegria. Dói escrever e deve causar repulsa ler isso… mas é disso que se trata. A violação de uma infância.

Desde pequena tive medo disso, e descobri muito recentemente que fui abusada quando era ainda menor que esta pequena. O impacto eu sinto até hoje. Pânico, medo, tristeza… Dói falar disso e dói os julgamentos. A lei está aí desde a década de 1940. Mulheres vítimas de abuso sexual e/ou que correm risco de morrer podem interromper uma gestação. Mulheres… imaginem crianças, cujos corpos não estão preparados para gerar uma vida.

Dói falar também da interrupção de uma vida e ontem, na Sé, vi algumas jogadas pelas calçadas. Não vi manifestação na porta da Prefeitura em defesa dos meninos que cheiravam cola pra enfrentar a realidade da rua. Dói. Tudo dói neste país ultimamente. E trago isso aqui para expor o criminoso que cometeu esse abuso. Ele deve ser o foco da ira de tantos, não a criança. Não a vítima. A blogueira que vazou os dados da menina deve ser processada por violar a privacidade e aumentar a tortura dessa família. Não julguem mais uma vez a mulher, criança. Não.

“A borracha cega, mas não cala”

Sérgio Silva, atingido pela PM, enquanto cobria manifestações em 13 de junho
Sérgio Silva, atingido pela PM, enquanto cobria manifestações em SP

13 de junho de 2013 – As ruas de São Paulo estavam ocupadas. Ocupadas de manifestações contra o aumento das tarifas do transporte público, ocupadas de indignação e de imprensa.

Sérgio Silva, 31 anos, também ocupava as ruas fotografando, estava trabalhando, cobrindo as manifestações daquele 13 de junho. Foi atingido pela Polícia Militar, uma bala de borracha feriu seu olho esquerdo, o que diminui sua acuidade visual e poderá levá-lo à cegueira do olho esquerdo.

“Muitos outros companheiros da imprensa também foram atingidos enquanto estavam trabalhando, cumprindo o importante papel da imprensa para o aprofundamento da democracia. Sou testemunha de que cidadãos que protestavam pacificamente, ou simplesmente transeuntes voltando do trabalho, e que se depararam com a manifestação, também foram vítimas”, disse Sérgio que lidera um abaixo assiando na internet para proibir o uso de bala de borracha e gás de efeito moral contra manifestantes.

“Eu sei a dor que eu passei naquele dia, naquela noite, e é uma dor que eu não desejo nem para o policial que me acertou. Que ele não sinta nunca. Era vontade de querer morrer ali para não sentir mais a dor”. O desabafo de Sérgio foi registrado em vídeo pelo Sindicato dos Quimicos Unificados.

O abaixo assinado pode ser acessado, assinado e compartilhado aqui. A petição será entregue a Fernando Grella, Secretário de Segurança Pública; Geraldo Alckmin, governador de São Paulo; Edson Aparecido, Secretário da Casa Civil e Benedito Roberto Meira, Comandante Geral da Polícia Militar de São Paulo.

E você, já sofreu algum tipo de violência por parte da Polícia Militar enquanto se manifestava em sua cidade? Vote na enquete e compartilhe a situação aqu nos comentários, por uma Polícia Miltar mais preparada e uma sociedade mais democrática.

Mais um Silva é morto no Real life: a Fazenda

Quem serão os criminosos: o MST – Movimento dos Sem Terra ou a Brigada Militar? Talvez o Ministério Público gaúcho já tenha a resposta….

bandeira RS
foto: Karla Maria

Elton Brum da silva, 44 anos, mais um sem-terra. Foi morto nesta manhã (21 de agosto), enquanto a Brigada Militar – BM fazia a remoção de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST da Fazenda Southall, em São Gabriel – RS.

Segundo o Hospital Santa Casa de Misricórdia, para onde foi levado às 9h40, o rapaz foi atingido no tórax, com um disparo de arma de fogo. O tenente-coronel da BM Flávio Lopes, que participa da ação em São Gabriel, afirmou que 14 pessoas ficaram feridas, entre sem-terra e policiais militares.

A ocupação da Fazenda Southall em São Gabriel (RS), realizada no dia 12 de agosto,  integra a jornada nacional de luta realizada pela Via Campesina em todo o país. Os trabalhadores exigem o descontingenciamento de R$ 800 milhões do orçamento do Incra deste ano para a desapropriação de áreas para a reforma agrária. Somente no Rio Grande do Sul, duas mil famílias estão acampadas em beiras de estrada.

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul pediu apuração para identificar os responsáveis pela morte do sem-terra Elton Brum da Silva. “a presidência da Assembleia Legislativa solicitou à Casa Civil do governo estadual as condições para que o presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, Dionilso Marcon, tenha acesso ao local do conflito para verificar in loco as circunstâncias do ocorrido. É preciso avançar na reforma agrária para reduzir a violência no campo”, diz Ivar Pavan (PT), presidente da Assembleia.

Para o Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio Grande do Sul, “a morte deste brasileiro é inaceitável e resulta da intransigência do governo do estado, que encara protestos como crime, ocasionando agressões constantes a quem participa de manifestações, desconsiderando que elas são inerentes à democracia e asseguradas na constituição brasileira”.

Mais um Silva tomou conta dos blogs e sites hoje pela manhã, aos 44 anos Elton Brum da Silva foi assassinado na Fazenda Southall. Quantos de nós brasileiros, saberemos desta morte, desta novela que não tem fim nos latifúndios? Poucos eu diria, até porque este episódio certamente não terá mais de 30 segundos na grande mídia, quem informa e forma este povo. O Foco da TV é a outra Fazenda.

No real life, os Silva: Lula e Marina sobreviveram, já Elton….

Fontes: Vermelho, FolhaSP, CapitalGaucha

Aldeia Takuara, dos índios Guarani realiza Assembleia

“A gente não agüenta mais. Já perdemos a paciência. Estão fazendo o massacre de nossa gente, já mataram três lideranças nossas. Não vamos continuar morrendo aqui na beira da estrada. A terra nos pertence. Chega de esperar, vamos avançar…”

Nossa paciência acabou!

Foto: Verena Glass
Foto: Verena Glass

 

Essa tem sido uma das afirmações repetidas por várias lideranças, no decorrer da Aty Guasu. Ao mesmo tempo o cacique Elpideo expressava o sentimento de seu povo dizendo “Nós Guarani somos um povo calmo, de muita paciência. Mas quando a paciência acaba ninguém segura o Guarani”. Com isso estava dando um recado claro para as autoridades, os representantes do governo federal e Assembleia Legislativa ali presentes. No mesmo tom lideranças de Kurusu Ambá repetiram “A gente não agüenta mais. Já perdemos a paciência. Estão fazendo o massacre de nossa gente, já mataram três lideranças nossas. Não vamos continuar morrendo aqui na beira da estrada. A terra nos pertence. Chega de esperar, vamos avançar…” E em tom severo alertaram as autoridades presentes para a responsabilidade que lhes cabe, sobre qualquer violência de que venha a ser vítima a sua comunidade.

No documento final da Grande Assembleia Kaiowá Guarani reafirmam sua cobrança de ação imediata e decisiva para coibir a continuidade da violência e impunidade “Temos sofrido todo tipo de intimidação e ameaças por fazendeiros e pistoleiros que não querem ver nossos direitos respeitados. E ainda assim nos negam o mínimo daquilo que nos foi tirado! Não vemos o Governo Federal fazer nada para solucionar nossa situação RAPIDAMENTE. O pior é assistir a impunidade, a falta de justiça, contra aqueles que há décadas provocam através de vários meios, um verdadeiro genocídio do nosso povo. Não vemos esses assassinos serem julgados e condenados, o que vemos é a criminalização e a prisão injusta de nossas lideranças que lutam e reivindicam nossos direitos. Estamos cansados de esperar uma solução definitiva do Governo Federal para que os procedimentos de identificação previstos no TAC firmado entre a FUNAI e o Ministério Público Federal, em 2007, sejam de uma vez por todas concretizados.

É a monocultura desenfreada da soja, da cana e do gado, que financiados por dinheiro público, tomam o espaço da agricultura familiar indígena e camponesa, levando milhares de indígenas, quilombolas e trabalhadores rurais sem-terra ao desespero, por não terem nenhuma perspectiva de vida digna para produzirem seus alimentos e garantirem a sobrevivência das futuras gerações. Além, disso destruindo o pouco que restou dos recursos naturais de nossa região.

Repudiamos a postura do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul que ao invés de buscar uma solução para a demarcação de nossas terras, conforme a orientação feita pelo Ministério Público Federal, vem empreendendo todos os esforços para que sejam cancelados os trabalhos de identificação de nossos tekohá, pregando mentiras que somente aumentam o racismo e a intolerância contra o nosso povo. Os nossos direitos estão garantidos e nunca nosso povo abandonará a luta pela demarcação de nossos tekohá! O Governo Estadual deve entender que tentar barrar aquilo que jamais desistiremos, somente criará mais conflitos! O povo indígena de Mato Grosso do Sul quer a paz e nunca a violência! Demarcar as terras de nosso povo não afetará a economia do estado e o que queremos é muito pouco perto de todo mal que estamos sofrendo e de tudo o que nos tiraram! Soluções existem para a demarcação, o que falta é a vontade política e o respeito às nossas reivindicações e direitos!” (Documento Final da Aty Guasu aldeia Takuara)

O documento final traz as principais reivindicações dos Kaiowá Guarani hoje, destacando a imediata conclusão da identificação das terras, julgamento e punição dos assassinos das lideranças. Concluem solicitando providências nas áreas de saúde, educação e produção, especialmente de alimentos. Viva Ñande Ru, Ñande Sy, Viva nossos Guerreiros e Guerreiras, Viva a luta indígena, Viva o Movimento Kaiowá Guarani.

DEMARCAÇÃO JÁ! ATY GUASU  Terra Indígena Takuara, Juti – MS. No segundo dia da Assembleia foi feita uma caminhada ao local em que Marcos Veron foi assassinado (uma das lideranças históricas da luta do povo Guarani), terminando no local em que está sepultado. Ao som dos mbarakas o cântico de indignação e esperança.

O cerco da cana
O deputado Pedro Kemp manifestou seu sentimento ao atravessar os enormes canaviais e de repente chegar nos barracos da aldeia Takuara “Fiquei profundamente deprimido, diante daquele cenário de terra arrasada, inundada de cana…”

Ladio, um dos filhos de Marcos Veron, foi dizendo com tristeza “estamos rodeados de cana. Aqui perto está sendo construída uma usina. Hoje aqui não tem mais mata, peixe, caça. Só tem bois e plantações de cana e soja. Não temos mais carne de anta, tatu ou queixada.”

Enquanto acontecia a Aty Guasu, ali próximo era possível ver a movimentação de grandes máquinas, fogo, ônibus levando e trazendo gente que cortava e plantava cana.

Até quando ?
Além do documento da Assembleia, os participantes fizeram dois documentos de solidariedade e apoio irrestrito às lutas de Kurusu Ambá e Laranjeira Nhanderu.

Fonte: Egon Heck / Cimi MS

Em 2008, 70% dos índios assassinados eram Guarani Kaiowá

 

Violência e censura aos jornalistas, pauta frequente pelo mundo…

Jornalistas são feitos reféns por traficantes em Paraisópolis, favela de São Paulo

Segundo o FolhaOnline, um repórter e uma fotógrafa free-lance que faziam reportagem em Paraisópolis, para uma revista de circulação nacional, foram mantidos reféns na noite do dia 24 por homens armados. O equipamento da fotógrafa foi roubado pelos homens que os mantiveram reféns por cerca de 40 minutos.

“Os jornalistas entraram na favela às 10h e passaram o dia circulando a pé. Ao anoitecer, apesar de o governo de São Paulo ter determinado no início deste mês uma ocupação por parte da Polícia Militar no local, os profissionais foram capturados”, diz a Folha. A identidade dos jornalistas não foi divulgada.

A libertação deles ocorreu quando os criminosos os colocaram em um carro e os levaram para um posto de gasolina, na avenida Giovanni Gronchi. Eles não sofreram violência física.

 

Violência com jornalistas

Divulgação

A ONG Sem Fronteiras  foi fundada em 1985 e tem por objetivo defender a liberdade de imprensa pelo mundo,  defendendo os jornalistas e colaboradores dos meios de comunicação que estão presos ou perseguidos por suas atividades profissionais, denunciando os maltratos e a tortura em que sofrem em muitos países.

 

A ONG luta para que acabe a censura e combate toda e qualquer forma de restrição à liberdade de imprensa. Trabalha pela melhoria da segurança dos jornalistas, especialmente em áreas de conflito.

 

Números da violência em 2008 

  • 60 jornalistas assassinados
  • 1 colaborador de meios de comunicação assassinado
  • 673 jornalistas detidos
  • 929 agredidos e maltratados
  • 353 meios de comunicação censurados 
  • 29 jornalistas seqüestrados

 Com relação à internet

  • 1 blogger assassinado
  • 59 bloggers detidos
  • 45 agredidos
  • 1740 sites de informação fechados ou suspensos

 

 fonte: Knight Center for Journalism